Análise Manga: Tower Dungeon, de Tsutomu Nihe
Imagina um mundo onde uma colossal torre chamada Torre do Dragão desce do céu. Um feiticeiro (necromancer) assassina o rei e sequestra a princesa, e a Guarda Real, derrotada, começa a recrutar civis para subir a torre e resgatar a herdeira. O protagonista é Yuva, um fazendeiro convocado “no meio do nada” com pouco mais que coragem e físico.
Nihei põe seu traço visceral e único a serviço de uma fantasia sombria, quase crua.
Cada criatura parece saída de um pesadelo de RPG clássico, cada corredor da torre parece um convite ao desconhecido, e isso dá a sensação de estar a lançar dados num jogo de D&D, com consequências reais para cada passo.
Ao contrário das narrativas com foco em poder exagerado e personagens “overpowered”, Tower Dungeon abraça um tipo de progresso estrutural e estratégico: explorar, sobreviver, mapear e continuar.
É, sem dúvida, mais dark fantasy do que simples ação Shōnen. Essa abordagem lembra jogos difíceis como Dark Souls ou jornadas de RPG épico, onde cada nível tem sua própria lógica.
E se o ritmo começa lento, rapidamente acelera para a ação e deixa-nos cada vez mais cativos na história e apreensivos com o que a narrativa poderá trazer. Começa a ficar cada vez mais difícil parar de ler, tal é a tensão e a curiosidade.
O traço de Nihei aqui não é cientificamente frio como em Blame!, nem engenheiristicamente colossal como em Knights of Sidonia. Neste mangá, ele alimenta a estranheza do mundo; temos monstros retorcidos, arquitetura bizarra e cenas onde a sombra e a linha contam tanto quanto o diálogo, num estilo que muitos críticos destacaram como ameaçador e eficiente.
Com efeito, quem conhece este autor até fica impressionado ao princípio e duvida se será o mesmo desenhador, pois a estética visual é bastante diferente de Blame!. Se em Blame! o desenho é mais claro, limpo e ultra detalhado, aqui ele é mais sujo, com mais sombras e menos detalhes, adequado à temática dark fantasy — e está maravilhoso. Faz-me lembrar muito Berserk, que é um dos meus mangás favoritos.
O facto do autor ter estudado arquitetura e design serve-lhe na perfeição para impor perspectiva, visão, cultura arquitetónica e artística no seu desenho — incrível e espetacular.
Se em Blame! impressiona, aqui em Tower Dungeon adapta-se e traz-nos novamente um desenho monumental a nível artístico. Ângulos e perspectivas, jogos de sombra e luz, imagética e perfis sublimes que quase parecem ter uso de fotorealismo quando tal não acontece. A nível de desenho, este autor está no meu top 10 de mangakás.
Não posso deixar de criticar algo que me parece peculiar neste autor, que já verifiquei em Blame! e Knights of Sidonia e volta a acontecer aqui neste mangá, embora não tanto felizmente. Diria mesmo que é o único defeito de Nihei.
Nas cenas de ação com os personagens, apesar da sua espectacularidade, o dinamismo sequencial é muitas vezes confuso. O autor consegue fazer o que quer a nível de dinamismo, pelo que não consigo perceber com frequência se um golpe veio da esquerda ou da direita, quem foi atingido, o que caiu, o que explodiu… se foi uma flecha ou um tiro. Quem já leu, acredito que me compreende… Dá a sensação, por vezes, de que faltam vinhetas ou que alguma arte sequencial ficou apenas na cabeça do autor e não passou para o papel. Mais alguém sentiu isto?
Neste mangá não se sente tanto, o que melhorou bastante, mas é um pouco estranho, porque capacidade e qualidade por parte do autor não falta para ser tudo perfeito.
Alguns leitores podem considerar Yuva um protagonista “comum demais”, especialmente comparado às figuras mais icónicas de Nihei ou de outras aventuras épicas, e acham que a sua jornada emocional ainda precisa amadurecer para ter impacto. Eu acho que está perfeitamente escolhido.
Enquanto o setting é forte, algumas personagens secundárias e figuras femininas carecem de profundidade, às vezes agindo mais como ornamentação do que como entidades narrativas completas — algo que pode incomodar quem busca debates mais elaborados de identidade e protagonismo. No entanto, acho que o trio principal (Yuva, Eriquo e Lilisen) tem uma dinâmica excelente. E gosto especialmente de Lilisen: o facto de ser uma maga poderosa, embora com mana limitada, e com uma atração romântica por Yuva. Personagens muito bem trabalhadas, que transmitem empatia na medida em que a progressão táctica do grupo em subir a torre e os diferentes níveis, ao estilo de videojogo, é muito fixe.
Como ainda só li os primeiros capítulos e continuam a aparecer personagens, penso que ainda vai melhorar bastante, nomeadamente os dracomorfos (quase toda a realeza tem aspecto humano mas transforma-se em dragão) e animais antropomórficos que correspondem a espécies diferentes, trazendo muito carisma.
Faço também uma comparação com outras séries que estão a ser publicadas cá, como Made in Abyss ou Tower of God. Posso dizer que ambos exploram o desconhecido em níveis sucessivos, mas Made in Abyss é mais psicológico e emocional, com temas de perda e trauma; Tower of God foca-se mais em intrigas, traições, conflitos ideológicos e hierárquicos; e Tower Dungeon joga mais com o estilo clássico de aventura e exploração brutal de fantasia, ampliando a sensação de perigo para escalada contínua de ameaça e foco em arquitetura labiríntica.
Para finalizar, posso dizer facilmente que:
Tower Dungeon é uma carta de amor à fantasia sombria clássica, pintada com o traço ousado de Nihei. Não é apenas mais um Shōnen de aventura; é uma experiência que combina ambiente ameaçador, exploração tática e uma torre que é personagem por si só. Pode não agradar a quem busca tragédias emocionais profundas ou protagonistas monumentais logo de cara, mas, para fãs de fantasia labiríntica e designs monstruosos, é uma aposta que merece atenção. Gostaria muito que a Distrito Manga ou a Devir, ou qualquer outra editora, apostasse nesta proposta por cá.
Bom ano 2026!

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.






