João Abel Manta, uma das figuras maiores da ilustração e do cartoon português
Formado em arquitetura, mas muito dedicado ao desenho, cartoon, cenografia e ilustração, o artista João Abel Manta legou-nos uma obra digna de reconhecimento. Premiado em Portugal e noutros países, os seus desenhos e colagens para a imprensa durante a governação de Marcelo Caetano e o período revolucionário de 1974-75 deram-lhe fama. A sua obra confunde-se justamente com a própria expressão da Liberdade, celebrada após a queda do Estado Novo, aspiração popular que, de certa forma, também o notabilizou.
João Abel Manta nasceu em Lisboa no ano de 1928, filho único de Abel Manta e Clementina Carneiro de Moura. Os pais eram pintores que cultivaram no seu ambiente familiar uma intelectualidade que contrastava com a vida de milhares devido à opressão e condicionamentos cultivados pelo Estado Novo.
Pode-se dizer que contou de forma privilegiada com uma educação cosmopolita, em que foram comuns as viagens a outros países da Europa como Itália e Paris, onde teve oportunidade de ver exposições de arte e contactar com outras personalidades ímpares, nomeadamente amigos dos pais como Almada Negreiros e Eduardo Viana. O contacto precoce com o mundo das artes influenciaria o seu percurso. Mas também contactou com famílias de refugiados judeus durante a Segunda Guerra Mundial, o que sensibilizou para a necessidade de resistência contra os perigos dos estados autocráticos.
Destacou-se sempre como um aluno brilhante, embora durante a juventude tivesse de compensar o ambiente antiquado e severo das escolas com convívios incomuns, tanto a nível artístico como político, incluindo o escultor José Dias Coelho (posteriormente assassinado pela PIDE) – o que o levaria a ingressar no MUD, Movimento de Unidade Democrática, que surgiu em 1945 em Lisboa para se opor a Salazar e ao Fascismo. Foi detido em 1948 pela PIDE e passou duas semanas na prisão sob interrogatório. Pode-se dizer que é desde esta altura que será reconhecido oficialmente como um opositor ao regime.
Paralelamente à atividade profissional de arquiteto, que inicia em 1951, João Abel Manta dedicou-se com intensidade ao desenho, explorando cartoons e ilustrações que lhe darão fama. É através do Gazeta Musical e do Diário de Lisboa que começa a destacar-se, mas colabora também com a revista Almanaque com desenhos humorísticos, além de contribuir com uma elevada série de trabalhos para obras da editora Artis, a Minotauro e Estúdios Cor.
Também ilustrou A Casa Grande de Romarigões (1957) de Aquilino Ribeiro e as crónicas de Leitão de Barros em Os Corvos, de 1960. Ganha vários prémios a partir de 1960, mas em 1969 envolve-se na análise meticulosa da «Primavera Marcelista» e os seus cartoons destacam-se no Diário de Lisboa (por vezes censurados).
Em 1972, Manta foi acusado de ofensa à bandeira nacional devido a um póster (cartoon Festival) publicado em A Mosca, mas foi absolvido em 1973. Também se destacou através da arriscada edição de Dinossauro Excelentíssimo (também de 1972, da editora Arcádia) em colaboração com José Cardoso Pires, livro que aborda de forma satírica, ainda que velada, a vida de Salazar e a sua ditadura através de uma fábula com um teor excecionalmente irónico e amargurado.
Dinossauro Excelentíssimo só não foi censurado por ter sido usado como (um mau) pretexto no Parlamento de que havia liberdade de expressão em Portugal durante a governação de Marcelo Caetano.
Mas o «artista da Revolução» demarca-se após o 25 de Abril de 1974: Inicialmente reservado, posteriormente começa a ilustrar o impacto da revolução e a mudança de regime quase diariamente, destacando-se com cartoons que o consagram. Contribuiu para imortalizar a importância do 25 de Abril de uma forma ímpar. Impactantes foram os seus cartazes políticos das Campanhas de Dinamização Cultural do MFA, entre o final de 1974 e o «Verão Quente» de 1975.
É um exemplo o cartaz MFA, POVO: resulta da união entre o designer e o cartoonista que alia o militar a um agricultor de uma forma quase indistinta através de um desenho com uma síntese formal extrema, de absoluta bidimensionalidade, privilegiando as silhuetas e os contorno a negro carregado das duas figuras como se fossem próprias de uma animação (ou, mais precisamente, de um cartoon).
O contraste gráfico, o poder de síntese e a clareza visual em MFA, POVO, juntamente com outros cartazes, não ocultam, todavia, um tom menos sério ou quase humorístico, senão irónico, ainda que talvez esse não fosse o maior objetivo. Mas resultava num contraste claro com a severidade e rigor frequentemente exigida pelas autoridades do anterior regime, expressando um maior relaxamento face à revolução em marcha.
Após o final do PREC e a normalização do novo regime democrata, Manta mantém-se mais discreto, mesmo após ganhar um novo prémio internacional de ilustração (Leipzig, 1975). Só em 1977 se destaca com aquela que é considerada a sua obra de maior importância: Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar. Mais tarde opta por voltar a manter a sua discrição, deixando de ser um cartoonista, ainda que muito popular e apreciado em Portugal. Dedicar-se-á sobretudo à pintura, mas não deixarão de existir exposições dedicadas aos seus cartoons. Ganhou o prémio Stuart em 1988 e toda a sua obra gráfica foi exposta em 1992 no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa.
A sua recente partida, no dia 15 de Maio deste ano, com 98 anos, não poderia deixar de ser sentida por todos aqueles que admiram o seu trabalho. Artistas, ilustradores e outros profissionais ou intelectuais não poderiam deixar de reconhecer a sua importância e o legado. Recordar João Abel Manta também é evocar um percurso criativo ao serviço da Cultura, da História do Design Português, da Liberdade de Expressão e, evidentemente, do Poder do Desenho ou da Ilustração nas mãos sensíveis e na mente ousada de qualquer Imaginauta.

Fascinado por História da Arte e pelo Universo Criativo da Ficção, é um entusiasta consumidor de Banda Desenhada além de leitor assíduo de obras de Ficção Científica e de Terror, com particular predileção pelo Oculto e o Sobrenatural








