Análise | Silver Pines – Um dos pesadelos mais fascinantes do ano
Silver Pines combina survival horror e exploração metroidvania numa aventura sombria que mistura Twin Peaks, Silent Hill e Resident Evil.
Jogo: Silver Pines
Disponível para: PC, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2, PlayStation 5, Xbox Series
Versão testada: Nintendo Switch 2
Desenvolvedora: Wych Elm
Editora: Team17
Há localidades onde ninguém parece querer ficar, mas onde algo nos impede de partir. Silver Pines é uma delas. A estreia da Wych Elm Games, publicada pela Team17, junta survival horror, exploração metroidvania e mistério policial numa aventura que parece saída de um sonho febril de David Lynch. E, felizmente, tem muito mais para oferecer do que referências aos clássicos.
Assumimos o papel de Red Walker, um detective privado que acorda num restaurante praticamente vazio, com a cabeça feita num oito e poucas memórias do que aconteceu. A sua missão consiste em encontrar Eddie Velvet, um músico desaparecido associado ao desaparecimento de uma mulher. Pelo caminho, somos confrontados com habitantes tão estranhos como uma mulher que só comunica por telefone, um homem que escava incessantemente um buraco e a sombra inquietante de uma figura conhecida como Little Man. A narrativa nunca facilita todas as respostas, mas é precisamente essa incerteza que alimenta a curiosidade.
A primeira grande vitória de Silver Pines está na atmosfera. A animação rotoscópica confere aos movimentos de Walker uma estranheza quase desconfortável, enquanto a chuva, as ruas desertas e os interiores degradados reforçam a sensação de estarmos presos num pesadelo. Os cenários bidimensionais ganham profundidade através de planos em parallax, com edifícios e passagens a prolongarem-se no horizonte. A banda sonora, dominada por jazz sombrio, evoca Angelo Badalamenti e Vangelis, complementando uma identidade visual que também faz lembrar Another World e Flashback.
A jogabilidade recupera ideias do survival horror clássico, sobretudo de Resident Evil e Silent Hill, mas adapta-as a uma estrutura de exploração lateral. A progressão depende de ferramentas, chaves e atalhos que permitem alcançar novas áreas. O pé-de-cabra, por exemplo, serve para abrir passagens barricadas e também como arma. A necessidade de regressar a locais anteriores existe, mas raramente se torna excessiva.
Há pormenores de design particularmente felizes. A máquina fotográfica Polaroid permite registar pistas e códigos directamente no mapa, enquanto os telefones públicos servem para contactar Mr. Jackman e guardar o progresso, gastando dinheiro. Sim, poupar também custa dinheiro. Entre caixas de armazenamento, munições limitadas e um inventário organizado por grelha, cada objecto exige ponderação. Até a escolha entre comprar mantimentos ou reservar dinheiro para guardar o jogo faz parte da tensão.
Os puzzles são outro ponto forte, alternando entre lógica convencional e soluções deliberadamente surreais. A informação necessária está frequentemente escondida nos cenários, em apontamentos ou em obras de arte que merecem uma segunda observação. Quem explorar cuidadosamente a cidade encontrará ainda desafios opcionais que permitem desbloquear um final alternativo. São recompensas para jogadores atentos, não apenas para quem insiste em vasculhar cada canto.
Infelizmente, o combate não acompanha a qualidade do resto. Walker é lento, as esquivas nem sempre respondem como seria desejável e os confrontos contra bosses podem transformar-se em exercícios frustrantes de disparar, fugir e repetir. A gestão de munições torna os encontros tensos, mas nem sempre interessantes. Algumas reacções vocais demasiado descontraídas perante acontecimentos horríveis também quebram a imersão, e certos saltos exigem mais precisão do que os controlos permitem.
Ainda assim, estas falhas não apagam o mérito de uma aventura que sabe exactamente que tipo de pesadelo quer construir. Com cerca de 12 horas de duração, Silver Pines é uma estreia notável, capaz de cruzar influências reconhecíveis com uma personalidade própria. Quem procura acção frenética poderá torcer o nariz, mas os fãs de terror psicológico, mistérios e exploração têm aqui uma das experiências mais cativantes do género.
Nota: 8/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.





