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Crítica | Sacrifício: A sátira contra a elite na ponta da língua

Em Sacrifício, o cineasta Romain Gavras leva-nos até a um vulcão e coloca em questão a utilidade das elites na sociedade, num thriller repleto de comédia negra.

O fim do mundo está iminente. As alterações climáticas têm consequências graves no nosso dia a dia e, mais tarde ou mais cedo, as consequências irreversíveis virão reclamar aquilo que tanto ambicionam. Num universo em que, literalmente, tudo parece perseguir-nos para nos matar, Romain Gavras coloca-nos perante uma situação inicialmente absurda, mas que poderá revelar mais do que aquilo que está à superfície, em Sacrifício.

Os salvadores e o Sacrifício entre a espada e a rocha

Seguimos a vida de várias figuras importantes dos mundos das artes e dos negócios: Mike Tyler (Chris Evans), um ator em busca de um regresso à ribalta; Ben Bracken (Vincent Cassel), o homem mais rico do mundo; a sua mulher, Gloria (Salma Hayek Pinault), uma estrela pop; e Joan (Anya Taylor-Joy), membro de uma fação ecoterrorista determinada a salvar o mundo.

A conjunção de todas estas personagens indica-nos de imediato o tipo de história que temos pela frente: uma situação descabida que explora, e bem, todo o imaginário do “e se…?”. O filme convida-nos, de facto, a substituir mentalmente as personagens pelas suas contrapartes do mundo real, mas a obra de Gavras quase não nos dá tempo suficiente para explorar essa ideia. Afinal, o fim do mundo também está iminente e há uma profecia a cumprir.

De que servem afinal as elites senão serem alvos?

Algures entre o sonho e a fantasia, Sacrifício oferece-nos uma narrativa bastante cativante desde o primeiro segundo, levando-nos a questionar, frequentemente, ao longo das suas quase duas horas, o que estamos a ver e o que está realmente a acontecer. É o tipo de filme que se aproxima das obras de Yorgos Lanthimos e Ruben Östlund, embora lhe falte um compromisso mais firme com a história que inicialmente nos propõe. Gavras provoca o espectador e foge – talvez a rir-se – em busca de uma reação que acaba, mais frequentemente, por se traduzir em pontos de interrogação do que em algo mais concreto. No fim, ficamos sem saber ao certo se existe uma verdadeira profundidade moral ou se tudo não passa de uma simples brincadeira de simulação existencial, com o novo single de Charli XCX – que também faz uma aparição muito diva na obra – a dar de fundo.

O elenco de luxo ajuda certamente, e todos os participantes contribuem para os muitos momentos intrigantes e divertidos. Ainda assim, levantam uma questão essencial: a quem pertence realmente o filme? Joan acaba por ter o papel mais cativante, e Taylor-Joy vinca a sua presença imponente como uma mulher numa missão de agora ou nunca. No entanto, a narrativa dedica muito tempo ao arco de redenção de Mike, colocando os dois protagonistas numa rota de colisão de intenções que nem sempre se articula como seria desejável. Daí resulta uma instabilidade narrativa notória, sobretudo nos momentos mais importantes.

Assim, Sacrifício é um filme repleto de comédia negra e é altamente caótico, com uma narrativa frequentemente cartunesca – para o bem e para o mal. Ainda que revele alguma falta de foco e de compromisso com a sua intenção inicial, e apesar de nem sempre aprofundar as ideias que lança, temos uma obra que, pelo menos, tenta fazer uma crítica ao mundo em que vivemos e que, na sua sátira, não tem receio de se rir de todos os envolvidos. Quem nos dera que bastasse um sacrifício destes para salvar o mundo, mas será que queremos mesmo fazer isso de forma altruísta?

Nota Final: 6/10

Ricardo Du Toit

Fã irrepreensível de cinema de todos os géneros, mas sobretudo terror. Também adora queimar borracha em jogos de carros.

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