Ruins of Symbaroum RPG: quando a floresta devora a fantasia heroica
Fantasia sombria não é propriamente uma novidade no mundo dos RPGs, mas poucos cenários conseguem criar uma atmosfera tão opressiva e fascinante como Symbaroum. Com Ruins of Symbaroum, a Free League procurou transportar essa experiência para a 5.ª Edição de Dungeons & Dragons e os resultados são surpreendentemente eficazes.
O que é afinal Ruins of Symbaroum?
Para quem nunca ouviu falar da linha original Symbaroum, trata-se de um cenário de fantasia sombria criado pela Free League, onde a gigantesca floresta de Davokar esconde ruínas antigas, segredos proibidos e uma quantidade alarmante de coisas que querem transformar aventureiros em adubo.
A adaptação Ruins of Symbaroum pega neste cenário e transporta-o para as regras da 5.ª Edição de D&D. Mas atenção: não é apenas uma mudança de sistema. Os autores fizeram um esforço notável para preservar a identidade do cenário, introduzindo novas classes, regras de corrupção, viagens mais perigosas e uma atmosfera muito mais brutal do que a fantasia heroica tradicional.
O resultado é algo curioso: continua a parecer D&D, mas é como se D&D tivesse passado umas férias prolongadas num filme de terror folk escandinavo.
O Core Rulebook disfarçado de Player’s Guide
Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi a forma como o Player’s Guide funciona quase como um novo jogo dentro da estrutura da 5.ª Edição.
Em vez das classes tradicionais, encontramos opções criadas especificamente para o cenário, como Captain, Hunter, Mystic, Scoundrel e Warrior. Isto ajuda a criar personagens que encaixam naturalmente no mundo de Symbaroum, evitando aquela sensação estranha de encontrar um bardo saltitante e otimista no meio de uma floresta onde tudo parece querer consumir a tua alma.
Também gostei bastante da forma como a corrupção é tratada. A magia é poderosa, mas tem consequências. É uma mecânica que reforça constantemente o tema central do cenário: o conhecimento e o poder têm um preço.
Por isso, tem a capacidade de adaptar a identidade de Symbaroum ao motor da 5.ª Edição sem perder personalidade. Não estamos perante um simples suplemento de cenário, mas sim uma reformulação profunda da experiência de jogo.
O Gamemaster’s Guide é onde a magia acontece
Se o Player’s Guide me convenceu a jogar, o Gamemaster’s Guide convenceu-me a mestrar.
A Free League apresenta este livro como uma caixa de ferramentas para criar campanhas, aventuras e expedições em Davokar.
O livro oferece descrições detalhadas de locais fundamentais como Yndaros, Thistle Hold e Karvosti, além de regras para expedições, exploração selvagem, recompensas especiais, artefactos místicos e até gestão de domínios.
O que mais me agradou foi o foco constante na aventura emergente. Há tabelas, ferramentas e sugestões suficientes para gerar sessões inteiras apenas com algumas decisões aleatórias. Como mestre, sinto que o livro me ajuda a criar histórias em vez de me obrigar a seguir uma receita.
Também adorei o facto de muitas recompensas não serem simplesmente espadas +1 ou armaduras mais resistentes. Em Symbaroum, uma recompensa pode ser um pacto sombrio, um favor político ou um artefacto misterioso que provavelmente vai arruinar a vida do grupo dentro de três sessões.
Ou seja, exatamente o tipo de recompensa que um mestre adora oferecer.
Nem tudo são flores em Davokar
No entanto é um facto que Ruins of Symbaroum continua a carregar certas limitações da própria 5.ª Edição. À medida que os níveis aumentam, os combates podem tornar-se mais demorados e a gestão de recursos mais pesada. Não conheço bem a versão clássica mas daquilo que pesquisei parace que a comunidade acha que esta continua a capturar melhor a brutalidade do cenário.
Também existe uma curva de aprendizagem relativamente exigente. O cenário possui uma quantidade enorme de história, facções, conflitos políticos e segredos antigos. É fascinante, mas exige algum investimento por parte do mestre algo que não é novo em jogos desta editora.
A arte merece um capítulo próprio
Seria quase criminoso terminar sem falar dos livros físicos. São mais dois belos exemplos da dedicação que lhes dão. Capa dura e vejam só, estes têm papel couché.
O design e arte são cinco estrelas. Cada página transmite a sensação de que estamos perante um mundo antigo, perigoso e decadente. A direção artística de Symbaroum continua a ser uma das melhores da indústria dos RPGs de mesa.
Memso sem jogar são daqueles livros que fico simplesmente a folhear durante meia hora porque cada ilustração me faz imaginar uma aventura.
Opinião final
Ainda não me dediquei o tempo que desejava, mas fiquei com a sensação de que Ruins of Symbaroum representa uma das adaptações mais inteligentes que já vi para a 5.ª Edição.
O Player’s Guide consegue transformar a estrutura familiar de D&D numa experiência muito mais sombria e atmosférica. O Gamemaster’s Guide complementa essa visão com ferramentas excelentes para criar campanhas memoráveis em Davokar.
Não é um produto para quem procura fantasia leve e descontraída como por exemplo no suplemento Hobbit Tales, do The One Ring e que falei há dias. Também não é a melhor escolha para grupos que querem ignorar o cenário e partir diretamente para a próxima masmorra. Mas para quem aprecia fantasia sombria, exploração perigosa e mistérios antigos, Ruins of Symbaroum é uma recomendação fácil.
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Co-criador e administrador do Central Comics desde 2001. É também legendador e paginador de banda desenhada, e ocasionalmente argumentista.






