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Crítica| Carrie – Como Reinventar um Clássico Sem o Trair

Mike Flanagan regressa a Stephen King com Carrie, uma série de oito episódios que aposta na empatia, no terror psicológico e no bullying digital.

Carrie

Mike Flanagan começa a tornar-se uma espécie de dono não oficial das adaptações de Stephen King. Depois de Gerald’s Game, Doctor Sleep e The Life of Chuck, chega agora a Carrie, com uma série de oito episódios. E, para mim, havia alguma curiosidade em ver esta série já que Carrie foi um dos primeiros livros de Stephen King que li.

Talvez por isso tenha sempre existido uma pequena pedra no meu sapato. Adoro o Carrie de Brian De Palma, é um clássico absoluto do terror, mas nunca senti que fosse uma transposição particularmente fiel do romance de 1974. O telefilme de 2002, protagonizado por Angela Bettis, tentou aproximar-se mais da estrutura e dos acontecimentos do livro, embora também tomasse algumas liberdades. Flanagan parte agora dessa questão e tem uma vantagem decisiva, mais tempo para respirar.

Carrie

A grande mudança está na própria Carrie. Summer H. Howell não tenta replicar Sissy Spacek. A sua Carrie é mais doce, genuína e protegida do mundo, quase como uma rapariga que aterrou num planeta estranho e está a tentar perceber as regras. Educada em casa, sem internet ou telemóvel, chega à escola secundária sem contexto para interpretar aquilo que os outros adolescentes consideram normal. A inocência é essencial, porque torna cada gesto de crueldade mais desconfortável.

Flanagan não está tão interessado em perguntar até onde pode chegar a vingança de Carrie, mas antes porque é que uma adolescente tão isolada foi empurrada para esse ponto. O terror nasce menos do susto e mais da sensação de estarmos a assistir a uma tragédia que podia ter sido evitada. A série aproxima-se assim de um drama adolescente psicológico, embora a telecinesia esteja sempre a ganhar espaço. Esta escolha coloca a série numa zona mais melancólica e contemplativa do que aquela que muitos espectadores poderão esperar.

Carrie

Em vez de surgir apenas como uma arma narrativa guardada para o final, o poder vai aparecendo aos poucos, enquanto Carrie começa a compreender aquilo de que é capaz. Há quase uma lógica de coming of age sobrenatural, como se estivéssemos a acompanhar uma super-heroína em treino, só que o mundo à volta dela está longe de ser seguro.

Samantha Sloyan é igualmente importante. Margaret White deixa de ser uma caricatura religiosa e passa a ser uma mãe obsessiva, sufocante, mas também profundamente ligada à filha. Isto torna a relação entre ambas mais complexa e, em vários momentos, mais dolorosa. O problema já não é apenas a violência, mas a forma como a proteção pode transformar-se em controlo. É aqui que Carrie encontra o seu verdadeiro coração.

Carrie

A atualização para 2026 também funciona. A escola secundária agora tem telemóveis, redes sociais, exercícios de resposta a ataques, pais que interferem na escola e bullying transformado em espetáculo digital. A humilhação já não termina quando se fecha a porta da sala de aula, pode continuar online, tornar-se viral e ganhar vida própria. É uma modernização óbvia, mas coerente com a premissa original.

Ao mesmo tempo, nem tudo funciona com a mesma força. A estrutura documental, as novas camadas sobre fenómenos psíquicos e algumas subtramas fazem sentido dentro da ambição de Flanagan, mas também contribuem para uma sensação de expansão excessiva. Carrie é um romance relativamente curto, e oito episódios obrigam a criar espaço onde antes não existia. A série por vezes sente essa necessidade de preencher o mapa, uma crítica também apontada por algumas análises à adaptação.

Ainda assim, esta é uma adaptação que percebe uma coisa fundamental, Carrie não é apenas uma história sobre telecinesia e vingança. É uma história sobre adolescência, crueldade, isolamento e adultos que falham quando mais deviam proteger. Flanagan leva isso para 2026 sem esquecer o ADN de King, homenageia De Palma em algumas imagens, mas prefere construir a sua própria identidade através de uma atmosfera melancólica e da banda sonora dos The Newton Brothers.

Carrie

Em jeito de conclusão, não é a Carrie de De Palma, nem uma cópia aumentada do livro. É uma reinterpretação que arrisca, por vezes arrisca demasiado, mas que encontra em Summer H. Howell uma protagonista surpreendentemente eficaz e num Flanagan mais interessado em compreender Carrie do que simplesmente fazê-la assustadora. Para quem conhece a história, há poucas surpresas na base. A diferença está na forma como chegamos lá.

Nota: 8/10

António Moura

Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.

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