Coyote vs. ACME – O Julgamento do Século chega aos cinemas
Depois de uma reviravolta financeira onde a Warner Bros. Discovery desistiu de estrear o filme, Coyote vs. ACME chega finalmente aos cinemas para nos dar o julgamento do século.
Corria o mês de novembro de 2023 e a notícia que quebrou a internet veio diretamente de David Zaslav, diretor executivo e presidente da Warner Bros. Discovery, quando se soube que este decidiu não estrear vários filmes, que permaneceram fechados no cofre. Entre eles, o muito antecipado Batgirl, o filme de animação Looney Tunes: Daffy & Porky Salvam o Mundo e o híbrido de animação e live-action Coyote vs. ACME, baseado num artigo publicado em 1990 na revista The New Yorker, da autoria de Ian Frazier, onde ele próprio utilizou elementos dos Looney Tunes numa história intrigante. Quando a distribuidora Ketchup Entertainment conseguiu comprar os direitos em 2025, foi dada uma nova esperança para os dois filmes dos Looney Tunes, com a estreia dos mesmos no grande ecrã.

David (Will E. Coyote) vs. Golias (ACME)
Durante décadas, Wile E. Coyote tem perseguido de forma implacável o Bip-Bip, utilizando diversos engenhos, muitos deles construídos de forma criativa e todos produzidos pela multinacional ACME. Quando Wile E. se apercebe de um padrão, segue até Albuquerque para conhecer Kevin Avery (Will Forte), um advogado especializado em obter pequenas compensações por itens ACME que avariam, mas que é arrastado para o julgamento do século quando intenta uma ação contra todos os produtos da ACME, correndo o risco de revelar vários segredos, protegidos pelo advogado corporativo Buddy Crane (John Cena).
Estamos perante um dos mais interessantes filmes que misturam personagens de animação com live-action, num híbrido que não só combina com a evolução tecnológica da atualidade, como mantém um certo espírito que muito poucos filmes conseguem oferecer neste calibre. Se a maravilha técnica de Quem Tramou Roger Rabbit impressionava, é de igual modo impressionante ver como, quase 40 anos depois, a combinação de ambas as técnicas nunca se viu melhor.

Entrar na sala para ver este filme parece trazer uma espécie de carga responsável: a de apreciar o facto de este filme poder nunca ter estreado, não fosse um conjunto de fatores, seja a revolta na internet, seja a capacidade de uma distribuidora independente ter conseguido, de alguma forma, arranjar meios para que o filme fosse visto pelo grande público. Nunca querendo defender as grandes corporações, esta decisão de Zaslav – e dos restantes executivos – em nada tinha a ver com a qualidade da obra, mas sim com o seu potencial comercial, podendo ser discutível a falta de visão.
A nostalgia dos Looney Tunes no mundo real
Na verdade, estamos perante um filme que contém uma multitude de camadas e de géneros, com um argumento que mistura conspirações misteriosas, altas doses de comédia – muitas delas no bom estilo clássico que apenas os Looney Tunes podem oferecer – e um drama legal que nos deixa a torcer por Wile E. na sua missão de ser compensado por todo o seu sofrimento e por todas as vezes que o seu objetivo de apanhar o Bip-Bip falhou por culpa da ACME, no que apenas podemos descrever como uma relação mais complicada do que aparenta à primeira vista.
O que poderia ter sido um filme abordado de forma superficial, focado na nostalgia e nas piadas, acaba por se revelar como uma obra com diversas camadas verdadeiramente alucinantes, facilmente comparável a um thriller moderno, instalado num mundo onde pessoas e cartoons coabitam, têm as suas rotinas e também criticam, ironicamente, as empresas conglomeradas que dominam o mundo.
Pelo meio, existe um equilíbrio muito natural entre o elenco de carne e osso e os desenhos animados neste universo, com as suas participações a nunca serem avassaladoras em nenhum dos lados, algo que é altamente apreciado nestas circunstâncias, que têm uma piada de fazer bater a mão no joelho e risos histéricos, algo que nos faz tirar o chapéu a Dave Green, que, na sua realização, garante que tudo funciona lindamente.

Com isto, nunca saberemos ao certo porque é que Coyote vs. ACME não mereceu a fé dos executivos, ou sequer se existe um motivo adicional para não quererem eles distribuir o filme; um detalhe que adiciona um sabor agridoce ao facto de estarmos hoje a celebrar um filme que realmente tem algo para dizer em alto e bom som: “Deixem-me ser visto”.
Corram para os cinemas e provem que a dúvida nunca deveria ter existido, com um filme maravilhoso para toda a família.
Nota Final: 8/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.
