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Análise BD: Rever Comanche

O título Rever Comanche, de Romain Renard, é uma dessas obras que se anunciam como banda desenhada, mas que se elevam muito além do género, propondo uma leitura que é simultaneamente cinematográfica, poética e quase musical na sua estrutura narrativa.

Publicado em Portugal pelas Edições Asa em janeiro de 2026, trata-se de uma edição cuidada em capa dura e formato generoso, com 152 páginas a preto e branco, impressas em papel de qualidade, e um acabamento poderoso que, desde o primeiro contacto físico, nos coloca numa outra dimensão de leitura.

Rever Comanche

O livro tem um QR code no interior que liga a uma playlist pensada pelo próprio autor, uma elegância editorial que dignifica o livro como objecto e reforça o desejo de uma experiência imersiva, estética e emocional da história. Isto é algo que não é novidade e que, pessoalmente, gostaria de ver noutras obras de BD, pois a minha primeira experiência a este nível foi há uns bons anos, ao ler uma série chamada Requiem, o Cavaleiro Vampiro, de Olivier Ledroit e Pat Mills, em que também nos é imposta uma banda sonora de música clássica nesse ambiente vampírico e de terror, que nessa altura me marcou bastante e surpreendeu.

A premissa de Rever Comanche coloca-nos no início do século XX, na Califórnia e no Wyoming, onde Red Dust (uma lenda marcada pelo pó e pelo sangue da obra-prima Comanche, de Hermann e Greg) vive isolado, à espera do fim. A partir deste ponto, Renard constrói um relato que não é simplesmente um western tradicional.

Não se trata do duelo rápido ao pôr do sol ou do romance simplista de cowboys e índios, mas antes de um regressar ao passado que nos confronta com fantasmas interiores e memórias que nunca nos largam. A personagem Vivienne surge como a força disruptiva que vira a vida de Red Dust ao avesso, obrigando-o a encarar tudo aquilo que pensava ter deixado para trás.

Rever Comanche

A narrativa, fragmentada e contemplativa, fala de amor e arrependimento, de estrada e destino, mas é também uma reflexão sobre o peso das nossas escolhas e a necessidade ou impossibilidade de nos reconciliarmos com o que fomos, ao bom estilo de road movie. Renard usa a estrada como metáfora e como espaço narrativo: o caminho não serve apenas para deslocar personagens, mas para as esculpir, obrigando-as a meditar sobre si mesmas a cada curva, cada deserto atravessado, cada noite passada a sós.

A sensibilidade com que o autor trata estes temas transcende o género enquanto BD, aproximando-se mais de uma literatura gráfica madura, onde o silêncio e os espaços vazios na página têm tanto peso como as palavras. O facto de citar músicas clássicas no início dos capítulos, de Leonard Cohen a Bob Dylan, sublinha a fusão pretendida entre a linguagem das imagens, das palavras e da música, como se estivéssemos a folhear um grande álbum conceptual ilustrado, tendo em conta que a arte utiliza muito a foto-referência e também o decalque sobre foto, e toda a estética é muito peculiar, fugindo ao estilo tradicional franco-belga ou ao comic americano.

Como já mencionei, a história acompanha o protagonista principal, Red Dust, um homem marcado pelo passado, isolado num presente que parece suspenso no tempo. Ele é uma figura que carrega o peso de escolhas antigas, de amores perdidos e de uma identidade que já não sabe muito bem se ainda lhe pertence. Quando um acontecimento inesperado o obriga a sair da sua reclusão, inicia-se uma viagem que é simultaneamente física e emocional.

Ao longo dessa viagem, o leitor é confrontado com memórias, fragmentos de relações passadas e momentos que moldaram o homem que agora vemos. A narrativa alterna entre presente e passado com naturalidade, sem recorrer a explicações excessivas. Tudo é sugerido com contenção, convidando o leitor a preencher os espaços em branco. É uma história sobre reencontros, sobre a impossibilidade de apagar o que fomos e sobre a necessidade de enfrentar fantasmas antigos para poder avançar.

Com efeito, é inclusivamente uma história que poderia ser contada sem usar estas personagens da série original Comanche, mas que, ao fazê-lo, traz outro peso emocional e também a curiosidade de leitores tradicionais para uma leitura mais moderna. Há uma abordagem ao que se sucedeu nos Estados Unidos nos anos de 1930, nomeadamente a denominada Dust Bowl e a Grande Depressão, que faz com que leitores menos elucidados sobre estas matérias possam procurar informação sobre estes acontecimentos impactantes.

Rever Comanche

Sem entrar em pormenores, pode dizer-se que o coração da obra está numa relação que marcou profundamente o protagonista. Essa relação não é tratada de forma melodramática, mas antes com uma sensibilidade contida, quase melancólica. O livro fala de amor, mas também de culpa, de orgulho e de silêncio. E fala, acima de tudo, do tempo. Do tempo que passa, do tempo que transforma e do tempo que não cura tudo.

Mais do que um enredo cheio de reviravoltas, Rever Comanche oferece uma experiência contemplativa. É uma história que se saboreia devagar, onde cada pausa, cada paisagem e cada olhar têm peso. Um western intimista que troca o tiroteio pelo eco das memórias e que encontra na estrada não apenas um cenário, mas uma metáfora para a própria vida. Eu gostei particularmente de alguns plot twists, mas confesso que o final não me convenceu. Parece-me um final apressado, como se as páginas do livro estivessem a terminar e o autor tivesse de alterar o ritmo para acelerar o desfecho. Mas cada leitor terá, obviamente, a sua opinião.

Em suma, Rever Comanche é um livro que seduz pela sua profundidade, pela forma como reinventa a tradição do western e pela coragem de olhar para as sombras do passado com honestidade e elegância. É uma obra que não se contenta com o superficial, que convida à reflexão sobre o tempo, a memória e o amor e que, graças à edição portuguesa, nos chega com todo o respeito e cuidado que merece. Se procura uma leitura que escape às fórmulas habituais, capaz de emocionar sem recorrer a facilidades e que nos lembra a potência da banda desenhada enquanto forma artística, este livro é uma aposta segura e memorável.

Falar de Rever Comanche sem revelar demasiado é, de certa forma, respeitar a própria natureza do livro, por isso decidi não o fazer. Estamos perante uma obra que vive tanto do que conta como da forma como o conta, e cuja força reside precisamente na descoberta gradual das suas camadas.

Esta obra conquistou o prémio Fauve Polar no prestigiado Festival de Angoulême de 2025, este que infelizmente está, por sua vez, envolto em polémicas e que, por isso, não se irá realizar este ano. Mas confesso que, a nível de obras “polar” — nomenclatura francesa para policial/crime/thriller —, acho que havia obras melhores. Mas eu, infelizmente, ainda não estou no nível do júri de Angoulême.

Carlos Maciel

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

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