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A disputa pelos melhores ecrãs chegou ao cinema

A guerra pelo grande ecrã está a ganhar uma nova frente. A Disney apresentou o Infinity Vision, uma certificação destinada a identificar as salas de cinema com melhores condições de projeção, som e dimensão de ecrã, numa tentativa de simplificar para o público a escolha entre as várias experiências Premium Large Format (PLF) disponíveis.

O anúncio foi feito em abril, durante a CinemaCon, e surge num momento em que o cinema premium se tornou cada vez mais importante para os estúdios e para os exibidores. Com centenas de salas PLF espalhadas pelo mundo, a Disney quer criar uma espécie de selo de qualidade que permita ao espectador reconhecer imediatamente onde poderá assistir a um filme nas melhores condições possíveis.

A proposta é clara: ecrãs com pelo menos 13,7 metros de largura, projeção laser, elevados níveis de luminosidade e som imersivo ou 7.1. A certificação exige ainda que as salas cumpram parâmetros técnicos específicos, incluindo 14 foot-lamberts de luminosidade em 2D e/ou 6 foot-lamberts em 3D, valores correspondentes a aproximadamente 48 e 20,6 candelas por metro quadrado, respetivamente.

O Infinity Vision não pretende substituir marcas já existentes. Pelo contrário, funciona como uma certificação adicional. Uma sala pode continuar a ser identificada pela sua marca PLF habitual e, simultaneamente, apresentar o selo Infinity Vision. A Disney compara-o a um selo de qualidade destinado a eliminar parte da incerteza no momento da compra do bilhete.

A iniciativa contará também com materiais de comunicação e promoção fornecidos pela Disney, tanto nos cinemas como nas plataformas de venda de bilhetes. O objetivo é transformar uma especificação técnica relativamente difícil de compreender num sinal simples para o espectador: se existe o símbolo Infinity Vision, aquela sala cumpre determinados padrões mínimos de apresentação.

Os primeiros filmes associados à iniciativa serão Vingadores: Endgame – Encore, na reedição prevista para setembro, e Vingadores: Doomsday, com estreia em dezembro. A Disney pretende, no entanto, que o programa se estenda a outros títulos do seu catálogo.

A estratégia recebeu apoio de alguns dos maiores exibidores mundiais de cinema. Executivos da Cinemark, Regal Cineworld, Vue, Cinepolis e TOHO Cinemas elogiaram a iniciativa e a tentativa de criar uma linguagem comum para comunicar ao público a existência de diferentes formatos premium.

Vingadores: Doomsday
Victor von Doom/Doctor Doom (Robert Downey Jr.) em VINGADORES: DOOMSDAY. Photo courtesy of Marvel. © 2026 Marvel. All Rights Reserved.

É precisamente aqui que o Infinity Vision começa a tocar num território particularmente sensível: o domínio do IMAX.
O IMAX construiu durante décadas uma das marcas mais reconhecidas do cinema premium. Não vende apenas uma sala maior, uma projeção mais luminosa ou um sistema de som mais potente: vende uma experiência associada diretamente a determinados filmes e realizadores.

A Disney parece estar a seguir uma lógica diferente.
Em vez de criar necessariamente uma tecnologia, o Infinity Vision pretende agregar sob uma única designação um conjunto de características técnicas que já existem em diferentes cadeias de exibição. É, essencialmente, uma forma de dizer ao público que determinada sala está entre as melhores opções disponíveis, independentemente da marca PLF que esteja instalada.

A diferença estratégica foi recentemente sublinhada por Rich Gelfond, CEO da IMAX, numa entrevista em que abordou precisamente a nova iniciativa da Disney. Para o responsável da IMAX, o Infinity Vision pode ser entendido sobretudo como uma ferramenta da Disney para promover os seus próprios lançamentos e direcionar o público para determinadas salas.

A IMAX, pelo contrário, pretende manter uma identidade diretamente associada aos grandes acontecimentos cinematográficos — filme âncora — e à ideia de que determinados filmes foram concebidos para serem vistos naquele formato.

É uma distinção importante. O Infinity Vision certifica uma sala; o IMAX vende também uma relação entre o filme, o realizador e o formato. E essa diferença poderá tornar-se particularmente evidente em 2027.

Oppenheimer
A película de “Oppenheimer” em projector de 70mm / 15 perfurações

Segundo Gelfond, a IMAX tem atualmente como objetivo chegar a 75 projetores IMAX 70 mm / 15 perfurações em funcionamento em todo o mundo. Como estes projetores já não são fabricados (nem existe possibilidade de isso acontecer), a empresa estará ainda a procurar equipamento que possa ser recuperado e reinstalado através de uma espécie de “caça ao tesouro” tecnológica, com potencial para acrescentar cerca de dez projetores à rede e aumentar significativamente a capacidade disponível até 2027.

O número é relevante porque o IMAX 70 mm continua a ser uma das formas mais raras de apresentação cinematográfica. Ao contrário do IMAX Digital ou IMAX Laser, a versão em película exige equipamento específico, cópias em película e uma logística consideravelmente mais complexa.

A própria produção de uma cópia IMAX 70 mm tem um custo estimado em cerca de 50 mil dólares, antes dos custos de transporte ou legendagem. Cada cópia representa, portanto, um investimento considerável para um mercado em que existem relativamente poucos projetores capazes de a exibir.
A limitação de capacidade é particularmente evidente quando um filme de grande procura chega aos cinemas.


A Odisseia, de Christopher Nolan, é um exemplo extremo. As sessões IMAX 70 mm têm registado uma procura extraordinária, com lugares esgotados durante semanas e, em alguns mercados, reservas feitas com uma antecedência invulgar.

O interesse da IMAX passa agora por aumentar essa capacidade e levar o formato a mais regiões do mundo. Gelfond apontou especificamente para Índia, China e outros mercados internacionais, numa tentativa de evitar que o IMAX 70 mm continue excessivamente concentrado nos Estados Unidos.

A experiência australiana parece ter reforçado essa estratégia. O IMAX 70 mm em Melbourne registou resultados considerados extraordinários, demonstrando que existe procura para o formato muito para além do mercado norte-americano.
A expansão ganha uma dimensão ainda maior quando colocada em perspetiva.

O número de projetores IMAX 70 mm chegou a atingir cerca de uma centena em determinados momentos da história recente. Para O Cavaleiro das Trevas Renasce, por exemplo, a rede chegou a ter aproximadamente 102 projetores capazes de apresentar o formato.

O objetivo atual de 75 projetores pode, à primeira vista, parecer inferior. Mas, caso a IMAX consiga recuperar equipamento e aumentar a rede, a capacidade de distribuição de um futuro filme de Christopher Nolan poderá ser significativamente superior à disponível para os seus lançamentos mais recentes.
E existe uma razão para isso importar: Nolan é atualmente um dos principais motores da procura por IMAX 70 mm.


Oppenheimer transformou a exibição em película de grande formato num acontecimento por si só. A Odisseia voltou a demonstrar que o público está disposto a planear uma ida ao cinema com meses de antecedência para conseguir uma sessão num número muito reduzido de salas.

Se a rede de IMAX 70 mm crescer de forma substancial até ao próximo filme de Nolan, o impacto poderá ser considerável: mais sessões, mais cópias, maior distribuição internacional e, sobretudo, menos espectadores obrigados a viajar para encontrar uma sala capaz de projetar o filme em película.

Enquanto a IMAX tenta aumentar a capacidade física da sua rede, a Disney parece estar igualmente a preparar cuidadosamente a ocupação dos formatos premium para 2027. Entre os títulos apontados com compromissos ou expectativas de presença em IMAX encontram-se Star Wars: Starfighter, Frozen 3 e Vingadores: Guerras Secretas. A lista inclui ainda o regresso de Star Wars aos cinemas para assinalar o 50.º aniversário da estreia do filme original, além de A Idade do Gelo: Quase a Explodir!.

A distribuição dos grandes títulos pelos formatos premium poderá tornar-se, por isso, uma questão cada vez mais estratégica.
Não basta produzir filmes capazes de encher salas. É preciso decidir quais os filmes que terão acesso às poucas salas capazes de proporcionar experiências verdadeiramente diferenciadoras.

E essa disputa pode tornar-se especialmente intensa num mercado onde Disney, IMAX e outros operadores de PLF procuram convencer o público de que a diferença entre ver um filme numa sala convencional e vê-lo numa sala premium justifica o preço adicional.

O que parece cada vez mais evidente é que a batalha pelo futuro do cinema não se limita à quantidade de ecrãs. Está a disputar-se a qualidade desses ecrãs, a tecnologia de projeção, o som, a dimensão da imagem e, sobretudo, a capacidade de transformar uma sessão de cinema num acontecimento.

Dune 3
Duna: Parte Três

A própria programação dos grandes estúdios já revela essa disputa. A Warner Bros. assegurou para Dune: Parte 3 uma janela exclusiva de várias semanas nas salas IMAX a partir de 17 de dezembro de 2026, deixando Vingadores: Doomsday, da Marvel, sem acesso às salas IMAX norte americanas, e de outros mercados, durante o seu período inicial de exibição, apesar de ambos os filmes chegarem aos cinemas na mesma data. A Disney prepara, por isso, uma estratégia alternativa, promovendo formatos premium como o Infinity Vision, além das restantes salas de grande formato e Dolby Cinema.

Não é, contudo, uma batalha que determine necessariamente o vencedor nas bilheteiras. Homem-Aranha: Um Novo Dia já demonstrou que um blockbuster pode alcançar resultados extraordinários sem acesso às salas IMAX norte americanas, depois de A Odisseia, de Christopher Nolan, ter ocupado esses ecrãs durante a estreia do filme da Marvel. A ausência do formato não impediu Homem-Aranha de alcançar uma das maiores estreias da história.

Ainda assim, a guerra pelos melhores ecrãs está longe de ser irrelevante. Villeneuve tem as salas IMAX para Dune: Parte 3. A Marvel responde com Dolby Cinema, Infinity Vision e outros formatos premium. E a disputa acontece precisamente no terreno onde os estúdios procuram convencer o público de que determinados filmes não foram feitos apenas para serem vistos, mas para serem vividos numa sala de cinema.

Vingadores: Doomsday
VINGADORES: DOOMSDAY. Photo courtesy of Marvel. © 2026 Marvel. All Rights Reserved.

A Disney acaba de colocar uma nova bandeira nesse território. A IMAX, que construiu grande parte da sua identidade precisamente em torno dessa promessa, dificilmente ficará a assistir da plateia.
Para já, não existem informações públicas sobre a implementação do Infinity Vision nas salas portuguesas.

A ausência de informação não significa, contudo, que o mercado português esteja afastado desta transformação. Portugal dispõe de diferentes formatos e salas premium, mas a nova certificação da Disney levanta uma questão inevitável: que salas nacionais poderão cumprir os critérios técnicos definidos pela Infinity Vision e que filmes serão efetivamente promovidos sob essa marca?

A resposta dependerá das negociações entre Disney, distribuidores e exibidores.

Para o espectador, esta diversidade entre Infinity Vision, IMAX, Dolby Cinema e os restantes formatos premium pode acabar por ter uma consequência bastante simples: mais razões para voltar a escolher o cinema e, cada vez mais, menos desculpas para ver determinados filmes em casa.

Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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