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Netflix aposta nas salas de cinema

A Netflix prepara uma mudança significativa na sua relação com o mercado cinematográfico. A plataforma vai começar a divulgar as receitas de bilheteira do mercado norte-americano de seis das suas próximas estreias, abandonando uma política de longa data de não revelar publicamente os resultados dos seus filmes nas salas. A decisão surge num momento particularmente favorável para a exibição cinematográfica nos Estados Unidos e poderá representar uma aproximação progressiva da empresa ao modelo tradicional de distribuição, depois de anos em que a estratégia da Netflix privilegiou claramente a estreia em streaming.

La Bola Negra
La Bola Negra

Um dos filmes que estará no centro desta nova abordagem é La Bola Negra, drama queer geracional realizado por Javier Ambrossi e Javier Calvo. O projeto tornou-se uma das sensações do Festival de Cannes, onde os realizadores conquistaram o Prémio do Júri para Melhor Realização, antes de ser adquirido pela Netflix por cinco milhões de dólares. Protagonizado por Penélope Cruz, o filme passou também pelo Festival de Telluride e terá uma sessão em destaque em Toronto. A estreia nos cinemas norte-americanos está marcada para 16 de outubro, com uma presença exclusiva de 46 dias, antes do lançamento na Netflix a 2 de dezembro. Será a mais longa janela cinematográfica concedida até agora pela plataforma a um dos seus filmes, ultrapassando o modelo de lançamentos limitados que a empresa tradicionalmente utilizou sobretudo para promover candidatos à temporada de prémios.

A mudança torna-se ainda mais relevante quando comparada com os planos da Netflix para 2027. Narnia: The Magician’s Nephew, realizado por Greta Gerwig, deverá ter uma distribuição ampla durante quase 50 dias, incluindo salas IMAX, enquanto Charlie and the Chocolate Factory terá uma janela de 47 dias durante a época natalícia. A tendência aproxima a Netflix de uma prática que outros serviços de streaming, como a Apple e a Amazon, já incorporaram nas suas estratégias: utilizar a passagem pelos cinemas não apenas como uma etapa de qualificação para prémios, mas também como uma ferramenta para transformar os filmes em acontecimentos culturais, gerar conversa semanal em torno das bilheteiras e prolongar a sua relevância antes do lançamento nas plataformas.

Greta Gerwigs Narnia
Filmagens de “Narnia”

A aproximação acontece precisamente quando a indústria cinematográfica norte-americana atravessa um período de recuperação. A temporada de verão de 2026, contabilizada entre 1 de maio e 7 de setembro, tornou-se a mais lucrativa de sempre nos Estados Unidos, com 4,76 mil milhões de dólares em receitas de bilheteira, segundo dados da Rentrak. O valor supera o anterior recorde, de 4,755 mil milhões de dólares, alcançado em 2013, quando Homem de Ferro 3, Gru – O Maldisposto 2 e Homem de Aço estiveram entre os grandes sucessos da temporada. Para os exibidores, a entrada de um dos maiores operadores mundiais de streaming neste circuito poderá representar um importante reforço, sobretudo se a Netflix passar a apostar em campanhas de estreia cinematográfica mais robustas e em janelas de exclusividade próximas do padrão atual da indústria, situado em torno dos 45 dias.

A relação entre a Netflix e as salas de cinema tem sido, contudo, marcada por alguma tensão. Durante anos, a empresa defendeu um modelo centrado no streaming e mostrou-se relutante em adotar prolongada exibição exclusiva nas salas de cinema, enquanto os exibidores contestavam a ausência de um período significativo de exclusividade antes da disponibilização dos filmes na plataforma. A mudança agora em curso não significa necessariamente que a Netflix esteja a abandonar a sua filosofia de streaming first, mas revela uma maior disponibilidade para explorar o potencial da distribuição cinematográfica. A própria empresa tem vindo a reconhecer o valor que uma passagem pelas salas pode acrescentar aos seus filmes, tanto em termos de visibilidade como de posicionamento cultural e de prestígio.

La Bola Negra
La Bola Negra

A nova política de transparência abrangerá seis produções: La Bola Negra, Narnia: The Magician’s Nephew, The Further Mis-Adventures of Cliff Booth, The Mosquito Bowl e Ink, além de um sexto título ainda integrado no calendário anunciado pela plataforma. Entre os projetos encontra-se The Further Mis-Adventures of Cliff Booth, protagonizado por Brad Pitt, com argumento de Quentin Tarantino e realização de David Fincher, que terá uma estreia exclusiva em IMAX a 25 de novembro. A divulgação dos resultados permitirá, pela primeira vez, acompanhar os desempenhos destes filmes através da mesma métrica utilizada pelos grandes estúdios de Hollywood.

Em Portugal, porém, a estratégia da Netflix ainda não tem correspondência garantida. Os próximos títulos não têm, até ao momento, distribuição cinematográfica assegurada no mercado nacional. No passado recente, a NOS Lusomundo Audiovisuais foi responsável pela distribuição nos cinemas portugueses de produções Netflix como Aviso Vermelho, The Gray Man – O Agente Oculto, Não Olhem Para Cima e O Assassino, cujos respetivos resultados de bilheteira foram divulgados ao abrigo da legislação vigente em Portugal. Não existe, contudo, confirmação de que a distribuidora voltará a assumir os próximos lançamentos. Assim, enquanto nos Estados Unidos a Netflix começa a aproximar-se das regras e métricas tradicionais da indústria, permanece por saber até que ponto esta nova estratégia terá impacto no mercado português.

Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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