Apelo ao cinema: as luzes apagam-se, inicia a experiência
“Num cinema, quando as luzes se apagam e, pouco a pouco, partilhas a vibração com outras pessoas, isso é magia. O cinema deve ser visto nos cinemas.”
As palavras de Stellan Skarsgård, ditas num palco internacional como o dos Globos de Ouro, soam hoje menos a frase bonita e mais a aviso urgente — sobretudo em países como Portugal, onde ir ao cinema se tornou um hábito em risco de extinção.
Os números divulgados pelo Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) confirmam essa fragilidade. Em 2025, os cinemas portugueses registaram 10,9 milhões de espectadores, uma quebra de 8,2% face ao ano anterior e o pior resultado desde 1996, excluindo os anos da pandemia. As receitas acompanharam a tendência descendente, fixando-se nos 70,5 milhões de euros, menos 3,9% do que em 2024.
O problema, porém, não se resume a estatísticas. É estrutural, cultural e, em certa medida, emocional.
Ir ao cinema em Portugal deixou de ser um gesto acessível. Para muitas famílias, o custo de dois bilhetes, pipocas e uma bebida resulta numa soma superior ao valor de uma mensalidade de plataforma de streaming — com a diferença de que, em casa, o catálogo é quase infinito. A experiência coletiva continua insubstituível, mas o preço tornou-se um obstáculo real, sobretudo fora dos grandes centros urbanos onde as salas de cinema existem a distantes quilómetros. (recordar O Cinema que se Extingue).
Há também um problema técnico raramente discutido fora do setor: o fim dos antigos projecionistas e a automatização generalizada da projeção nos cinemas levaram, em muitos casos, a uma degradação da qualidade na tela e na sala. Equipamentos que reproduzem imagem com má qualidade e “pixéis mortos” no ecrã, som irregular, formato de imagem errado tornaram-se mais frequentes, retirando ao cinema aquilo que deveria ser o seu maior trunfo — a excelência da imagem e do som como selo de garantia.
A experiência coletiva, quando malcuidada, funciona contra si própria, refira-se à ausência de funcionários dos cinemas nas salas. Falta de civismo, telemóveis ligados, conversas durante a sessão ou entradas e saídas constantes criam um ambiente que afasta espectadores mais exigentes. O cinema exige silêncio, atenção e respeito mútuo — valores cada vez mais raros numa sociedade permanentemente carente de estímulos.

Apesar de todos estes fatores, o maior desafio continua a ser a escassez de filmes verdadeiramente apelativos. Em 2025, os títulos mais vistos em Portugal foram produções fortemente apoiadas em marcas reconhecidas pelos mais novos — Lilo e Stitch, Minecraft, Zootrópolis 2. São sucessos legítimos, mas revelam uma dependência excessiva de franquias e de conteúdos pensados sobretudo para o consumo familiar ou infantil.
A produção nacional continua a lutar por visibilidade. O filme português mais visto do ano, O Pátio da Saudade, reuniu 69 mil espectadores — um número modesto quando comparado com os 608 mil de O Pátio das Cantigas em 2015. Não é apenas uma questão de qualidade, mas de aposta, diversidade, promoção e risco criativo. (Recordar as bilheteiras de 2025).

Defender o cinema não é um exercício saudosista. É defender um espaço de encontro, de pensamento coletivo, de emoção partilhada. É aceitar que nem tudo deve ser consumido em modo distraído, pausado ou comprimido num minúsculo ecrã portátil. (Recordar A Sala de Cinema que Resiste).
Quando as luzes se apagam numa sala, o mundo abranda. Durante duas horas, desconhecidos respiram ao mesmo ritmo, riem no mesmo instante, prendem a respiração no mesmo plano. Essa experiência não se mede em algoritmos nem se replica no sofá. (Recordar Cinema nos Dedos).
O cinema precisa de filmes que recuperem o público, de salas que respeitem a obra, de preços que não afastem e de espectadores que queiram voltar a sentir essa “magia” de que falava Skarsgård. Porque, sem público, não há cinema. E sem cinema, perde-se muito mais do que um hábito — perde-se um lugar onde aprendemos, juntos, a olhar para o mundo.
Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.


