Crítica | Nameless: Hideo Jōjō adapta web-manga num thriller emocionante
Hideo Jōjō adapta o web-manga de Jirō Satō, que escreve e protagoniza Nameless, um thriller emocionante, e violento, perfeito para os fãs do género.
Hideo Jōjō é um cineasta japonês com origens na realização de filmes eróticos de baixo orçamento no Japão e com dezenas de obras no seu currículo. Conhecido como pink cinema, este tipo de produção, marcado por meios modestos e métodos de trabalho rápidos, oferecia uma perspectiva mais artesanal e estimulante do que as propostas comerciais. Era, por isso, um espaço ideal para desenvolver várias competências essenciais a um cineasta, independentemente do género. Quando transitou para outros formatos e géneros de ficção, Jōjō aplicou essa aprendizagem a obras cujas narrativas exigem uma visão mais intensa e concentrada. Nameless, baseado num web manga do ator japonês Jirō Satō – que também protagoniza a adaptação -, é uma das obras mais singulares de Jōjō até ao momento, ao oferecer algo novo num género muito específico.

Um crime inexplicável num thriller emocionante em Nameless
Acompanhamos a vida de Taro (Satō), um assassino em série acusado de matar dezenas de pessoas em espaços públicos, semeando o caos pela cidade. Quando a polícia tenta perceber o que está realmente a acontecer, depara-se com um problema inexplicável: não consegue ver a arma do crime na mão do suspeito, tendo de impedir que ocorram mais assassínios.
O cinema independente japonês sempre abriu espaço a novos criadores para explorarem as mais variadas histórias, através de um vasto conjunto de géneros e de fontes distintas; sobretudo nas adaptações de obras de nicho, com uma base de seguidores muito específica. Nameless começou por ser um argumento cinematográfico, passou a web manga e, felizmente, encontrou o caminho de volta ao cinema, dando nova visibilidade ao material de origem.
Há algo de intrigante na forma como a narrativa estrutura o mistério, revelando gradualmente, e em paralelo, a investigação policial e o enredo mais profundo por detrás do assassino em série. Este método dá ao espectador a oportunidade de se aproximar verdadeiramente da mente de Taro, sem nunca dissipar por completo a sua inquietante opacidade.

Jōjō e Satō adaptam o web-manga para o grande ecrã
Muito disto assenta no argumento escrito pela dupla Hideo Jōjō e Jirō Satō, bem como na realização de Jōjō, que se cinge ao essencial para contar a história de forma eficaz. A componente visual centra-se nos elementos mais próprios do thriller, bem como em momentos de violência brutal – por vezes algo repetitivos -, para deixar uma impressão duradoura. O seu estilo de realização assenta perfeitamente neste tipo de filme, onde a relevância dos factos e da sua resolução é prioritária, proporcionando uma experiência emocionante numa duração inferior a hora e meia.
É altamente satisfatório ver como tudo se desenrola, como o mistério é preservado e como toda a narrativa serve o propósito de entreter, de forma muito direta e dedicada à premissa que apresenta. A progressão da investigação mantém-nos curiosos quanto à captura de Taro e aos meios necessários para a concretizar. Naturalmente, há surpresas: algumas inesperadas, outras menos eficazes. Este é um filme que é, acima de tudo, um estudo de personagem, menos interessado nas mecânicas simples do “whodunit” e mais focado nas forças emocionais e sociais que rodeiam a violência.

Assim, Nameless prova ser um filme cativante, graças à sua premissa interessante e aos seus visuais próprios de uma produção mais humilde. Sob essa superfície de thriller sobrenatural, revela-se também uma reflexão sobre a ligação entre a violência, o isolamento e outros aspetos fundamentais da condição humana.
Nota Final: 7/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.
