Cinema: Crítica – Roma (2018)

Chegada a altura das nomeações para os grandes prémios, há um filme que parece se destacar como um dos grandes contendores: Roma. Estreia a 13 de dezembro nos cinemas nacionais.

O filme semi autobiográfico de Alfonso Cuarón tem sido bem recebido por muitos, mas o facto de ser uma produção do gigante de streaming Netflix faz com que outros fiquem de pé atrás sem reconhecer o seu verdadeiro valor.

Passado no México, entre 1970 e 1971, Cuarón conta a história de Cleo (Yalitza Aparicio), a governanta duma família de média classe média mexicana, numa altura em que o país estava a celebrar o Mundial de Futebol e mais tarde alcançou manchetes após um massacre na cidade do México.

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Cleo toma conta dos vários filhos da família com quem vive, estando ela própria dentro do seio familiar. Vive uma vida relativamente simples, onde tem as suas tarefas diárias e uma vida privada. Tudo parece correr normalmente até ao dia em que ela descobre que está grávida dum rapaz que acaba por lhe abandonar, deixando-a numa situação complicada.

Mais uma vez Cúron mostra-nos o lado mais artístico da vida, insistindo que cada enquadramento seja passível de uma fotografia que bem podia ter sido tirada durante esta época. Existe um enorme delicadeza na composição visual, ao qual este é reforçado ao estar em preto e branco, tornando coisas simples como cores, meramente irrelevantes.

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Por outro lado, é Yalitza Aparicio que contribui para que tudo bata certo, enquanto a acompanhamos naquilo que será certamente uma das alturas mais frágeis da sua vida. Exibindo uma coragem particular, partilhamos todos os sentimentos íntimos das suas vivências, onde crescemos emocionalmente ao mesmo tempo que a sua personagem.

Durante pouco mais de duas horas, vivemos uma vida que não é nossa, onde desconhecidos se tornam rapidamente em pessoas com quem criamos uma preocupação genuína, algo que fazemos num estado vulnerável e de coração aberto. Não são muitos os filmes que têm a coragem de se apresentar deste modo, onde a experiência final vale toda a pena e mais alguma.

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Do lado técnico, não só somos brindados com visuais deslumbrantes, como referido anteriormente, como também a todo um trabalho cuidado na sonoplastia, que elevam o visionamento a um nível que muitos cineastas não chegam com facilidade, mas que Cuarón o faz duma forma tão natural quanto respirar.

Porém, debaixo de um filme brilhante, está uma impressão menos feliz. Deixa-me triste saber que muitos irão perder diversos detalhes ao verem este filme num ecrã mais pequeno. Poderia-se dizer o mesmo sobre qualquer outro filme da Netflix, mas neste caso em particular existe uma experiência recompensadora, que é infinitamente melhor apreciada quando vista na grande tela do cinema. Estaria a mentir se não dissesse que me magoa saber que uma boa percentagem de espectadores irá ver esta belíssima obra no ecrã dum smartphone, num comboio a caminho do trabalho.

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Roma é, estranhamente, um caso muito especial para a Netflix, ao ponto de darem um tratamento especial a Cuarón como um teste-piloto a futuros filmes de grandes autores, algo que tem sido fortemente discutido nos meios da especialidade, dividindo críticos. A conversa não irá ficar por aqui, já que a Netflix irá lançar no próximo ano o novo filme de Martin Scorsese, The Irishman, que também irá ser exibido em sala. Até lá, resta-nos apreciar esta viagem inesquecível.

  • Roma estreia a 13 dezembro 2018 no Netflix e salas selecionadas

Nota Final: 10/10

Ricardo Du Toit

Ricardo Du Toit

Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.

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