Hah! Aqui está a pequena história para o título:
"Já fui amigo de um homem de 3 cabeças." «Diz-se que não escolhemos a família. Por outro lado, escolhemos os amigos. Ou, pelo menos, assim pensamos. Às vezes, são os amigos que nos escolhem. Outras vezes, não escolhemos os amigos nem somos escolhidos por eles; as circunstâncias é que se encarregam disso. E, quando morremos, as circunstâncias encarregam-se de um sem-número de coisas. Particularmente, encarregam-se de nos apresentar realidades absurdas onde o próprio conceito de realidade se desafia a si mesmo.
Tinha morrido há cerca de uns cinco minutos. Pensava eu. Quando não temos a certeza de quanto tempo passou desde um acontecimento impreciso no nosso passado imediato, dizer que passaram cinco minutos é sempre uma boa estimativa. Como sabia que tinha morrido? Bem, o facto de estar deitado num caixão era um respeitável indício.
Volta e meia, alguém vinha espreitar para dentro do caixão com uma expressão de condolências. Não me imaginava tão estimado. Hah! A morte pode roubar-nos a vida mas deixa-nos o sarcasmo.
Mais um decidiu espreitar no caixão. Não me lembrava dele. Outro. Também não o reconhecia. Mais uma cabeça espreitou ao lado das outras. Não me lembrava de nenhum dos três rostos. O rosto da direita sorriu, com uma visível satisfação. O rosto da esquerda tinha uma expressão triste, como se fosse o único que sofria com a minha morte. O rosto do meio era desprovido de qualquer emoção.
As três cabeças inclinaram-se mais sobre o caixão e, se eu não estivesse já morto, um ataque cardíaco não estaria completamente fora de questão. As três cabeças pertenciam ao mesmo corpo. Decididamente, não conhecia aquela
pessoa.
O rosto da esquerda começou a chorar sangue. O do meio continuou inexpressivo. O da direita subiu o canto da boca num sorriso psicótico. Num instante, deitou as mãos à lapela do meu impecável fato de morto e saltou para cima de mim. O fundo do caixão abriu-se e caímos os dois, ou os quatro, ou o que fizesse mais sentido, se é que algo podia fazer sentido. Foi como se caíssemos numa sepultura cavada de fresco, mas sem fundo, para lá das raízes mais velhas e apodrecidas.
As paredes acabaram-se e fomos cuspidos pelo tecto cavernoso daquilo que parecia o útero ardente da terra. Bati com as costas no chão como um peso morto. O tipo das três cabeças saiu de cima de mim e agarrou-me por um tornozelo. Arrastou-me como se eu fosse um saco de batatas para a margem de um rio de água inquinada. O cheiro dava vontade de vomitar as tripas.
Lembro-me de balbuciar uma pergunta idiota.
“Quem és tu?” O rosto sem expressão disse:
“O meu nome é Cérbero.” Sem grande esforço, atirou-me para uma barcaça onde já esperavam o barqueiro, outros dois tipos vestidos de mortos como eu, mais três mulheres vestidas como as famílias entenderam que as deviam exibir nos caixões, e uma miudinha enfiada num pijama todo rasgado e ensanguentado.
A miudinha estava cheia de ferimentos e dois golpes profundos tinham-lhe sulcado os pulsos até romper as veias. Lembro-me de ter feito mais uma pergunta idiota.
“O que está ela a fazer aqui?” Já se tinha tornado óbvio que aquilo era o Inferno que eu e os restantes merecíamos estar ali. Eu nunca fui um santo, é bem verdade.
"Suicidou-se. Mas, isso, já devias saber." A resposta do tal Cérbero não fez sentido.
"Não foi ele.", disse a miudinha.
“Tens a certeza?", perguntou-lhe. A miudinha acenou que sim.
“Parece que houve um engano, meu amigo.”, disse o rosto sorridente, num tom de gozo. Dizer que houve um engano pareceu-me um eufemismo bem idiota. Eu estava morto e, pelos vistos, tinha-me calhado o Inferno numa rifa que não era minha.
"Vais ficar aqui na margem enquanto resolvo o engano.", disse o rosto inexpressivo. E eu fiquei. Fiquei naquela margem a ver o tipo das três cabeças a arrastar pessoas pelo tornozelo vezes sem conta. O tempo fez-nos amigos.
Conversámos acerca de eu ter sido assassinado pelo pai de uma miudinha que pensou que fui eu que a raptei e abusei dela. O rosto inexpressivo disse que compreendia o aborrecimento que isso podia representar para alguém inocente, mas que nem o Inferno estava livre da burocracia e que essas coisas levavam o seu tempo. Ao fim daquilo que devem ter sido uns cem anos, ou isso, o engano foi desfeito e, como espécie de indemnização, devolveram-me à vida. Quando parti, o rosto da esquerda ficou ainda mais triste. Hoje, ainda recordo tudo isso, mas é uma memória que já quase não existe.»
FIM
Parece que a amizade pode mesmo quebrar todas as barreiras (ou será o amor?).
