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AMADORA BD’26: Os grandes destaques da programação

O Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora está de regresso para celebrar a sua 37ª edição, com muitos autores, lançamentos, exposições, e outras actividades a não perder, e que podem ser visitadas entre 15 a 25 de outubro.

Mais de 20 autores internacionais de banda desenhada estão confirmados, sendo de destacar a presença Peter Van Dongen (Blake & Mortimer),  Ryan North e Iban Coello (que acompanham a exposição 65 anos do Quarteto Fantástico), Mansoureh Kamari (As Linhas que traçam o meu corpo), Thomas Gilbert (As Raparigas de Salem), Josep Homs (Shi – Ciclo Um), Guy Delisle (Guy Delisle, o viajante imprevisto) e Bruno Brindisi (Dylan Dog: 40 Anos Do Investigador Do Pesadelo). Entre os convidados, com lançamentos e apresentações de novas edições portuguesas, destaque para Craig Thompson (Ginseng Roots), Romain Renard (Rever Comanche), Andrea Artusi (O Misterioso Caso Vargas), Sidney Gusman e Jefferson Costa (Domingos), Zanzim (Pele de Homem), Marcello Quintanilha (Eldorado), Nzé Esono Ebalé e Pere Ortín (Dez Mil Elefantes), Jolan Thomas (O Julgamento dos Famintos), Mateusz Skutnik (O Último Blaki), Marcin Bałczewski (O Meu Pequeno Pelé) e Mana Neyestani (A Aranha de Mashhad).

Destaques de programação

80 ANOS DE LUCKY LUKE: O SOL NUNCA SE PÕE REALMENTE

Crédito: Morris Comics

Oitenta anos depois do primeiro tiro disparado nas páginas do Spirou, esta exposição revisita Lucky Luke pela mão do seu criador, Morris, e de quem lhe deu continuidade.

Percorremos o traço e o percurso do autor belga, a construção de um Oeste onde as mulheres ocupam um lugar de força e determinação raramente reconhecido, e os choques culturais que a série retrata com uma lucidez que ultrapassa a comédia.

Seguimos depois o legado até Achdé, que assumiu o desafio de manter viva uma obra com oito décadas, e encerramos com um conjunto de homenagens assinadas por Matthieu Bonhomme, Blutch e Ralf König, além da contribuição portuguesa de André F. Morgado e Joana Afonso para a antologia europeia dedicada ao cowboy.

Um percurso que celebra Lucky Luke através do olhar de quem o criou e de quem continua a reinventá-lo.

80 ANOS DE BLAKE E MORTIMER – SO BRITISH DESDE 1946

Exposição comemorativa dos 80 anos de Blake e Mortimer, criados em 1946 pelo belga Edgar P. Jacobs.

Incidindo especialmente no período que se estende até à morte do autor/criador, a exposição não esquece também todos aqueles que continuaram a obra de Jacobs e que permitem que cada nova geração de leitores continue a acarinhar Blake e Mortimer e a mantê-los como uns dos heróis de maior sucesso da Banda Desenhada franco-belga.

Através de pranchas e esboços, convidamos o visitante a deixar-se envolver neste fascinante mundo onde espionagem, ciência e ficção científica se fundem de uma maneira extraordinária.

QUARTETO FANTÁSTICO: A FAMÍLIA QUE CRIOU A MARVEL

Crédito: Jack Kirby

1961. Jack Kirby e Stan Lee eram ainda relativamente desconhecidos do grande público, embora já tivessem percurso no mundo da banda desenhada. Kirby tinha criado, na década de 1940, o Capitão América; Lee, por sua vez, era um argumentista com um currículo discreto, mas diversificado. Tudo mudaria com a publicação de Fantastic Four #1, datada de novembro de 1961. Nessa revista, ambos não se limitaram a criar quatro super-heróis: deram início ao universo da Marvel moderna, um mundo ficcional que hoje é sinónimo de entretenimento, fantasia e imaginação.

Segundo a lenda, tudo começou durante uma conversa, entre dois editores: um da Marvel e outro da DC. O editor da DC terá mencionado o enorme sucesso comercial da Liga da Justiça da América. Como nenhuma boa ideia parece destinada a existir sozinha, o editor da Marvel pediu então aos seus criadores que imaginassem algo semelhante. Desse pedido nasceu o Quarteto Fantástico, composto por: Sr. Fantástico, de nome Reed Richards, génio científico com o poder de tornar o seu corpo elástico; a Mulher-Invisível (na altura ainda rapariga), Sue Storm, noiva de Reed e capaz de, obviamente, ficar invisível; o Tocha Humana, Johnny Storm, irmão de Sue, com o poder de se incendiar, controlar o fogo e voar; e o Coisa, Ben Grimm, o melhor amigo de Reed, que o acidente que deu poderes a todos transformou num monstro feito de pedra e munido de força sobre-humana.

Da imaginação de Kirby e Lee saíram alguns dos mais delirantes conceitos e personagens e, supervilões, não só da Marvel como da cultura pop. O Dr. Destino, o maior adversário do Quarteto, é apenas o mais conhecido e um dos mais inspirados. Mas não é o único. Da BD que foi hiperbolicamente apelidada de The World’s Greatest Comic Magazine, saltaram o Pantera Negra, os Inumanos, Galactus, o Surfista Prateado, entre tantos, tantos outros.

Com esta exposição exploramos, com originais fabulosos, os 65 anos de histórias do Quarteto Fantástico, dialogando com a arte dos seus maiores criadores, sejam eles do passado, sejam do ainda brilhante presente.

DYLAN DOG: 40 ANOS DO INVESTIGADOR DO PESADELO

Créditos: Fábio Celoni

Criado por Tiziano Sclavi em 1986, Dylan Dog revolucionou a banda desenhada de terror italiana, tornando-se um verdadeiro ícone da cultura pop. O “Investigador do Pesadelo” redefiniu o género do terror ao misturar horror clássico, introspeção psicológica e crítica social, conquistando gerações de leitores.

Mais do que enfrentar monstros, Dylan enfrenta as fragilidades humanas — o medo, a solidão, a loucura — tornando cada história surpreendentemente próxima da realidade. Aos 40 anos, Dylan Dog não é apenas um ícone nostálgico: continua a abrir portas para novos leitores e a provar que os pesadelos, quando bem contados, nunca envelhecem.

Esta exposição segue a evolução histórica da personagem através dos trabalhos originais de alguns dos seus desenhadores mais relevantes, mostrando as diferentes faces de uma personagem que ao longo de 40 anos já viveu milhares de aventuras, algumas das quais os leitores portugueses têm tido oportunidade de descobrir na última década.

O MENINO TRISTE – 25 ANOS

Créditos: João Mascarenhas

A exposição consta das comemorações dos 25 anos de publicação do primeiro livro da personagem “O Menino Triste”.

Quando uma criança não tem a oportunidade de poder crescer nos braços da sua mãe, ou vê os seus sonhos serem interrompidos por algo que lhe é estranho, corre o risco de se tornar numa criança triste!

“O Menino Triste” é a história de uma dessas crianças. Um menino que, tal como Peter Pan, não tinha querido crescer. Até ao dia em que achou que o devia fazer e entrar então no mundo dos crescidos…

Contudo, o seu imaginário de criança, as suas crenças individuais, que continuava a conservar, faziam-no descrente desse mundo que um dia ele tinha decidido conhecer…

GUY DELISLE, O VIAJANTE IMPREVISTO

Créditos: Guy Deslile

Mais de três décadas de trabalho confirmaram Guy Delisle como um dos nomes grandes da banda desenhada mundial. A sua obra é vasta, frequentemente marcada por um discurso autobiográfico, e conta com narrativas curtas e mais experimentais, histórias de maior fôlego, umas vezes baseadas na sua vida, outras em vidas alheias, trabalhos de pendor jornalístico e livros de viagens – Pyongyang, Crónicas de Jerusalém, Crónicas da Birmânia e Shenzhen. Foram estes últimos que lhe deram leitores e reconhecimento fora do meio habitualmente mais reservado da BD, confirmando a apetência geral por relatos deste género, e é neles que nos focamos nesta exposição.

AS LINHAS QUE TRAÇAM O MEU CORPO

Créditos: Mansoureh Kamari © Casterman

Mansoureh Kamari cresceu no Irão, sob um regime que decide, por lei, a quem pertence o corpo de uma mulher. Nesta novela gráfica autobiográfica, revisita a infância em Teerão, marcada pelo medo e por restrições severas, num traço a preto, cinzento e vermelho.

Exilada em França desde 2011, constrói o livro a partir de sessões de modelo vivo, onde a cor regressa e acompanha a reconquista da liberdade sobre o próprio corpo.

Entre memória pessoal e testemunho coletivo, a obra expõe factos brutais da lei iraniana e inscreve-se no espírito do movimento “Mulher, Vida, Liberdade”. Aclamada em França e na Bélgica, proibida no Irão, lembra que contar a própria história é, em si, um ato de resistência.

AS RAPARIGAS DE SALEM

Créditos: Thomas Gilbert © Dargaud 2018

Em 1692, na rígida colónia puritana de Salem, um grupo de jovens é apanhado a realizar um ritual proibido na floresta. Para escapar ao castigo, as raparigas — lideradas por Abigail Williams — alegam ter sido enfeitiçadas e começam a apontar o dedo a vizinhas e vizinhos. O que nasce de uma mentira de sobrevivência, transforma-se rapidamente numa onda de histeria coletiva que consome toda a aldeia. Através do traço cru e visceral de Thomas Gilbert, “As Raparigas de Salem” mergulha no ponto de vista das jovens, expondo a misoginia, o fanatismo religioso e a procura de bodes expiatórios numa comunidade em crise.

JOSEP HOMS – NO PRINCÍPIO ERA O FANTÁSTICO… 死 (SHI)

Josep Homs, com um traço virtuoso e característico, tem como marca o gosto pela ilustração do fantástico.

O seu desenho detalhado e marcante dá vida a “SHI”, uma das mais aclamadas séries da BD franco-belga da atualidade, que assina em conjunto com Zidrou, no argumento.

Com a Inglaterra Vitoriana do século XIX como pano de fundo, SHI – cujo nome tem origem num ideograma que significa “a morte” – mistura aventura e fantasia com uma história que contém laivos de intriga policial, de magia e de consciência social. Os acontecimentos precipitam-se quando duas mulheres de origens opostas, unidas pelo ódio, acabam por criar laços indestrutíveis.

“O Diabo e a Coral” é a estreia de Homs como autor completo. Uma história profunda sobre uma jovem rapariga judia que partilha a existência com o diabo. De novo, o fantástico e o sobrenatural estão presentes nesta obra.

Esta exposição reúne um conjunto de originais do seu trabalho em diferentes obras, os quais demonstram o talento e criatividade que fazem de Homs um dos autores mais destacados da BD europeia da atualidade.

ENERELIS – UM MUNDO ENTRE A REALIDADE E A FANTASIA

Enerelis resulta de uma infinidade de mundos que a autora, Patrícia Costa, criou desde a adolescência. Mundos de escape da realidade, mundos onde cabiam todos os seus sonhos e desejos.

Com um worldbuilding high-fantasy rico de personagens, paisagens e arquitetura, desde os primeiros estudos (2008) até aos estudos atuais; desde os layouts em grafite até à arte-final digital das suas pranchas, esta exposição espelha a tapeçaria complexa do universo criado pela autora nos primeiros sete volumes de “Crónicas de Enerelis”, uma série de Banda Desenhada de edição independente.

Com arte inspirada na estética do mangá japonês, bebendo do estilo de narrativa das grandes aventuras de fantasia épica, esta série é uma jornada de aprendizagem e crescimento, não só para o seu protagonista (Eyren Caeli) e leitores, mas também para a autora, que se afirma como uma “artista em construção”, página após página, volume após volume.

KINGPIN BOOKS: 20 ANOS A CONTAR HISTÓRIAS

Um olhar seletivo a duas décadas de edições e histórias que à sua maneira se tornaram clássicos. Da irreverência inicial do Pig e do Inspector Franco, passando por obras marcantes como O Baile, a Fórmula da Felicidade ou Kong The King, até à narrativa mais densa de Vil ou Atrahasis, a Kingpin Books tornou-se uma referência na excelência não só da escrita para BD, mas da edição de BD em si.

SPAM CARTOON – A RAIVA E O RISO

Em meados da primeira década do século XXI, em Portugal, cinco criadores juntaram-se numa equipa multidisciplinar para tentar responder a uma pergunta que pouca gente naquela altura fazia: como podia o cartoon editorial evoluir com os novos tempos, tecnologias e audiências? Se o papel, e mais tarde a TV, deixavam gradualmente de ser os suportes estruturantes da comunicação social, como podia o cartoon adaptar-se à nova realidade?

O resultado foi um projeto único no contexto internacional que, acompanhando as duas últimas décadas, se tornou um laboratório de experimentação, juntando os diferentes talentos de João Paulo Cotrim, André Carrilho, Cristina Sampaio, João Fazenda e José Condeixa, a quem mais tarde se juntaram Tiago Albuquerque e Philippe Lenzini. 

Como área de criação jornalística, o cartoon tem um papel histórico na prática da liberdade de expressão e de imprensa, um espaço de opinião gráfica com recurso ao humor e à denúncia. O projeto Spam Cartoon foi, até à sua interrupção em 2025, uma resposta a um mundo em mudança, cada vez mais polarizado, mantendo a independência criativa dos seus autores numa paisagem de media cada vez mais fragmentada. 

Numa realidade em que a indignação se tornou um instrumento para nos manter presos ao fluxo de informação, o humor é a outra face da mesma moeda. Também nos prende a atenção, mas os ataques a que o cartoon é sujeito nos media mostram que mantém o poder de incomodar quem odeia a liberdade de pensamento. 

É difícil rir perante um mundo prestes a desmoronar-se. Mas precisamos, a todo o custo, de manter um olhar lúcido. Cada Spam Cartoon foi desenhado para defender o riso, para não cegarmos com ecrãs cheios de raiva.

REFLEXÕES – IRONIA, CRÍTICA E LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Reflexões é uma exposição de cartoons e ilustrações, um olhar sobre a atualidade política nacional e internacional, sobre os temas das alterações climáticas, aquecimento global, plásticos nos oceanos, a falta de água no planeta, problemáticas que enfrentamos todos os dias. Entre estes temas, estará patente outros temas como as questões humanitárias, os migrantes, a guerra, exploração infantil, problemáticas e políticas na União Europeia, direitos humanos, os direitos das mulheres, entre outros temas.

Os trabalhos selecionados para a exposição são interpretações sobre a atualidade do nosso planeta, sempre com um sentido provocatório, um apelo revestido de sarcasmo, com uma necessidade de mensagens fortes e impactantes. Uma necessidade imagética do autor, para alertar de uma forma imediata e universal, estimulando o público a refletir sobre estas problemáticas.

Esta exposição reúne momentos de introspeção do autor, que nos leva a pensar através do desenho satírico, uma ferramenta de intervenção, de forma instintiva existe um processo criativo, uma procura constante de encontrar formas de comunicação através da arte de desenhar, são pensamentos da obra para o público, uma corrente que necessitamos para o nosso caminho da nossa evolução.

TALES FROM NEVERMORE – UMA VIAGEM ENTRE O HORROR E O HUMOR

Créditos: Pedro N

Vincent, o corvo, é o anfitrião que nos leva numa viagem pelo cemitério de Nevermore, enquanto dá a conhecer as histórias (macabras e sombrias) que se escondem em algumas das suas campas.

Uma antologia de histórias curtas de terror, “Tales from Nevermore”, é, ao mesmo tempo, uma homenagem aos grandes clássicos do género. São seis histórias de amor, traição, terror, ciúme, ganância e arrependimento… Cada uma dessas histórias irá conduzir o leitor a um desfecho mais ou menos inesperado e sinistro.

Enquanto se aguarda a esperada continuação, com “More Tales from Nevermore”, o leitor pode explorar e descobrir mais sobre este universo clássico em expansão constante através das várias propostas interativas apresentadas no livro. Porque Vincent, o corvo, está sempre à espera de novos habitantes para o seu cemitério…

“Tales from Nevermore”, recebeu o Prémio Revelação no Amadora BD 2025.

A 37ª edução do Amadora BD

À semelhança da edição anterior, em 2026 o Amadora BD mantem o horário alargado dedicado às sessões de autógrafos com autores (para além dos habituais períodos disponíveis durante o fim-de-semana, o Festival passa a ter sessões adicionais nas duas sextas-feiras do evento, entre as 18h e as 20h) e a Hora da BD (de segunda a quinta-feira, das 18h às 20h, os visitantes podem beneficiar de descontos adicionais de até 15% na compra de livros). Ambas as iniciativas acontecem no Núcleo Central do Festival – Parque da Liberdade.

NÚCLEO CENTRAL: Parque da Liberdade 

Para além da zona comercial (de 950 m2) – que contará com a presença de várias editoras e que será palco de inúmeros lançamentos, sessões de autógrafos, apresentações e palestras – e da gaming arena (250 m2) – onde se realizarão inúmeras iniciativas com personagens do mundo da BD – o Núcleo Central acolhe a área expositiva (de 950 m2) – onde vão estar patentes 11 exposições de autores nacionais e internacionais:

80 Anos de Lucky Luke: O sol nunca se põe realmente

80 Anos de Blake e Mortimer – So British desde 1946

Quarteto Fantástico: a família que criou a Marvel

Dylan Dog: 40 anos do investigador do pesadelo

O Menino Triste – 25 Anos

Guy Delisle, o viajante imprevisto

As linhas que traçam o meu corpo

As Raparigas de Salem

Josep Homs – No princípio era o Fantástico … 死 (SHI)

Eneris – Um mundo entre a realidade e a fantasia

Kingpin Books: 20 anos a contar histórias

GALERIA MUNICIPAL ARTUR BUAL vai receber duas exposições retrospetivas:

Spam Cartoon – A Raiva e o Riso

Reflexões – Ironia, crítica e liberdade de expressão

BEDETECA DA AMADORA – BIBLIOTECA FERNANDO PITEIRA SANTOS acolhe a exposição do álbum vencedor do Prémio Revelação na edição de 2025 dos Prémios de Banda Desenhada da Amadora: Tales from Nevermore – Uma viagem entre o terror e o humor

Ricardo Du Toit

Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.

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