Crítica | Street Fighter: uma adaptação em fundo de néon
Street Fighter chega aos cinemas com um filme repleto de grandes estrelas e muita acção, perfeito para os fãs dos vídeojogos da Capcom.
Corria o ano de 1994 e Street Fighter – A Última Batalha adaptava as personagens do popular videojogo da Capcom, um ano antes de Mortal Kombat, o seu rival, também receber uma adaptação para o grande ecrã. Muitas histórias circularam sobre este filme, desde os relatos de que Jean-Claude Van Damme teria participado nas filmagens sob o efeito de substâncias ao facto de ser um dos poucos filmes protagonizados por Kylie Minogue, e com Ming-Na Wen ainda em ascensão rumo ao estrelato, muito antes de aparecer em E.R. – Serviço de Emergência. Pouco mais de 30 anos depois, Street Fighter chega novamente aos cinemas, com um elenco recheado de estrelas, muitas lutas e luzes de néon.

Em busca do novo campeão mundial de Street Fighter
O ano é 1993, e os irmãos Ryu (Andrew Koji) e Ken (Noah Centineo) estão de relações cortadas na sequência de uma tragédia que os afastou. Entretanto, M. Bison (David Dastmalchian) continua a perseguir o seu objectivo de conquistar o mundo e organiza um novo torneio de artes marciais, convidando os melhores lutadores para se enfrentarem.
Estamos perante uma reinvenção de Street Fighter tal como o conhecemos no cinema, que, de muitas formas, replica a exuberância e os excessos dos videojogos de salão de jogos. Entre o enorme conjunto de personagens que vemos, de Guile (Cody Rhodes) e Dhalsim (Vidyut Jammwal) a Balrog (Curtis “50 Cent” Jackson), contamos também com Chun-Li (Callina Liang) e Cammy (Mel Jarnson), entre muitas outras. O elenco parece perfeitamente escolhido para encarnar estas figuras. Apesar de tantas personagens, o filme parece conseguir encontrar um fio condutor para acompanhar os seus protagonistas, com as restantes a desempenharem papéis de apoio que enriquecem o universo e a narrativa. Pelo menos de início, todas parecem ter um propósito definido.

Animação e live-action de mãos dadas para oferecer um filme mais dinâmico
Acontece que Street Fighter, apesar dos seus esforços para encontrar um equilíbrio sólido, cai frequentemente na paródia de si próprio, nem sempre conseguindo acertar no tom, sobretudo nos momentos em que se pretende mais sério. No meio da brincadeira, existem elementos verdadeiramente interessantes, como a maneira como a animação e a imagem real se complementam para ilustrar certas sequências que, de outra forma, dificilmente seriam possíveis sem aumentar drasticamente o orçamento. Esta opção faz todo o sentido, tendo em conta o material original, e é uma decisão criativa muito bem-vinda.
Acima de tudo, a acção é emocionante, dando a conhecer os diferentes estilos de luta das personagens e contribuindo para o espectáculo, ao mesmo tempo que reflecte com fidelidade as suas versões originais no jogo. A história, porém, parece construída à medida do chamado fan service: algumas personagens surgem apenas pelo prazer de as vermos no ecrã, sem contribuírem de forma significativa para a narrativa. É aqui que Street Fighter se perde na sua estética de néon e parece transformar-se numa obra feita para uma geração de espectadores incapaz de passar mais de dois minutos sem ter algo a mover-se rapidamente no ecrã, deixando a sensação constante de que tudo está a correr contra o tempo.

Para Kitao Sakurai, conhecido pelo seu trabalho em The Eric André Show e pela realização de alguns episódios de séries como Twisted Metal, Butterfly e Beef, é admirável conseguir dar o salto para uma produção desta dimensão e manter um nível de criatividade razoável, sem perder o controlo do conjunto, ainda que o resultado não seja particularmente inovador ou marcante. Há breves ecos de clássicos de kung-fu e de cinema noir, mas Street Fighter não permite mais do que isso, privilegiando algo mais próximo de fast-food cinematográfico. Satisfaz nos momentos certos, mas é uma opção criativa pouco ambiciosa.

Assim, Street Fighter, para melhor ou pior, pode não ter o mesmo charme do filme de 1994, mas a sua capacidade de dar destaque às várias personagens da história é de aplaudir. Simplesmente não é um filme feito para perdurar na memória para além do tempo estritamente necessário até que sejamos distraídos por outra coisa qualquer colorida e brilhante. Para quem procura algo mais próximo da história original dos videojogos, Street Fighter: Assassin’s Fist ainda existe e está disponível na Internet, podendo funcionar como um bom complemento.
Nota Final: 5/10
Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.
