Jogos: The Perfect Pencil – Análise
Um Metroidvania assombroso onde um lápis se torna uma arma e a mente é o verdadeiro campo de batalha, The Perfect Pencil transforma a luta psicológica em arte jogável.
Jogo: The Perfect Pencil
Disponível para: PC, Nintendo Switch
Versão testada: Nintendo Switch
Desenvolvedora: Studio Cima
Editora: Studio Cima
Há jogos que flertam com a metáfora, e depois há jogos que se entregam totalmente a ela. The Perfect Pencil pertence firmemente à segunda categoria. Desde o momento em que acordas como John, um corpo sem cabeça caído no chão, percebes que não estás aqui para conforto. Estás aqui para sentir algo inquietante, algo introspectivo e, por vezes, profundamente perturbador.
A cabeça em falta de John é rapidamente substituída por um projetor de filme fotográfico, oferecido por um benfeitor misterioso. É uma escolha inspirada. A câmara não serve apenas para ver o mundo, ela enquadra-o, interroga-o e devolve-te o estado mental fragmentado de John. Examinar objetos ativa textos descritivos que muitas vezes soam a pensamentos intrusivos tornados tangíveis. Isto é narrativa ambiental com intenção, não mera decoração.
A narrativa gira em torno de “Ela”, a Besta Branca, uma entidade semelhante a um lobo que governa o reino e é responsabilizada pelo seu colapso coletivo. Mas The Perfect Pencil não se interessa por vilões claros. Os verdadeiros antagonistas são internos, a responsabilidade esmagadora, a síndrome do impostor e esse impulso sedutor de fugir de tudo. As personagens secundárias não são estranhas apenas para chocar, são versões fragmentadas do próprio John. Uma mulher que pede peças de despertador para coçar as costas. Um homem preso num carrinho de bebé, a suplicar que silencies as criaturas que sussurram das almofadas. Absurdo, sim. Também dolorosamente reconhecível.
Em termos mecânicos, trata-se de um Metroidvania clássico, embora com arestas que o jogo não se dá ao trabalho de limar. O combate gira em torno de um lápis usado como arma corpo-a-corpo, simbólico, simples e surpreendentemente versátil. Aprendes novas técnicas com uma entidade de treino, expandindo o teu arsenal com ataques em investida e golpes carregados. A força de vontade funciona como barra de vida, dividida em quatro círculos, enquanto a Coragem se acumula à medida que atacas. Ao encher esse medidor, podes desferir um Golpe de Cura, transformando agressividade em sobrevivência. É um ciclo risco-recompensa inteligente que reforça os temas do jogo, a cura vem do envolvimento, não da evasão.
A exploração é onde o jogo mais brilha. O mundo desenhado à mão é vasto, grotesco e profundamente atmosférico. A Floresta Suave, com as suas flores cor-de-rosa e cogumelos dançantes, parece quase acolhedora, até deixar de o ser. Os Orbes do Mapa revelam esquemas vagos em vez de direções precisas, incentivando a intuição em detrimento da otimização. O backtracking é constante, mas com propósito. Novas habilidades, como investidas ligadas à narrativa, conquistadas ao superar a “letargia sedutora”, recontextualizam áreas antigas de forma significativa.
Nem todas as escolhas de design resultam plenamente. Os controlos são suficientemente precisos, mas mais lentos e pesados do que os padrões do género, como Hollow Knight. Não é possível fazer pogo indefinidamente, e alguns combates contra bosses apostam numa dificuldade “barata” em vez de um desafio elegante. O espaçamento entre pontos de gravação também pode testar a paciência, sobretudo após lutas longas e excessivamente prolongadas. E convém avisar, flashes luminosos frequentes durante sequências narrativas podem ser problemáticos para jogadores fotossensíveis.
Ainda assim, The Perfect Pencil é corajoso. Experimenta. Falha para a frente, por vezes literalmente, já que perder certos combates contra bosses te envia para espaços liminares em vez de um simples respawn, revelando mais lore em vez de te punir de forma direta. Essa filosofia de design diz tudo sobre o que este jogo quer ser.
Nota: 8/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.





