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Resident Evil (2026) – O melhor terror que já vimos em Raccoon City

Tal como o realizador Zach Cregger, a minha bagagem cinematográfica no que toca à série de filmes Resident Evil era praticamente nula até agora. Contudo, as incontáveis vezes que revi Evil Dead II garantiram a minha rendição imediata ao mais recente projeto do cineasta norte-americano, responsável também por Barbarian e Weapons.

Tentar emular Sam Raimi costuma revelar-se um exercício ingrato, já que a habilidade do veterano em cruzar o mundano com o paranormal e o assustador com o ridículo é sui generis no sentido mais apropriado da expressão e o respetivo impacto lhe reservou um lugar cimeiro na indústria. O verdadeiro mérito de Cregger consiste, portanto, na inteligência com que aproveita essa herança para edificar a sua própria identidade narrativa.

Ao assumir a saga liderada por Bruce Campbell como uma das suas principais inspirações, Cregger deixou antecipar uma abordagem carismática e entusiasmante ao universo dos aclamados videojogos da Capcom, que, de facto, suscita a sensação de jogar através da procura de recursos, do encadeamento de ameaças e de outras referências conceptuais subtis ao longo da história.

Em simultâneo, a afinidade com Raimi prolonga-se no percurso do estafeta Bryan Hodukavich, que, à imagem de Ash Williams, aprende a sobreviver conservando muito da relutância e da inaptidão com que começou. O interesse em seguir a personagem interpretada por Austin Abrams, um jovem ator que justifica inteiramente a atenção crescente que tem recebido, reside em observar como as suas insuficiências o obrigam a improvisar e a reagir a cada novo obstáculo, à medida que se aventura no mundo dos heróis do survival horror.

Olhando à vertente cómica do argumento, a disponibilidade de Cregger e do seu parceiro de escrita, Shay Hatten, para lhe calibrar as doses, após as sessões de teste terem revelado que o público considerava algumas partes demasiado engraçadas, atesta a destreza da dupla, que sobressai ainda graças ao ritmo impecável que se mantém do princípio ao fim, pontuado por instantes de violência gráfica e passagens dramáticas em torno do medo da paternidade. Estes momentos mais íntimos assentam na vulnerabilidade de Bryan e cumprem o seu propósito narrativo com distinção.

Já o elenco, reduzido e com personagens secundárias sucessiva e prontamente descartadas, contribui também para a fluidez da trama, onde a recusa sistemática de monólogos explicativos obriga o público a decifrar a origem do caos maioritariamente através das reações e dos vários eventos macabros.

Até aos derradeiros instantes, retemos apenas o essencial sobre a epidemia que assola Raccoon City e o envolvimento da Umbrella Corporation, sendo certo que o trajeto de Bryan, desde o acidente que desencadeou a sua viagem até ao último piso do hospital de onde sairá a suposta cura, nos faz sentir um tamanho grau de proximidade que a perspetiva de um triunfo definitivo perde o peso inicial. O desgaste extremo do protagonista reflete-se na nossa própria fruição e damos a jornada por válida, enquanto o final aponta para o início de algo muito maior e mais sangrento do que já vimos.

Classificação: 9/10

Fascinado por cinema desde cedo, começou pelas cassetes VHS de casa da avó e acabou a colecionar figuras de clássicos dos anos 80. Hoje, vê cada filme com a mesma curiosidade de então.

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