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Análise: Undertaker vol. 1 – O Devorador de Ouro

Sendo eu um profissional da banda desenhada, que passa o dia todo a trabalhar em BD, e, no restante tempo, ainda tem o Central Comics para manter, bem como todas as suas redes sociais, acabo por sofrer muito frequentemente de uma Undertakeroverdose de quadradinhos. A vida de freelancer não é fácil – tanto temos alturas em que existe pouco trabalho (ou nenhum), como de repente podem aparecer vários projectos ao mesmo tempo. Felizmente, passo um momento de muito trabalho, o que quer dizer que ler em lazer pode tornar-se penoso. Já estou tão cansado de passar os dias à volta de vinhetas e balões que a última coisa que tenho vontade de fazer nos tempos livres é ler. E, neste cenário, ler banda desenhada acaba por ser ingrato para a obra em questão, pois sinto sempre por não conseguir tirar real partido dela.

Foi num destes estados de espírito que comecei a ler Undertaker vol. 1 – O Devorador de Ouro, que, apesar dos nomes fortes na autoria – Xavier Dorison (O Terceiro Testamento) no argumento e Ralph Meyer (A Balada Assassina) no desenho –  arriscava-se a ser mais um livro para ser lido pelos meus olhos cansados e colocado na “pilha”.

Felizmente, aconteceu precisamente o oposto. A leitura da primeira página bastou para ver que estava perante algo diferente e fresco. No momento em que estou a escrever estas linhas, faz mais ou menos duas semanas que o li e, ao folhear as páginas para refrescar a memória, não é que me apetecia lê-lo de novo? E isto nunca me acontece. Nunca!

A personagem principal é Jonas Crow, um cínico cangalheiro que terá como missão sepultar um milionário que, horas antes de se suicidar, o contrata para que consiga proceder ao seu enterro sem sobressaltos. Isto porquê? Bom, para quem não leu o livro, até podia nem o considerar um spoiler, mas descobrir as causas durante a leitura dará ainda mais gozo. Por isso, prefiro que seja o leitor a descobrir.

Undertaker Quando parece que já vimos tudo no género western, eis que aparecem estas pérolas que nos trocam as voltas. Isto deve-se muito à psicologia de Jonas Crow, que tem tanto de espirituoso como de sombrio, e que não hesita em inventar cartas bíblicas de São Paulo, para as mais inusitadas alturas. As suas contradições e acções, que podem passar de humanistas a violentas num piscar de olhos, tornam-no numa das mais carismáticas personagens que pude ler nos últimos tempos.

A editora original quis vender esta série como o próximo Blueberry, mas, se no argumento é capaz de andar um pouco distante, o mesmo não se pode dizer da arte de Meyer, que, à vista de todos, não tem pudor em admitir que é fortemente inspirado na popular série Jean-Michel Charlier e Jean “Mœbius” Giraud – porém sem nunca deixar de ser única e original. Os layouts, os cenários, as cores (com o apoio de Caroline Delabie), tudo é grandioso neste livro.

Undertaker apanhou-me numa fase má da minha disposição para ler, e arrebitou-a, qual primavera para as flores. Como diria João César Monteiro, no filme “As Recordações da Casa Amarela” de 1989, adorei, adorei, adorei.

Argumento: Xavier Dorison
Arte: Ralph Meyer (e Caroline Delabie, cores)
Editor: Ala dos Livros
Argumento: 9
Arte: 9
Legendagem: 8
Encadernação: 9
Veredicto Final: 9

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