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O Lobo Solitário: realizador e actor falam sobre o filme e os Oscars

As curtas-metragens portuguesas Ice Merchants, de João Gonzalez, O Homem do Lixo, de Laura Gonçalves, e O Lobo Solitário, de Filipe Melo, ultrapassaram uma etapa importantíssima e estão agora entre 15 filmes finalistas a uma nomeação para os Óscares, revelou a Academia.

É um feito histórico para o Cinema Português! 

curtas oscars

O Lobo Solitário

Enquanto se aguarda pelo anúncio das nomeações aos Oscars, os filmes seguem a campanha internacional para chegarem aos membros da Academia das Artes e Ciências de Hollywood.

O Central Comic esteve presente numa sessão de perguntas e respostas sobre O Lobo Solitário, moderada por Vincent Lambe (nomeado ao Oscar de Melhor Curta-Metragem em 2018 por Detainment), onde participaram o realizador e argumentista Filipe Melo, o actor Adriano Luz e jornalistas de todo o mundo.

O Lobo Solitário

Adriano Luz

Para Adriano Luz, que interpreta Victor Lobo em O Lobo Solitário, “o filme retrata aquilo que seria um dia normal numa qualquer rádio local, numa situação que funciona como uma comida de conforto. As pessoas que ligam são as mesmas de todos os dias. É um quotidiano. O Victor tropeça numa coisa improvável, num velho amigo que telefona e traz memórias que descambam a noite. Com a chamada telefónica chega o medo, a raiva e este Victor é um negacionista e poderia continuar a ser aquilo que sempre foi. E quem sabe se foi apenas uma vez!

Este programa de rádio é uma espécie de psiquiatra. A primeira chamada sintetiza muito bem o que é aquela rádio, que é local. O Victor sabe o nome dos ouvintes participantes, com a excepção do último por estar em stress.

Filipe Melo

Filipe Melo

Para Filipe Melo, na concepção do argumento “a ideia seria construir algo em que recorresse a um actor e a um local. Poderia ser um filme ou uma peça de teatro. Inspirando-se nos programas nocturnos de rádio, aqueles que funcionam como uma espécie de família.” O argumentista e realizador tinha na sua memória conflitos em directo na rádio, recordando uma chamada real na América de alguém que estava prestes a suicidar-se e o apresentador tentou salvar essa pessoa, e conseguiu. Para melhor conhecer o funcionamento das rádios locais, acabou por passar algum tempo na Rádio em Alenquer e assim compreender a realidade.

Adriano aceitou fazer o filme porque “já conhecia o Filipe e já tinham trabalhado em outras circunstâncias, e o argumento foi um tremendo desafio ao encontrar personagens tão sombrias e que vivem em negação.”
Quando o argumento, foi escrito, Filipe imaginou o filme muito semelhante ao que conseguiu (no final).

Para Filipe esta “é uma montanha-russa, que começa devagar, mas depois, o espectador fica envolvido e não consegue abandonar pois está preso ao que se passa no ecrã. A tensão está presente.

O Lobo Solitário

O realizador assume que “o filme é um trabalho fascinante em que se sente o drama devido aos movimentos da câmara.” Filipe não apreciava planos sequências e até o director de fotografia não queria recorrer a essa solução, mas o argumento pedia que a câmara estive em redor da personagem do Adriano, Victor Lobo, como “um tubarão”.

Adriano Luz sentiu “o desafio de fazer o filme em plano sequência, de o fazer num crescente dramático. E como se tratava da rodagem de um filme, ele tinha toda uma equipa técnica presente no palco onde acontece a história.”

A rodagem exigiu uma coreografia que implicava mover uma parede e até a mesa do radialista. Houve um extenso trabalho de planificação, concretizado em cerca de 36 takes, e o melhor continuava a ser o primeiro! Com a coreografia igual em todos os takes!” Quando tentaram “fazer um take livre, o resultado não foi o pretendido”, reconhece Filipe.

O realizador afirma “ter tido a sorte de trabalhar com excelentes actores, que lhe permitiam resultados extraordinários em todos os takes.” Por trabalhar em produções de orçamento limitado, o realizador “habituou-se a ter de decidir qual seria o material bom possível de editar. Neste caso, todo o material era excelente. E a edição final tornou-se fácil.”

O Lobo Solitário

O realizador reconhece que, “Adriano estava sempre atento ao que lhe era dito e memorizava todas as notas e indicações.” Filipe percebeu as qualidades do actor e isso revelou-se na câmara. Para Filipe, “o Adriano é um actor que veio do teatro, mas que se só vivesse dos palcos não teria conseguido fazer este filme, pois ele sempre teve noção onde estava a câmara ou onde estava a perche a captar o som”.
Fazer este filme foi uma coisa extraordinária”, nas palavras de Adriano.

A tensão no ecrã é sentida pelo espectador, dado que António Fonseca fez realmente as chamadas. Para Filipe “ter o elenco no local de filmagens permitiu contracenar sem perder as emoções. Na interpretação de Adriano existe um contraste de emoções, que até não são ditas, mas que estão presentes na personagem.”

E sobre a banda-sonora, Filipe “sabia a música que queria para o filme desde o início. O seu vizinho, The Legendary Tiger Man, foi uma inspiração devido aos sintetizadores que tem na parede”.

E os espectadores mais atentos reconhecem -nos créditos – um nome que já trabalhou com Paul Greengrass ou Ridley Scott, Dillon Bennett. Para Filipe “foi mais uma resposta do acaso, pois estava a almoçar com um amigo e comentei que precisava de um editor de som ou sound designer, e disseram-lhe que o marido de uma amiga poderia ajudar.” E simplesmente era um dos nomes mais importantes no meio cinematográfico mundial que trabalhou em filmes como Alien: Covenant, A Lenda de Tarzan, Capitão Phillips ou A Teoria de Tudo.

O Lobo Solitário

Trabalhando com orçamento limitado e com janelas temporais tão curtas, Filipe tentou “que tudo resultasse.”

Adriano ficou surpreso quando viu o filme finalizado, testando-o com o filho adolescente… que o aprovou! E o resultado é descrito por Vincent Lambe como “uma experiência óptima de assistir”, assumindo O Lobo Solitário como sendo uma “obra-prima“!

Caso se concretize a nomeação ao Oscar para Melhor Curta-Metragem, “será o concretizar de um sonho de criança” para Filipe. “Estar na shortlist já é uma honra”, até porque ele “não acreditava na possibilidade. E se chegou tão longe, é devido ao monumental trabalho de Adriano.”

E será que O Lobo Solitário pode resultar numa Longa-Metragem? Filipe não tem planos para desenvolver esta história numa longa-metragem. Ele “queria contar esta história, tendo a sorte de trabalhar com pessoas fabulosas. “

O Lobo Solitário

O Lobo Solitário é protagonizado por Adriano Luz no papel de um radialista, que conduz um programa de rádio ao longo da noite. É durante o programa de rádio, em direto, que recebe um telefonema de um velho amigo que, aparentemente, quer pôr a conversa em dia, mas cuja conversa revela uma história antiga.

O filme foi escrito e realizado por Filipe Melo, com direção de arte de Juan Cavia e música original coassinada com The Legendary Tigerman.

Estreado na edição de 2021 do Festival Curtas de Vila do Conde, onde venceu o prémio do público, desde então, O Lobo Solitário venceu o Prémio Sophia’22, da Academia Portuguesa de Cinema como Melhor curta-metragem de ficção e o do 9º Leiria Film Fest para Melhor curta-metragem de ficção nacional. A curta-metragem galgou fronteiras, representando a ficção nacional em inúmeros festivais e ficou elegível para os Oscars.



A lista final de nomeados será conhecida a 24 de janeiro de 2023, estando a cerimónia final de atribuição de prémios agendada para 12 de março. De notar que nenhum filme português alcançou até hoje esta última etapa de nomeação para o Óscar. 

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