Crítica | O Veredito Social: cinema-jornalismo em foco no Facebook
Em O Veredito Social, vemos uma recriação dos eventos que ocorreram durante a revelação dos Facebook Files, num filme escrito e realizado por Aaron Sorkin.
Quando A Rede Social estreou em 2010, o mundo atravessava uma fase em que a rede social de Mark Zuckerberg ocupava um lugar central na vida de muitas pessoas, tornando-se um espaço de interação virtual, tanto através de mensagens como de publicações. Desde a sua estreia, muito aconteceu ao Facebook. A empresa comprou o Instagram e o WhatsApp, mudou o nome para Meta e lançou a ideia de convivermos num mundo 3D em realidade virtual… A lista é longa, mas a verdade é que a sua presença nas nossas vidas se prolonga há praticamente duas décadas. Desta vez, Aaron Sorkin assume as rédeas da escrita e da realização de O Veredito Social, centrando-se numa das grandes reviravoltas da história do Facebook.

Um jornalista e uma denunciante a tentarem mudar o mundo para melhor
A obra centra-se na publicação dos Facebook Files, um conjunto de documentos que acabou por revelar que a rede social tinha conhecimento de práticas prejudiciais associadas ao seu funcionamento, incluindo a promoção de publicações com desinformação, com consequências graves para os seus utilizadores. Com a narrativa central a cobrir os eventos entre 2019 e 2021, o filme acompanha o jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White) e a denunciante Frances Haugen (Mikey Madison) na sua tentativa de expor estas práticas e responsabilizar a empresa liderada por Mark Zuckerberg (Jeremy Strong).
Ao bom estilo de Sorkin, o filme abarca um vasto conjunto de elementos fundamentais para a narrativa, condensando a informação de forma relativamente acessível. No entanto, estamos perante um filme mais dedicado à dimensão política dos eventos, cuja dramatização acompanha as figuras centrais dos acontecimentos a partir de vários pontos de vista; uma abordagem distante, em vários aspetos, daquela que David Fincher poderia ter adotado.

Aaron Sorkin na frente de O Veredito Social
Na verdade, ter Sorkin a liderar esta obra de acompanhamento – é uma espécie de sequela espiritual do filme de 2010 – permite-nos conhecer um outro lado dos eventos que afetam, de forma abrangente, as nossas vidas sociais e a percepção daquilo que nos aparece nos feeds, com os algoritmos a ditar, em parte, aquilo que vemos e com que acabamos por interagir. Naturalmente, ao tomar conhecimento destas revelações, o espectador acaba por questionar até que ponto aquilo a que foi exposto resultou desta falta de controlo ético, pondo em causa a forma como ainda hoje interagimos com as redes sociais, sejam quais forem.
Grande parte desta exposição de informação advém da tensão e do conflito criados pelas situações, e não tanto das personagens em si, o que permite que observemos as consequências das ações, com Jeff e Frances a serem meros veículos para a verdade vir à tona. Acontece que esta abordagem dramática aproxima o filme de uma reconstituição dos factos, em vez de uma obra assente numa narrativa estruturada, o que pode não corresponder a algumas expectativas.
Embora estes acontecimentos sejam relativamente recentes, já parecem pertencer a um passado suficientemente distante para despertar interesse. Há, contudo, outra questão: a frequência com que ouvimos notícias de gigantes tecnológicos condenados por práticas questionáveis pode fazer com que a mensagem central do filme passe ao lado de espectadores exaustos de tantos anos de controvérsias relacionadas com as redes sociais.

Assim, O Veredito Social reconta os factos com um rigor que ainda causa alguma estranheza no grande ecrã, pelo menos neste registo, com Aaron Sorkin a oferecer-nos algo mais próximo dos seus outros trabalhos na televisão, como Os Homens do Presidente ou The Newsroom. É uma obra que nos quer levar a refletir sobre a forma como continuamos a ser o produto de forças maiores, que influenciam diariamente o nosso comportamento, para o melhor e para o pior. Essas forças lucram com as nossas interações e com a maneira como, pouco a pouco, transformamos o mundo à nossa volta.
Nota Final: 7/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.
