Análise BD | Made in Abyss 4 – Quando o Abismo Mostra os Dentes
Made in Abyss 4 leva Riko, Reg e Nanachi até à 5.ª Camada, onde Bondrewd surge como uma das figuras mais perturbadoras da obra.
Made in Abyss continua a provar porque se tornou uma referência moderna do manga de fantasia e aventura. Depois de volumes que já tinham mostrado o lado mais cruel do Abismo, o quarto volume, que reúne os capítulos 25 a 32, começa a preparar uma mudança de escala. A viagem deixa de ser apenas uma descida perigosa e passa a assumir um peso emocional e narrativo muito maior.
A chegada à 5.ª Camada, conhecida como o Mar dos Corpos, funciona como uma excelente transição. O cenário continua a ser fascinante, mas existe uma sensação constante de que qualquer descoberta pode esconder uma ameaça. Riko, Reg e Nanachi avançam com objetivos muito claros, embora a obra faça questão de lembrar que, em Made in Abyss, conhecer melhor este mundo nem sempre significa compreendê-lo melhor.
É precisamente aqui que surge um dos pontos que continuam a dividir-me na série. Made in Abyss é uma obra-prima moderna na forma como constrói o seu universo, mas por vezes tenta colocar demasiada informação no mesmo espaço. Relíquias, regras do Abismo, conceitos científicos, termos próprios e explicações sobre os seus efeitos podem tornar algumas passagens mais densas do que precisavam de ser. A ideia é fascinante, mas a exposição nem sempre acompanha o ritmo da aventura, e há momentos em que o leitor precisa de parar para organizar tudo o que acabou de receber.
Ainda assim, quando a narrativa centra atenções em personagens, o manga volta a estar no seu melhor. Nanachi continua a ser uma das figuras mais interessantes deste arco, enquanto Riko e Reg mantêm a dinâmica que tornou o trio tão fácil de acompanhar. E depois temos Bondrewd, o Soberano da Aurora, uma personagem que consegue ser ameaçadora sem depender apenas da força física. A sua relação com a ciência, o Abismo e as pessoas à sua volta cria um antagonista desconfortavelmente carismático, daqueles que conseguem prender a atenção mesmo quando o leitor sabe que não deve confiar nele.
A presença de Prushka acrescenta uma dimensão emocional importante a este núcleo. A relação que estabelece com Riko ajuda a humanizar Ido Front e oferece um contraste interessante com a frieza dos métodos de Bondrewd. O volume consegue ser perturbador sem transformar o choque num simples espetáculo, e essa diferença é importante. O horror de Made in Abyss funciona melhor quando nasce das consequências das escolhas das personagens, não apenas da vontade de impressionar.
Também é impossível ignorar a evolução editorial neste volume. Nos anteriores, critiquei o tipo de letra, que por vezes dificultava a leitura e retirava fluidez a certas páginas. Aqui, a experiência parece mais equilibrada e simples de acompanhar, o que beneficia bastante uma obra que já tem tendência para apresentar muita informação por página.
Made in Abyss 4 é, no fundo, um volume de transição que acaba por ser muito mais importante do que parece. Amplia o mundo, apresenta um dos melhores antagonistas da série e prepara a próxima etapa da viagem com um peso enorme. Nem toda a exposição funciona na perfeição, mas quando a obra acerta, acerta em cheio.
É um volume duro, estranho e fascinante, exactamente aquilo que se espera de Made in Abyss. A série continua a caminhar numa linha desconfortável entre maravilhamento e horror, e é essa combinação que a mantém tão especial.
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.




