Cinema: Crítica – Sete Estranhos no El Royale (2018)

Drew Goddard, para quem não conhece, é um homem com uma capacidade imensurável de subverter todas as expectativas do cinema que escreve e realiza, tomando quase sempre a decisão de virar à esquerda quando achamos que as coisas estavam encaminhadas para a direita.

Com um currículo vasto em diversos cargos, foi em 2012, com A Casa na Floresta, que Goddard se estreou no lugar da realização, definindo alguns dos pontos mais discretos do cinema de terror de hoje.

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Desta vez Goddard aborda o género de neo-noir, ao bom estilo das revistas de pulp-fiction, em Sete Estranhos no El Royale, um filme que junta várias personagens de pontos muito distintos num só local, desde de um padre (Jeff Bridges), uma cantora (Cynthia Erivo) e um vendedor de aspiradores (Jon Hamm), a uma femme fatale (Dakota Johnson), que traz consigo uma rapariga que raptou (Cailee Spaeny) e eventualmente, um líder dum culto carismático (Chris Hemsworth). A eles se juntam o único funcionário do El Royale (Lewis Pullman)

O próprio El Royale é também ele um local de charme. Separado por uma linha que divide o estado de Califórnia com o de Nevada, esta dualidade transpõe-se no tom do filme de uma forma discreta o suficiente para pôr em causa o destino do universo. Até o próprio El Royale contém um lado escondido, já que todos os quartos têm um espelho bilateral, podendo-se tirar partido da oportunidade de fazer maldade.

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Mas é no edifício principal onde o verdadeiro El Royale sobressai, transbordando de retro-classicismo de 1969, com um jukebox contendo vários singles de The Isley Brothers e o icónico tema “Hush” dos Deep Purple, uma decoração inconfundível com máquinas de slots dum lado e um bar recheado do outro, já que as respectivas licenças de álcool e de jogo estão legais apenas em cada um dos estados.

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O filme começa com um homem a esconder um saco de dinheiro debaixo do chão dum dos quartos do El Royale. Não há nenhuma informação adicional fora o plano fixo onde somos meramente testemunhas. 10 anos depois, conhecemos as várias personagens que se encontram no dia presente.

A premissa vai sendo construída aos poucos, que após a sua introdução, divide em blocos o que cada hóspede está a fazer, revivendo o conceito de como vários estranhos acabam ligados uns aos outros indevidamente. Mas também faz parte do sentimento que existe algo para além daquilo que vemos, algo que Drew Goddard é especialista em criar no espectador, incorporado pelas actuações sólidas dum elenco cujo reportório não desilude.

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Assim, existe uma sensação genuína em acompanharmos este grupo de pessoas, numa noite chuvosa num hotel semi-abandonado, onde literalmente tudo pode acontecer neste épico de 140 minutos, que só Drew Goddard sabe bem fazer.

  • Sete Estranhos no El Royale estreia a 18 outubro 2018 nos cinemas

Nota Final: 8/10

Ricardo Du Toit

Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.

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