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Análise BD: Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo

Há bandas desenhadas que nos contam uma história. Outras levam-nos para dentro de um determinado lugar e fazem-nos sentir que estamos a caminhar pelas mesmas ruas, a respirar o mesmo ar e, sobretudo, a carregar connosco o peso da História.

Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo pertence claramente a este segundo grupo.

Depois de Islander, Caryl Férey e Corentin Rouge voltam a juntar-se para nos oferecer uma história completamente diferente na geografia e no ambiente, mas onde encontramos novamente aquilo que parece ser uma das grandes forças desta dupla: a capacidade de transformar um contexto político e social complexo num thriller de leitura extremamente envolvente. E se há algo que Sangoma faz particularmente bem é precisamente isto: nunca deixar que a componente política se sobreponha à história que quer contar.

 

Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo

A ação transporta-nos para uma África do Sul cerca de duas décadas depois do fim do Apartheid. Oficialmente, o regime terminou. Mas as feridas, essas, continuam abertas. É nesse país profundamente dividido que um trabalhador negro é encontrado morto nas terras de uma quinta. O tenente Shane Shepperd fica encarregue da investigação e aquilo que poderia parecer inicialmente apenas mais um caso criminal rapidamente começa a revelar uma realidade muito mais complexa, porque em Sangoma um cadáver não é apenas um cadáver. É uma porta de entrada para um país onde as diferenças raciais continuam a determinar relações de poder, onde a reforma agrária é capaz de incendiar o debate político e onde o passado continua demasiado presente. Aqui Caryl Férey demonstra novamente o seu domínio do thriller.

O argumento avança com um ritmo muito seguro, apresentando progressivamente novos personagens, novas informações e novas ramificações para o mistério. Não existe a preocupação de explicar tudo de imediato. Férey vai deixando pistas, criando suspeitas e, sobretudo, construindo uma atmosfera de permanente tensão. Nunca sabemos verdadeiramente onde a investigação nos vai levar, sendo isso uma das grandes virtudes do álbum e que me fez estar agarrado à corrente.

Sangoma não vive apenas da investigação policial. Aliás, reduzir o álbum a um thriller policial seria fazer-lhe uma enorme injustiça. Por detrás do crime está um país traumatizado. Fala-se de um país onde a desigualdade económica e racial continua a alimentar ressentimentos e onde diferentes grupos procuram impor a sua própria visão sobre o futuro da África do Sul e é então neste equilíbrio entre crime, política, racismo, religião, desigualdade e violência que a obra ganha verdadeira dimensão.

Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo

Depois temos Corentin Rouge. Aqui, confesso, é muito difícil ficar indiferente. Já tinha gostado bastante do seu trabalho em Rio e Islander ( o qual aguardo o segundo tomo ansiosamente), mas em Sangoma Rouge parece particularmente confortável com o material que tem entre mãos. O seu desenho realista adapta-se na perfeição à história. As personagens possuem uma expressividade muito forte, os ambientes são extremamente cuidados e existe uma utilização muito cinematográfica da planificação. Rouge sabe quando aproximar a câmara e quando a deve afastar.  Sabe sobretudo, quando uma imagem precisa de ocupar espaço. Há várias sequências em que as vinhetas praticamente parecem ganhar movimento, transmitindo uma energia muito própria às perseguições e aos momentos de violência. Mas também é nos momentos mais silenciosos que o seu trabalho ganha força.

As paisagens sul-africanas, as quintas, os bairros, os espaços urbanos e os interiores ajudam a construir uma atmosfera que é simultaneamente fascinante e inquietante. Presenciamos uma África do Sul bonita, mas nunca verdadeiramente tranquila, o que funciona muito bem. Outra coisa que gostei particularmente é a forma como o desenho consegue estabelecer contrastes entre os diferentes mundos que coexistem na narrativa. Dicotomicamente temos de um lado, os espaços dos proprietários e das elites. Do outro, os bairros pobres e as comunidades onde a presença do Estado parece muitas vezes distante ou inexistente. Isto meus amigos,não é apenas cenário mas sim a narrativa que se compõe perfeitamente. É através desses espaços que Rouge também nos conta a história de Sangoma.

Penso que é precisamente aqui que a parceria entre Férey e Rouge funciona melhor, na medida em que o desenho não está simplesmente a ilustrar o argumento. Está a acrescentar informação àquilo que estamos a ler. Como leitor de BD, é algo que valorizo particularmente. Dá -me a sensação de estar a ver um filme na tv ou no cinema porque a adrenalina é quase real.

Sangoma também beneficia bastante do facto de ser uma história auto conclusiva. Em 152 páginas, Férey e Rouge conseguem construir um thriller com princípio, desenvolvimento e conclusão, sem aquela sensação cada vez mais frequente de estarmos simplesmente a comprar o primeiro capítulo de uma história que só daqui a dois ou três anos sabemos como termina. Não significa que todas as personagens tenham o mesmo grau de desenvolvimento que poderiam ter numa série mais longa. Considero até que algumas ficam inevitavelmente mais próximas do arquétipo do que outras. Mas, sinceramente, não me parece que isso prejudique significativamente a experiência de leitura porque Sangoma sabe exatamente aquilo que quer ser. Consegue ser um thriller político, uma história policial, um retrato de um país ainda muito marcado pelo seu passado e acima de tudo, uma excelente demonstração de talento de Corentin Rouge.

Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo

Quanto a esta edição, a  Arte de Autor apresenta-nos uma capa dura, de grande formato, com 152 páginas a cores. É precisamente o tipo de obra que beneficia de uma edição deste género, porque o desenho de Rouge merece espaço para respirar.  Parece-me haver aqui uma decisão editorial  particularmente acertada: não tentar transformar Sangoma num produto excessivamente luxuoso, mas apostar numa edição sólida que permita ao desenho brilhar. Esta é uma BD que pede uma boa impressão e um formato generoso.

Temos uma história sobre um crime que serve de ponto de partida para falar de um país que ainda tenta perceber como viver depois de décadas de segregação e Caryl Férey constrói uma narrativa tensa, política e suficientemente imprevisível para nos manter agarrados às páginas como já mencionei. Corentin Rouge, por sua vez, oferece um daqueles trabalhos gráficos que tornam difícil passar rapidamente por uma prancha. Há sempre qualquer coisa para observar: uma expressão, um cenário, uma composição, uma mudança de plano.

Temos uma obra que consegue entreter sem ser inconsequente.Tem ação, tem investigação, tem violência e tem suspense.

Sangoma é, para mim, uma das boas propostas de BD europeia editadas em Portugal este ano. Uma leitura que recomendo particularmente a quem gosta de thrillers policiais com uma forte componente política e social  e, naturalmente, a quem acompanha o trabalho de Corentin Rouge. Não posso deixar de aconselhar de aproveitarem este desenhador no álbum Wendigo  Thorgal Saga lançado pela ASEITA onde faz dupla com Fred Duvall e esperar que também alguma editora lançasse XIII Mistery onde ele também dá o seu contributo e onde temos o seguimento de outra obra prima de Jean Van Hamme, um dos meus argumentistas favoritos de sempre. Mas isto já sou eu a sonhar alto…

Carlos Maciel

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

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