Mayday (2026) – Guerra Fria ou a amizade
Mayday, a nova comédia de ação de Jonathan Goldstein e John Francis Daley, é a mais recente aproximação da dupla de realizadores aos sempre nostálgicos anos 80. Desta vez, porém, longe da fantasia de Dungeons & Dragons: Honor Among Thieves, surge uma história original à volta de Troy Kelly, um piloto da Marinha norte-americana interpretado por Ryan Reynolds, que se despenha durante uma missão secreta em território soviético. Em plena Guerra Fria, Troy é resgatado por Nikolai (Nick) Ustinov, um
antigo agente do KGB vidrado na cultura popular americana, a quem Kenneth Branagh dá vida e de cuja ajuda o piloto passa a depender para regressar a casa.
Desta convivência nasce boa parte do interesse de um filme em que Reynolds, também produtor através da Maximum Effort, encontra talvez o melhor equilíbrio possível para o registo que consolidou em Deadpool. A temática e a presença de alguém capaz de o contrariar obrigam-no a reagir de modo diferente e a moderar a exibição das suas excentricidades. Branagh, por seu turno, impõe corpo e alma a Nick, conciliando a rudeza de um antigo oficial com o fascínio quase infantil por referências a Top Gun, numa excelente adição ao seu repertório dramático, aqui responsável por afastar a personagem dos estereótipos que lhe vêm atrelados.

Infelizmente, o argumento nem sempre acompanha essa entrega, contendo alguns retratos rasos de carácter e revelando-se muito aquém da profundidade que alguns dos seus temas auspiciavam. O fascínio de Nick pela América e a superioridade que Troy julga representar dariam matéria para explorar, por exemplo, a alienação individual perante as mundividências coletivas dos Estados Unidos e da União Soviética. Contudo, a facilidade com que a aproximação entre os protagonistas resolve essas diferenças acaba por limitar o alcance do questionamento.
A aventura mantém, ainda assim, um ritmo bastante pertinente, com uma dose certeira de peripécias e piadas de contraste entre ambos os mundos a sustentar a leviandade do filme e a entreter-nos mesmo nos intervalos das chamativas cenas de ação. O humor prolonga-se pelas próprias acrobacias, como se percebe na perseguição com um veículo de transporte de mísseis, cuja escala alimenta o absurdo da situação. Há mesmo que dar mérito a Goldstein e Daley, apoiados por Brad Martin na segunda unidade e na coordenação de duplos, pela fluidez com que encadeiam as manobras e renovam os obstáculos à fuga. A fotografia de Barry Peterson também contribui para o aproveitamento dos cenários e para a clareza das sequências, permitindo acompanhar os movimentos e mantendo o interesse pelo desfecho.

Enfim, tratando-se esta de uma obra pouco ambiciosa, mas consistente, há que felicitar o resultado, tão agradável quanto inócuo, não fosse o facto de deixar em aberto um possível futuro para Kenneth Branagh em papéis do género, além de ter provado que ainda é possível suportar Ryan Reynolds a fazer de si mesmo durante mais um tempo.
Classificação: 6/10

Fascinado por cinema desde cedo, começou pelas cassetes VHS de casa da avó e acabou a colecionar figuras de clássicos dos anos 80. Hoje, vê cada filme com a mesma curiosidade de então.
