Crítica | Resident Evil: O pesadelo real de Raccoon City
Resident Evil chega novamente ao grande ecrã, mas desta vez num reboot assinado por Zach Cregger, que parece trazer novo sangue à série.
Resident Evil é talvez uma das séries de adaptações de videojogos com maior sucesso financeiro, apesar de não se aproximar sequer do êxito comercial de Super Mario Bros.

Resident Evil: o antes e o agora
Corria o ano de 2002 e o primeiro Resident Evil foi uma espécie de revolução: embora não se centrasse completamente nas personagens mais conhecidas dos jogos, apresentava uma abordagem tão cool quanto todo o zeitgeist da sua era e uma banda sonora que, ainda hoje, continua a ser considerada icónica. Era, porém, apenas um filme mediano, na sua mistura de terror, acção e ficção científica. As suas sequelas arriscaram ideias cada vez mais ousadas, culminando no último filme de Paul W. S. Anderson, que incluía um monstro semelhante a um dragão. A série da Netflix e o primeiro reboot, ainda que mais próximos do material de origem, não convenceram as massas nem reuniram apoio suficiente para que houvesse uma continuação. Ao fim de quase duas décadas e meia, seria possível que o mundo tivesse desenvolvido fadiga de Resident Evil no grande ecrã?
O envolvimento de Zach Cregger surgiu numa altura em que o seu premiado A Hora do Desaparecimento ainda não tinha estreado, e Barbarian continuava a fazer burburinho junto de quem se atreveu a descobri-lo através do streaming. A sua intenção foi, desde logo, contar a sua visão do que é Resident Evil: menos uma adaptação e mais uma exploração cinematográfica do género definido pelos videojogos, resultando num filme surpreendente.

Um estafeta numa missão arriscada
Seguimos a história de Bryan (Austin Abrams), um estafeta médico responsável por levar mercadorias importantes para hospitais. É-lhe atribuída a tarefa de ir ao hospital de Raccoon City entregar uma encomenda muito importante, mas, pelo caminho, Bryan rapidamente se apercebe de que algo está muito errado e de que se envolveu em algo incompreensível.
É importante entrar neste filme com uma certa gestão de expectativas. Depois de diversas tentativas de adaptar, e de alterar, o material de origem, Cregger opta por recomeçar do zero, numa história que em nada – pelo menos, ainda – tem a ver com as tão adoradas personagens dos videojogos. Trata-se, antes, de uma narrativa inserida no universo de Resident Evil, com as menções usuais a Raccoon City e o envolvimento da Umbrella Corporation, focando os seus esforços noutras ideias.
Esta distância permite, assim, que o filme viva por si mesmo, deixando o espectador com uma curiosidade aguçada durante toda a hora e meia de filme. Sustos e gargalhadas – sim, gargalhadas – estão garantidos. É um equilíbrio delicado que o cineasta consegue manter, criando uma experiência que, em muitos aspectos, homenageia tudo o que amamos nos videojogos. Desde um protagonista claramente a lidar com uma experiência nova e a explorar a resolução de puzzles e problemas, até à identidade do survival horror que faz dos videojogos um dos géneros favoritos dos fãs, ao qual se juntam alguns detalhes discretos, tudo está presente neste filme.

Novas ideias num universo adorado pelos fãs
Não foi há muito tempo que Evil Dead Burn foi criticado por utilizar elementos do seu universo de uma forma superficial: um filme que, em pouco ou nada, teria de estar ligado à série para funcionar da mesma maneira. Acontece que a mesma crítica poderia, normalmente, ser aplicada a Resident Evil, mas o que o distingue é a forma como esses elementos são utilizados e a sua ligação ao material de origem. Neste caso, Cregger é mais consistente em destacar essas ideias, seja visualmente, através da narrativa ou da sua incrível banda sonora, novamente assinada pela dupla Ryan e Hays Holladay, colaboradores habituais do cineasta, cujos temas nos mantêm em tensão máxima, à espreita do perigo.
A narrativa, concentrada numa só noite, permite estabelecer com facilidade vários detalhes do universo de Resident Evil, sem correr o risco de se tornar demasiado complicada ou de juntar demasiado num só filme. O resultado é um contraste imprevisível face às entradas anteriores da saga.

Assim, Resident Evil é a não-adaptação que a série há muito necessitava. Tem a ousadia de correr o risco de reinventar a narrativa num universo vasto – um que, eventualmente, poderá expandir-se no grande ecrã -, mas dá um primeiro passo disciplinado na direcção certa. Quem procurar mais uma adaptação fiel das personagens adoradas dos jogos poderá sentir-se desiludido; os fãs de cinema de terror contemporâneo, porém, encontrarão aqui um exemplo fascinante, que só Cregger parece capaz de entregar. Bem-vindos ao novo pesadelo de Resident Evil.
Nota Final: 9/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.
