Crítica | Hope: Bem-vindos ao espectáculo de Na Hong-jin
Dez anos depois The Wailing, o cineasta sul-coreano Na Hong-jin regressa em grande com Hope, no que é um dos filmes-evento do ano.
Corria a primavera do costume e, no Festival de Cannes, havia uma enorme curiosidade em torno de Hope, de Na Hong-jin – o cineasta sul-coreano que, desde 2008, se tem vindo a afirmar como um dos grandes nomes do cinema asiático, graças a The Chaser, The Yellow Sea e The Wailing. Este último é frequentemente considerado um dos filmes de terror mais interessantes da década anterior. Dez anos depois, Hope chega finalmente às salas de cinema e procura recapturar, por todo o mundo, o entusiasmo gerado em Cannes.

De terror rural ao caos explosivo da ficção científica e da acção
Seguimos a vida de Ko Bum-seok (Hwang Jung-min), chefe da polícia de Hope Harbour, que, após um acontecimento explosivo numa pequena vila, é forçado a perseguir uma criatura que provoca destruição por todo o lado. Ao mesmo tempo, é acompanhado por Im Sung-ae (Jung Ho-yeon), uma novata da força policial, e Ko Sung-ki (Zo In-sung), um habitante local capaz de rastrear qualquer coisa – incluindo aquilo que ameaça os sobreviventes.
Partindo de uma premissa que começa como um simples filme de terror tradicional, contido entre o mistério e um grupo limitado de personagens em busca de respostas sobre o que aconteceu ao gado local, o filme rapidamente escala para uma grandeza explosiva simplesmente imparável. À medida que tudo se desenrola, é muito fácil ficar à beira do assento, a assistir a todo o caos e à forma como estas pessoas se atiram de cabeça para o meio dele.

Uma locomotiva absolutamente imparável chamada Hope
Com um ritmo mais parecido com o de uma montanha-russa, o filme sobe rapidamente e mantém-se no ponto mais alto durante largos minutos, deixando-nos delirantes com tudo o que acontece no ecrã. É tudo verdadeiramente emocionante: o espectador sente-se no meio de toda a acção e de todo o drama, descobrindo, ao lado destas personagens, o que está exactamente a acontecer e quais são as consequências da presença destas criaturas na vila.
Esta transição da simplicidade curiosa para um filme explosivo de grande orçamento, que faria Michael Bay muito orgulhoso, vê o cineasta Na Hong-jin redefinir uma parte do cinema sul-coreano que é mais relevante do que nunca na actualidade. Trata-se de um fenómeno que se reflecte não só na qualidade das produções, mas também na sua crescente presença cultural junto do grande público, muito graças aos serviços de streaming, que abrem facilmente o acesso a todo um novo mundo de conteúdos de outros países.

O derradeiro espectáculo do cinema sul-coreano
O mais impressionante, no meio disto tudo, é a forma como Hope vai construindo a narrativa, com revelação atrás de revelação, repleta de surpresas e viragens inesperadas. A obra deixa-nos constantemente à espera do momento em que tudo desaba, excepto que esse momento nunca chega: mantém-se no cume até ao rolar dos créditos. Poderá existir alguma falta de objectividade nas suas linhas narrativas, que estão em constante mudança à medida que as teorias e os factos se vão alterando, mas é precisamente no meio desse caos que o filme faz com que nunca saibamos ao certo onde tudo irá dar, nem qual será a próxima surpresa a mudar o rumo dos acontecimentos.
Muito disto assenta no espectáculo cinematográfico, onde as influências de Hollywood são reinterpretadas e aplicadas a uma narrativa que, sem rodeios, é impulsionada por doses de pura adrenalina e suportada por um elenco altamente competente, capaz de elevar a fasquia em cada momento. Ainda que algumas críticas relativamente à utilização de CGI sejam válidas, esses efeitos fazem também parte do charme da obra, contextualizando o filme num universo alternativo e enquadrando-o em algo mais fascinante do que aparenta à superfície.

Assim, Hope é um dos filmes mais ousados do ano, trazendo elementos do cinema de terror asiático, da ficção científica e da acção para uma obra em que pouco mais de duas horas e meia passam a correr. É uma experiência verdadeiramente memorável e, muito provavelmente, uma das obras que ajudará a definir o cinema asiático da década actual.
Nota Final: 9/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.
