Cinema: Crítica – Arrepios (2016)

GOOSEBUMPS – ARREPIOSA todos os leitores que partilham da mesma infância que eu, digam lá se não se lembram de comprar velhos livros dos Arrepios com aqueles títulos fantásticos e capas ainda melhores. Lembro-me de terem um cheiro bastante particular que só uma coleção com aquele nome poderia ter. E um autor bastante misterioso e intimidante chamado R.L Stine. Títulos como “Bem-Vindos à Casa da Morte”, “A Cave do Terror” e “Sangue de Monstro” entraram na minha vida muito antes de qualquer filme de terror e deram ao meu então jovem coração os seus primeiros sustos. Penso que à minha professora de português também deu alguns, visto que ela quase que me queimou na cruz quando eu disse que eram dos meus livros preferidos. [fbshare]

Depois de uma série de TV nos anos 90, planos para adaptar a série da Scholastic ao grande ecrã começaram a surgir com a produção a cargo de Tim Burton. O resultado acabou por ser o mesmo de Superman Lives (a outra grande produção Burtoniana da época) – a morte.

Mas não desesperem porque a equipa de Jack Black e Rob Letterman está aqui para vos salvar, em pleno 2016 com a primeira adaptação ao grande ecrã de Arrepios! Certo?

Hum. Mais ou menos. Ora, prestem atenção.

Zach Cooper (Dylan Minnette) acabou de se mudar de Nova Iorque para Madison, Delaware. Tudo parece o mais aborrecido possível até que conhece a sua nova vizinha – Hannah Stine (Odeya Rush) e infelizmente, o seu pai – R.L Stine (Jack Black) que o avisa para se afastar dela. Zach obedece e o filme acaba. Fim.

Ok, talvez não seja bem assim. Falta ali a parte em que Zach se torna amigo de Champ (Ryan Lee ou Tom Petty), desobedece às ordens de Stine e liberta para a cidade de Madison mais monstros do que possam imaginar.

Parte da razão que levou ao abandono da primeira tentativa foi a indecisão de qual dos livros adaptar. Logo, a ideia desenvolvida pela equipa de Scott Alexander & Larry Karaszewski (Ed Wood) dá uma volta interessante na premissa, colocando o próprio Stine como personagem e todos os seus livros como perigos reais – agora fechados e guardados em máxima segurança. Uma espécie de Naked Lunch do Cronenberg para jovens.

goosebumps

Não sabendo ao certo qual a contribuição da dupla, vou proceder a atribuir (mariotariamente) as culpas ao argumentista Darren Lemke por ter recheado o argumento com um exército de clichés que só amarram o filme, a começar pelo “adolescente-que-se-muda-para-uma-cidade-rural” (que pode ser bastante bem feito, como em The Hole de Joe Dante) e a acabar no “The Boy Who Cried Wolf”. Vou-lhe também dar mérito por algumas situações e gags bem conseguidos, como as armadilhas de urso e o confronto no ringue de gelo com o Abominável Homem das Neves.

Rob Letterman, aqui reunido com Jack Black pela terceira vez, realiza de forma neutra e consegue um bom equilíbrio entre a comédia e o terror. Talvez o filme merecesse uma escolha mais inspirada (imaginem um Del Toro á volta deste material), mas Letterman traz-nos o trabalho pronto a tempo e a horas. E não há nada de mal nisso.

Uma das verdadeiras falhas do filme cai aos pés de Jack Black, e embora isto não seja um biopic, duvido que o próprio Stine tenha assim tanto de Jack Black na sua personalidade. Se esse for o caso peço desculpa.

E não interpretem as minhas palavras de forma errada. Acredito profundamente em Jack Black e nos seus papéis em High Fidelity, School of Rock e afins. Também acredito que teria sido mais eficaz alguém num registo tipo-Vincent Price para Arrepios.

Se o CGI por vezes é um pouco em demasia (um monstro ou outro em practical ou stopmotion teria ficado bem), a banda sonora de Danny Elfman não o é, captando perfeitamente o espírito jovial e tenebroso dos procedimentos. E, funciona também para deixar um rasto de ADN de Tim Burton.

Mas não quero acabar numa nota negativa, até porque me diverti a ver o filme, que por vezes me fez lembrar as películas da Amblin dos anos 80. Apenas gostaria que o filme se tivesse destacado verdadeiramente do género e não fosse apenas mais um.

Mas, vamos aceitar a realidade. Pode ser apenas mais um, mas live action para toda a família é algo cada vez mais raro. Com um punhado de sequências bem conseguidas, uma excelente banda sonora e um sentimento de diversão durante todo o filme, Arrepios acaba por não acertar bem no alvo…mas existem monstros bem piores aí fora!

PS: Estejam atentos ao cameo super rápido do próprio Stine!

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Tiago Laranjo

  Loyd Kaufman nas sessões especiais de "Mutant Blast"

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