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Análise BD: Blast Integral 1, de Manu Larcenet

Blast, de Manu Larcenet, é um banda desenhada incrivelmente profunda, pesada e visceral onde as temáticas sobre a doença mental, a psicologia, a psicopatologia e a forma como percecionamos a realidade nos deixa a refletir por muito tempo após a leitura.

O autor já dispensa apresentações tendo em conta que por cá, a editora A SEITA já editou O combate quotidiano enquanto a ALA DOS LIVROS editou já O Relatório de Brodeck e A estrada
 
São obras magníficas que demonstram a versatilidade do autor, que consegue variar as temáticas e incrivelmente o seu traço e desenho, assim como demonstra o seu talento no branco e negro ou a cores.
Estamos a falar de um verdadeiro mestre da banda desenhada, quer nos argumentos quer no desenho.
 
E finalmente Blast está a ser editado por cá, dividido em 2 integrais. O primeiro já está cá fora, com um papel mate de elevada gramagem que se adequa na perfeição ao preto e branco da obra e o pormenor delicioso da fita marcadora de página.
 
O livro é um “calhamaço” e tem o valor de 49,90 euros, por isso se pedirem isto ao Pai Natal, não se podem queixar.
 
BLAST Integral 1/2
 
A história apresenta-nos um homem de seu nome Polza Mancini que apresenta um aspeto bastante caricato quer pela sua obesidade mórbida quer pelo seu rosto com um enorme nariz que Larcenet nos resolve dar em mais um desenho fora de série e muito peculiar. Polza encontra-se detido numa esquadra de polícia, para um interrogatório, suspeito de um assassinato. Nos últimos meses, este homem viveu em fuga, pelas matas e bosques e completamente rendido ao vício do álcool e depois outras drogas.
 
Os dois polícias que o estão a interrogar não apresentam qualquer empatia para com este indivíduo, muito pelo contrário, uma repulsa e repugnância ao seu aspeto. Necessitam no entanto do seu depoimento, e Polza revela um carácter demasiado interessante deixando extremamente curioso o leitor, na forma como conta a sua versão da história, e como tudo começou para ele de uma explosão mental a que ele intitula de blast.
 
À medida que Polza vai contando a sua história, as peças do puzzle vão-se encaixando ou não, e o argumento mirabolante decorre a uma velocidade frenética. Este primeiro livro tem 408 páginas, mas lê-se  numa assentada porque é quase impossível parar de ler para perceber o que acontece a seguir. A história deriva com o que se passa no momento, com flashbacks da infância ou juventude do protagonista e as suas relações familiares, e Larcenet presenteia-nos com um recital de desenhos fantásticos, onde por vezes encontramos uma narrativa visual sem narração e outra com uma narração mais extensa e detalhada dos acontecimentos.
 
BLAST Integral 1/2
 
A forma como Larcenet domina as sombras no seu preto e branco fulminante, o jogo de luzes e as perspetivas é genial e a distribuição das vinhetas é também magistral, sendo que os apontamentos de cor aquando os acontecimentos do chamado blast apresentam toda uma subjetividade que nos cabe a nós leitores decifrar. 
 
Claramente Polza apresenta distúrbios psicológicos que o levam a ter comportamentos desadequados, de auto-mutilação, de dependências e relações desestruturadas, mas é fascinante tentar perceber o que é real ou não naquilo que ele nos conta. O cérebro dele funciona de um modo extremamente interessante, mostrando uma inteligência acima da média na forma como perceciona a sociedade ao mesmo tempo que identificamos o contrário nos seus comportamentos. 
 
BLAST Integral 1/2
 
Por muito que me apeteça falar mais desta obra, não o vou fazer para não estragar o prazer da leitura a quem se atrever a pegar nisto. Só posso dizer que não deixarão de ser surpreendidos com uma história amarga, dura e ao mesmo tempo fascinante que facilmente nos daria um argumento perfeito para uma adaptação a cinema que seria muito bem vinda.
 
Manu Larcenet continua a surpreender-me com obras inteligentes, argumentos crus, cruéis, distorcidos ou duros sem grande misericórdia para com o leitor e que com os diferentes e mais variados recursos que tem nos seu desenhos faz o que lhe vai na alma sem grandes regras, pois consegue descrever pelas suas mãos, quadros e vinhetas brilhantes onde não faltam detalhes exímios e tinta carregada de emoções fortes.  
 
Mais uma obra a não perder…

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Blast

Carlos Maciel

O Carlos gosta tanto de banda desenhada que, se a Marvel, a DC, os mangas, fummeti, comic americano e Franco-Belga fundissem uma religião, ele era o primeiro mártir. Provavelmente morria esmagado por uma pilha de livros do Astérix e novelas gráficas 😞 Dizem que cada um tem um superpoder; o dele é saber distinguir um balão de pensamento de um balão de fala às três da manhã, depois de seis copos de vinho e um debate entre o Alan Moore e o Kentaro Miura num café existencial em Bruxelas onde um brinde traria um eclipse tão negro quanto dramático, mas em que a conta era paga pelo Bruce Wayne enquanto o Tony Stark vai mudar a água às azeitonas.

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