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Crítica | Primetime: A captura em directo, ao vivo e a cores

Em Primetime, Robert Pattinson é Chris Hansen, num filme sobre o popular programa To Catch a Predator, tornando-se no homem mais temido da televisão.

Durante grande parte dos anos 2000, a procura do público por conteúdos mais realistas e a tentativa das estações de televisão de corresponder às expectativas dos espectadores acabaram por tornar To Catch a Predator um dos programas mais vistos, com o jornalista Chris Hansen a ficar conhecido como o homem mais temido pelos pedófilos na América. Na sua estreia nas longas-metragens de ficção, Lance Oppenheim oferece-nos, em Primetime, uma visão única dos eventos que culminaram no pior dia do programa.

“Porque não se senta aqui por um momento?”

Seguimos Chris Hansen (Robert Pattinson), um jornalista à frente de um dos segmentos mais importantes do programa Dateline, no qual eram preparados cenários que acabavam com alegados predadores sexuais a serem apanhados em flagrante, expostos perante as câmaras e, posteriormente, detidos pela polícia. Quando a sua vida começa a fugir-lhe ao controlo e surge a oportunidade de apanhar o seu maior peixe, Hansen enfrenta uma reviravolta de grandes proporções.

É importante referir que Primetime não é um filme biográfico, nem uma reconstituição inteiramente fiel dos acontecimentos, mas antes uma recriação ficcional de eventos reais, baseada num artigo publicado em 2007, algo que o filme assume abertamente. Esta abordagem está em linha com a crescente lista de filmes que se centram em momentos específicos da vida de figuras públicas. Neste caso, a opção por um retrato deliberadamente desconfortável e imprevisível resulta em algo verdadeiramente cativante.

Esta abordagem gera uma tensão que percorre todo o filme, sobretudo se tivermos em conta que, fora dos Estados Unidos, o programa se tornou conhecido através da cultura da Internet. Para esse público, a imagem de Hansen pode resumir-se a um conjunto limitado de referências sobre quem é e o que faz. O filme, porém, parte do princípio de que reconhecemos a figura que temos à nossa frente, mesmo nesta versão ficcionalizada. Apesar disso, a obra levanta vários dilemas éticos sobre a produção do programa e os seus métodos, colocando uma questão central: até onde é legítimo ir para apanhar criminosos?

Entre a televisão e a vida real está Primetime

Lance Oppenheim é um cineasta cujo percurso se desenvolveu sobretudo no documentário, e o filme beneficia dessa experiência, particularmente na recriação das partes ditas reais. Os vários ângulos de câmara colocam-nos diretamente nos bastidores de um dos programas mais emocionantes da televisão. A este trabalho alia-se a direção de fotografia de David Bolen, que conjuga diferentes estilos visuais e contribui para um resultado singular.

Por outro lado, Pattinson encarna a sua personagem com vigor, reproduzindo a aparência, a voz e os maneirismos associados a Chris Hansen. Na tensão entre a sua vida pública e a sua vida pessoal, torna-se difícil justificar alguns dos comportamentos da personagem fora das câmaras. Importa, contudo, lembrar que a narrativa apresenta uma versão exagerada e ficcionalizada de Hansen: o espectador encontra um apresentador obcecado pelas audiências e pela fama, um retrato que não deve ser confundido com a pessoa real. Esta opção pode soar a uma distorção, mas funciona muito bem no campo da ficção, no qual o filme estabelece as suas próprias regras.

Assim, Primetime é um filme que caminha numa linha ténue entre o sonho do sucesso e o pesadelo de o ver desaparecer, centrado num homem ambicioso e num programa que ficou famoso pelas suas intenções. Por vezes, a crítica ao espetáculo acaba por desviar alguma atenção das consequências humanas que a obra pretende analisar. Ainda assim, é difícil não nos deixarmos envolver por este retrato de um dos períodos mais interessantes da cultura pop.

Nota Final: 8/10

Ricardo Du Toit

Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.

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