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Análise BD: O Deserto dos Tártaros – A espera como destino

O Deserto dos Tártaros mostra um clássico ilustrado, enquanto compreende a alma da obra original.

O Deserto dos Tártaros

Argumento: Michele Medda | Desenho: Pasquale Frisenda | A partir do romance de Dino Buzzati

O Deserto dos Tártaros

Há adaptações que se limitam a ilustrar um clássico. E depois há aquelas que compreendem verdadeiramente a alma da obra original. O Deserto dos Tártaros pertence claramente ao segundo grupo.

Adaptar um romance como o de Dino Buzzati era uma tarefa ingrata. Afinal, o coração da narrativa nunca foi a ação, mas sim a ausência dela. O protagonista, Giovanni Drogo, chega à remota Fortaleza Bastiani convencido de que a sua permanência será breve. Sonha com glória militar, grandes batalhas e um futuro brilhante. No entanto, a fortaleza torna-se uma prisão silenciosa onde os dias se confundem, os anos escorrem sem darmos conta e a esperança de um inimigo que nunca chega passa a ser o único motivo para continuar.

É precisamente esta sensação de tempo suspenso que Michele Medda consegue transportar para a banda desenhada com enorme sensibilidade. O argumento evita cair na tentação de acelerar os acontecimentos para tornar a leitura mais dinâmica. Pelo contrário, respeita o ritmo contemplativo do romance, permitindo que o leitor sinta a mesma monotonia, ansiedade e resignação que consomem Drogo.  

O Deserto dos Tártaros

Mas é Pasquale Frisenda quem eleva esta adaptação a um patamar superior. Fiquei rendido ao seu desenho…

O seu traço realista possui uma elegância quase clássica. Cada pedra da Fortaleza Bastiani transmite peso e antiguidade; cada horizonte do deserto parece infinito. O preto e branco revela-se uma escolha perfeita, reforçando a sensação de isolamento e retirando qualquer distração cromática. As sombras dominam a narrativa, enquanto os grandes planos gerais fazem da fortaleza uma personagem tão importante quanto qualquer ser humano.

Frisenda demonstra igualmente um domínio impressionante da linguagem visual. Muitas páginas vivem quase exclusivamente da expressão dos rostos, da postura das figuras ou da vastidão do vazio que as rodeia. São momentos onde o silêncio comunica muito mais do que qualquer diálogo.

A grande força da obra continua, no entanto, a residir na sua dimensão filosófica.

O Deserto dos Tártaros fala sobre todos nós. Sobre as oportunidades que adiamos. Sobre a felicidade que prometemos viver “quando chegar o momento certo”. Sobre uma existência consumida pela expectativa de um futuro grandioso que talvez nunca aconteça.

Buzzati escreveu este romance em 1940, mas continua assustadoramente atual. Mudaram os uniformes militares; não mudou a condição humana. Continuamos presos a fortalezas invisíveis, convencidos de que amanhã será finalmente o dia em que tudo acontecerá.

A edição portuguesa da A Seita merece igualmente destaque. A impressão em grande formato faz justiça ao detalhe do desenho de Frisenda, enquanto o extenso dossier de extras acrescenta valor ao volume através de estudos gráficos e textos complementares sobre a adaptação.  

Nem todos os leitores entrarão facilmente nesta história. Quem procura ritmo acelerado, ação constante ou reviravoltas frequentes poderá sentir algum distanciamento. Mas essa aparente lentidão é precisamente a essência da obra. A espera não é um defeito da narrativa; é o próprio tema da narrativa.

O Deserto dos Tártaros

No final, percebe-se que O Deserto dos Tártaros não pretende contar uma guerra. Pretende mostrar o preço de esperar por ela.

Esta é uma adaptação de enorme qualidade, magnificamente ilustrada por Pasquale Frisenda.

 Uma leitura exigente, profundamente melancólica e intelectualmente recompensadora, que confirma a excelente aposta da coleção Nona Literatura da A Seita em grandes clássicos adaptados à banda desenhada. 

Carlos Maciel

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

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