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Análise BD: Zheng Shi Vol. 1

Zheng Shi surge como uma nova aposta de Jean-Yves Delitte publicada em Portugal pela Arte de Autor: volume 1, O Rio das Pérolas, capa dura, 48 páginas (edição portuguesa, julho 2025). Trata-se de uma transposição da lenda/biografia da célebre pirata chinesa para a linguagem da BD franco-belga.

A ideia é sedutora: tomar a figura (histórica ou mítica) da grande pirata do Sul da China a que a tradição ocidental muitas vezes nomeia Ching Shih ou Zheng Shi e enquadrá-la num álbum de mar, intriga e códigos de honra pirata. 

Zeng Shi Vol. 1– O Rio das Pérolas

O álbum privilegia sequências marítimas e episódios de tensão ,assaltos, estratégias e a gestão de uma frota de mercenários mais do que longos monólogos introspectivos. Essa opção confere ritmo cinematográfico, mas deixa uma apetência por maior densidade psicológica. Em 48 páginas há espaço para o espectáculo e para um vislumbre de personagem, mas pouco para a transformação interior profunda. 

Delitte, cujo trabalho marítimo já é reconhecido, demonstra aqui mais uma vez a afinidade pelo desenho de embarcações e por cenas de convulsão no mar com composições amplas, splash pages que respiram água salgada e combates coreografados com clareza.

 A abordagem gráfica privilegia uma linha clara com preocupação documental (rigor nas velas, aparelhagens e cartografia visual), combinada com uma paleta que, nesta edição portuguesa, aposta em contrastes fortes nas páginas dedicadas à noite e à guerra. Esse equilíbrio entre realismo técnico e um certo classicismo franco-belga resulta num álbum visualmente prazeroso e funciona tanto para leitores que procuram “BD de aventuras” quanto para quem aprecia a precisão histórica/visual que outros álbuns de batalhas navais que foram cá editados pela Gradiva apresentam. Há, contudo, momentos em que a estética pára no detalhe técnico e perde alguma alma expressiva nas faces e nas micro-situações íntimas. Uma crítica habitual quando a cenografia se impõe ao close emocional. 

Zeng Shi Vol. 1– O Rio das Pérolas

O álbum caminha na fronteira entre biografia histórica e lenda. Isso pode ser escolha consciente em transformar uma figura colectiva (líder de piratas, código próprio, alianças) em protagonista e requer condensação e selecção dramática. O risco é a simplificação de contextos sociais e geopolíticos do Sul da China no final do século XVIII/XIX  e são áreas que mereciam mais espaço para emergir com complexidade. 

Como primeiro volume, O Rio das Pérolas privilegia a exposição e a apresentação do universo, estabelecimento de ameaças e uma ou duas set-pieces navais que justificam a sequência. Isso garante dinamismo, mas também termina com vontade de mais camadas de personagem e de consequências políticas. 

Em termos de edição, o formato franco-belga e a capa dura ajudam a amplificar a sensação de objecto cuidado; a leitura fica confortável, com traço e cor a valorizar a verticalidade das cenas marítimas. É impossível ficar indiferente à capa deste volume. 

Zeng Shi Vol. 1– O Rio das Pérolas

Concluindo; Zheng Shi – O Rio das Pérolas é um álbum bem conseguido no registo aventura-marítima, bonito de ver, bem editado e com momentos de puro cinema em página. Para leitores que procuram ação, barcos e narrativa rápida, é uma boa compra; para quem procura uma biografia histórica profunda ou um estudo íntimo da figura, é mais um ponto de partida do que a palavra final. 

Recomendo a leitura e seguir logo para o próximo volume pois há potencial para que a série evolua tanto em densidade dramática quanto em escala épica. Esperemos que não demore muito a sair a segunda parte. 

Carlos Maciel

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

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