BD: Análise – Bouncer vol. 10/11: O Ouro Maldito/O Espinhaço de Dragão

A editora Arte de Autor lança o seu segundo livro da série Bouncer, o terceiro em formato “álbum duplo” que assim engloba um arco de história completa num só tomo.

Como no anterior, e apesar de haver sempre uma continuidade cronológica respeitada, Boucq, que agora segura sozinho as rédeas, acaba por proporcionar-nos uma história bem auto-contida e que pode ser apreciada por qualquer leitor, mesmo não tendo lido nada para trás.

Bouncer capa 10 e 11A tranquilidade de Bouncer, de regresso de um retiro espiritual, é logo interrompida para tentar desvendar o estranho assassinato de Gretel, a filha do relojoeiro, e o rapto da jovem Panchita que tinha sobre sua ala protectora. Mas cedo descobre que estes crimes são a causa de algo bem maior e que não será nada fácil e rápido a sua resolução, levando-o inclusive a percorrer o deserto mexicano de Sonora.

Não quero revelar mais da história (até a sinopse do álbum que a editora forneceu faz mais spoilers do que o desejado), porque parte do charme deste álbum é precisamente o mistério inicial quando tentamos descobrir o que raio afinal se está a passar, e os volte-faces que há no argumento. Aliás, essa é para mim a melhor parte, pois a partir do segundo acto o enredo começou a exagerar que nem as telenovelas do país dos nachos.

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Confesso que fiquei um pouco apreensivo com a saída de Jodorowsky do argumento, mas François Boucq acabou por me surpreender e fazer um bom papel na escrita, mesmo apesar de na segunda metade (O Espinhaço de Dragão), tenha levado a trama um pouco além daquilo que gostaria e de os diálogos parecerem mais forçados do que habitual. Mas aqui a tradução também pode ter um pouco de responsabilidade. “Yin Li, pegue nesta caixa, e passar-me-á o que ela contém quando eu lhe pedir”, ou “Não, não dispares. Arriscas-te a acertar em Bouncer” (o seu marido), são dois exemplos dos muitos diálogos nada naturais que poderemos encontrar mas 156 páginas de banda desenhada.

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bouncer 11 miolo2Apesar de 17 anos separarem o primeiro tomo deste último, a arte mantém-se muito fiel à origem, notando-se talvez a maior diferença nas cores, principalmente dos cenários, que agora é um pouco mais salpicada e “suja”. Mas é apenas uma particularidade que não tira o brilho, nem pouco mais ou menos, aos desenhos irrepreensíveis do autor francês.

A balonagem original tem uma particularidade que não gosto e não acho a mais correcta, que é o facto de unir balões das falas de diferentes personagens. Isso dá aso a uma certa confusão inicial, pois fica a parecer que o texto pertence à mesma personagem. A legendagem portuguesa piora tudo pois usa uma fonte demasiado retorcida, que para mim, torna a leitura desconfortante e cansativa passado algumas páginas.

Argumento e Arte: François Boucq
Editor: Arte de autor
Argumento: 7
Arte: 9
Legendagem: 5
Encadernação: 9
Veredito Final: 7,5

Hugo Jesus

Co-criador e administrador do Central Comics desde 2001. É também legendador e paginador de banda desenhada, e ocasionalmente argumentista.

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1 Response

  1. pco69 diz:

    No geral, gostei do livro. Confesso que também estava relativamente de “pé atrás” em relação à mudança do argumentista, mas acho que não foi assim tão mau.

    Gosto muito da AdA em publicar em album duplo com histórias autocontidas.

    Concordo com as criticas à parte de “telenovela mexicana” e à artificiliadidade de alguns “diálogos”, mas também gostava de ler os diálogos franceses para comparar e perceber se é totoinhice original ou local. Vou ver se encontro em formato digital para comparar.

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