Jogos: And Roger ( Nintendo Switch 2) – Análise
And Roger é uma das experiências narrativas mais marcantes da Nintendo Switch 2, uma curta visual novel que transforma emoção e compaixão em mecânicas memoráveis.
Jogo: And Roger
Disponível para: PC, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2
Versão testada: Nintendo Switch 2
Desenvolvedora: TearyHand Studio
Editora: Kodansha
Disponível para: PC, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2
Versão testada: Nintendo Switch 2
Desenvolvedora: TearyHand Studio
Editora: Kodansha

Há jogos que entretêm, há jogos que desafiam e depois há aqueles raros títulos que escolhem simplesmente sentir. And Roger encaixa sem esforço nesta última categoria. A nova visual novel da TearyHand Studio chega à Nintendo Switch 2 como uma experiência breve, cerca de hora e meia, mas consegue deixar uma marca muito maior do que muitos jogos com dezenas de horas de duração. É um daqueles casos em que menos é mesmo mais, porque cada minuto existe para servir a narrativa.
O início é desconcertante. A protagonista acorda e descobre que o pai desapareceu, substituído por um estranho que insiste para que tome a medicação. A partir daí instala-se um desconforto constante, não através de sustos fáceis, mas pela incerteza. O primeiro capítulo aproxima-se até do terror psicológico, colocando o jogador dentro de uma realidade fragmentada onde é impossível perceber de imediato quem diz a verdade. A recomendação é simples, quanto menos souberem sobre a história antes de jogar, melhor será o impacto.
O grande mérito de And Roger está na forma como aborda temas difíceis. A doença, o peso de cuidar de alguém, a fragilidade da memória e, acima de tudo, a importância da empatia surgem sem discursos moralistas. O argumento prefere mostrar em vez de explicar, recorrendo a pequenos fragmentos narrativos que obrigam o jogador a reconstruir o puzzle. Essa opção pode causar alguma frustração a quem procura respostas imediatas, mas faz todo o sentido dentro da proposta da obra.

Também a jogabilidade participa ativamente nesta narrativa. Em vez de servir apenas como ponte entre diálogos, cada interação transmite um estado emocional. Deslizar controlos para escovar os dentes ou lavar as mãos reforça a sensação de rotina e de presença física. Já os momentos de tensão exigem rapidez e precisão, como desbloquear uma porta enquanto a ansiedade cresce a cada segundo. Noutras ocasiões, percorrer caminhos quase invisíveis com um simples cursor traduz na perfeição a confusão mental da protagonista. São mecânicas simples, mas extremamente eficazes porque nunca existem apenas por existir.
Visualmente, And Roger é um pequeno espetáculo de direção artística. O traço desenhado à mão transmite uma sensação de delicadeza que vai sendo lentamente deformada à medida que a narrativa mergulha na instabilidade emocional. A paleta reduzida de cores muda subtilmente entre capítulos, utilizando azuis frios para representar medo e insegurança, enquanto os tons quentes evocam conforto, amor e recordações felizes. Há uma sequência passada numa padaria que resume na perfeição esta filosofia visual, inundando o ecrã de cor para comunicar emoções sem precisar de uma única palavra.
A componente sonora segue exatamente o mesmo caminho. Não existe dobragem, uma decisão inteligente porque obriga cada jogador a imaginar as vozes das personagens, aumentando a ambiguidade da narrativa. Em compensação, os efeitos sonoros são cristalinos e ganham um protagonismo inesperado. Passos rápidos, pancadas nas portas ou o simples som de uma fechadura tornam-se elementos essenciais para construir tensão, enquanto a banda sonora alterna entre melodias suaves e composições mais inquietantes sem nunca soar manipuladora.
A curta duração poderá afastar alguns jogadores, sobretudo aqueles que associam valor ao número de horas. No entanto, seria difícil justificar qualquer conteúdo adicional. And Roger termina precisamente quando deve terminar, sem prolongar emoções nem recorrer a distrações artificiais. É uma obra extremamente focada e essa disciplina acaba por ser uma das suas maiores qualidades.

And Roger confirma que os videojogos continuam a ser um dos meios mais poderosos para explorar emoções complexas. Não procura impressionar com espetáculo, procura criar ligação humana. E consegue. Pode não agradar a quem privilegia ação ou sistemas profundos, mas para quem aprecia experiências narrativas que utilizam todas as ferramentas do meio para contar uma história, este é um dos títulos independentes mais memoráveis disponíveis na Nintendo Switch 2.
Nota: 9/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.


