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Crítica | Espécies: Marion Le Coroller estreia-se com um body horror

Marion Le Coroller é a mais recente cineasta do terror francês, que se estreia com Espécies, um body-horror visceral sobre a dedicação laboral.

O cinema de terror francês continua em grande forma, com um novo nome a afirmar-se: Marion Le Coroller. Antes de se tornar cineasta, Le Coroller trabalhou na área das finanças e viveu uma experiência de burnout, que viria a motivar uma profunda mudança na sua vida. A realizadora estreou a sua primeira longa-metragem nas sessões da meia-noite do Festival de Cannes, e Espécies é o resultado de uma experiência pessoal intensa aliada ao trabalho dedicado de vários criativos franceses consagrados, dando um novo e inquietante fôlego ao mais recente body horror francês.

A vida de uma médica estagiária, levada ao extremo do body-horror

Seguimos a vida de Margot (Mara Taquin), uma jovem médica estagiária que, nas suas primeiras semanas no hospital, tem dificuldade em acompanhar o ritmo e as exigências de um dos mais competitivos serviços de urgência do país. Quando começa a atender pacientes da sua idade que manifestam sintomas estranhos e assustadores, o corpo de Margot também começa a transformar-se de forma extrema.

Há uma ousadia admirável na abordagem de Le Coroller ao body horror, que se esforça por encontrar uma identidade própria dentro do género. A narrativa decorre principalmente num hospital, um espaço onde, visualmente, tudo aparenta ser igual. Essa normalidade clínica e impessoal torna ainda mais perturbadora a irrupção do sangue, das feridas e das deformações, deixando uma impressão capaz de nos fazer virar o rosto. Enquanto Margot investiga as suas mudanças corporais, procura perceber o que lhe está a acontecer e qual poderá ser a origem daquela transformação.

No meio de tudo isto, Margot tem de continuar a competir com os colegas no hospital, enquanto se depara com pessoas condicionadas a dar sempre o máximo no trabalho, ignorando que essa escolha está a prejudicar as suas vidas. O filme constrói, assim, uma reflexão incisiva sobre uma sociedade laboral que exige produtividade constante dos seus trabalhadores, ligando-se directamente à experiência de Le Coroller. A realizadora traduz aquilo que certamente sentiu num filme de terror extremo, em que a exaustão deixa de ser apenas psicológica e passa a manifestar-se no próprio corpo.

Uma estreia impressionante de Marion Le Coroller no cinema de terror francês

É fácil ficar agarrado a Espécies à medida que a sua história revela todo o tipo de detalhes. Com visuais energéticos e deliberadamente excessivos, o filme cria proximidade e empatia com a percepção alterada de Margot, fazendo-nos sentir a desorientação e o mal-estar que acompanham a evolução da sua condição. Os efeitos da manifestação dessa condição são visualmente chocantes. O filme permite-se, por vezes, alguma leveza, causando um ou outro riso nervoso, sobretudo nas passagens de sátira social, mas fá-lo sempre de uma forma visceral, desconfortável e grotesca.

A acompanhar o talento da cineasta francesa está uma equipa de luxo: Pierre-Olivier Persin, responsável pela maquilhagem e pelos efeitos especiais em A Substância; Guillaume Schiffman, o director de fotografia nomeado para o Óscar, em 2012, na categoria de Melhor Fotografia por O Artista; e ROB, o compositor celebrado pelas suas bandas sonoras em filmes como Vingança, de Coralie Fargeat, e Maniac, com Elijah Wood.

Assim, Espécies estabelece de imediato Marion Le Coroller como uma das novas grandes cineastas do terror francês, ao lado de nomes como Julia Ducournau e Coralie Fargeat. É um filme impressionante, perturbador e aterrador, que deixa arrepios e convida também a uma introspecção desconfortável sobre o nosso lugar no mundo laboral.

Nota Final: 8/10

Ricardo Du Toit

Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.

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