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Cecilia Bengolea regressa à Jamaica com “Return to Bog Walk 2025-2026”

A exposição “Return to Bog Walk 2025-2026”, da artista argentina Cecilia Bengolea, estará patente na SOLAR – Galeria de Arte Cinemática, entre 19 de setembro e 7 de novembro.

Dancehall Weather
frame do filme Dancehall Weather

O projeto representa um regresso a Bog Walk, na Jamaica, local onde foram filmadas as obras Lightning Dance e Dancehall Weather, situado a cerca de 30 quilómetros de Kingston. Através deste novo trabalho, Cecilia Bengolea pretende realizar um filme com aproximadamente 15 minutos, acompanhando o regresso, ou a tentativa de regresso, de um grupo de bailarinos jamaicanos à sua terra natal.

Cada um dos bailarinos transporta consigo uma geografia pessoal e espiritual marcada pelo deslocamento económico forçado. Alguns ficaram sem documentação ou impossibilitados de regressar à Jamaica, encontrando-se atualmente estabelecidos noutros territórios. É o caso de Oshane Overload Skankaz, que vive no Alabama, nos Estados Unidos, um estado cujo território está profundamente ligado a histórias ainda por resolver de escravatura, migração e sobrevivência.

Dança, memória e resistência

“Return to Bog Walk 2025-2026” explora a forma como a dança pode funcionar como memória incorporada e como instrumento de resistência. O movimento surge como um espaço de refúgio, permitindo que pessoas deslocadas mantenham uma ligação às suas origens enquanto constroem novas identidades no exílio.

O projeto será desenvolvido a partir de duas geografias distintas: a Jamaica e o Sul dos Estados Unidos.

Os bailarinos que tenham essa possibilidade serão filmados durante o seu regresso à Jamaica, num gesto simultaneamente literal e simbólico de reapropriação do lugar de origem. As sequências serão construídas a partir de performances improvisadas em ambientes naturais e urbanos, procurando restabelecer através do movimento uma ligação física e emocional com a terra.

A coreografia não pretende limitar-se a representar a nostalgia. O trabalho procura demonstrar como a ideia de casa permanece inscrita no corpo e como essa ligação pode ser reativada mesmo depois de longos períodos de ausência.

No âmbito do projeto, Cecilia Bengolea viajará também até ao Alabama para filmar Oshane, impossibilitado de regressar à sua terra natal, enquanto dança numa paisagem marcada pelo trauma da história negra nos Estados Unidos.

Os seus movimentos irão traduzir simultaneamente rutura e resiliência, desenhando um refúgio pessoal dentro de um território desconhecido. Através desta relação entre diferentes espaços geográficos, o filme questionará o significado de transportar a própria terra natal dentro de si, criar raízes no exílio e encontrar formas de sobrevivência através do ritmo.

O corpo como território de memória

O filme dará continuidade à investigação de Cecilia Bengolea sobre a forma como a eletricidade, tanto no sentido literal como metafórico, anima o corpo.

O suor, a chuva, a memória e o som serão utilizados como materiais condutores, contribuindo para dissolver as fronteiras entre passado e futuro, interior e exterior, terra natal e exílio.

O espírito da Refugia irá manifestar-se não através de gestos monumentais, mas através dos micromovimentos da resiliência, em atos improvisados de preservação e metamorfose.

Para além da dança e da performance, o vídeo reunirá também uma série de entrevistas que a artista começou a filmar em 2017, procurando devolver um contexto e um conteúdo que, sem recurso às palavras, poderiam permanecer enigmáticos.

“Return to Bog Walk” apresenta assim a dança como uma forma de refúgio, sobrevivência, transformação e memória coletiva. O filme contará com artistas jamaicanos ligados à performance e ao dancehall, atualmente refugiados económicos e a viver longe da sua terra natal devido às dificuldades financeiras e à falta de oportunidades.

Entre os grupos representados encontram-se Black Eagle e Overload Skankaz. Os seus movimentos transportam a memória da terra, da comunidade e da cultura de origem.

O suor e a chuva tropical fundem-se nas imagens, apagando as fronteiras entre o mundo interior e o exterior. Nestes momentos, o corpo que dança transforma-se num abrigo, num arquivo de experiências e num recipiente para o futuro.

Cecilia Bengolea: biografia

Cecilia Bengolea é uma artista que desenvolve o seu trabalho entre a performance, o vídeo e a escultura, utilizando a dança como instrumento de empatia radical e de troca emocional.

A sua prática artística centra-se no corpo, tanto individual como coletivo, enquanto escultura viva e porosa, animada pela memória cultural, pela força espiritual e pelos elementos naturais. Para a artista, o movimento constitui uma linguagem de resiliência e transformação, desenvolvida através da colaboração e da troca.

“Os movimentos são factos. Fundamentalmente, o meu trabalho centra-se no corpo a inventar as suas próprias fontes, o seu próprio treino. Com que finalidade? Apagar completamente a violência da memória do corpo, do meu próprio corpo, mas também do corpo social que constituímos coletivamente. Os movimentos que crio têm um denominador comum: não existe ataque nem hierarquia entre os movimentos. É por isso que a dança é política”, afirma a artista.

Desde 2005, Cecilia Bengolea trabalha com artistas ligados ao dancehall, entre os quais Craig Black Eagle, Bombom Dancehall Queen e Damion BG. Desenvolveu igualmente trabalhos em colaboração com François Chaignaud para companhias internacionais como o Ballet de Lyon, o Ballet de Lorraine e o Pina Bausch Tanztheater Wuppertal.

A artista colaborou ainda com Dominique Gonzalez-Foerster e Jeremy Deller.

O seu trabalho foi apresentado em instituições e eventos internacionais como o Tank, na Tate Modern, a Bourse de Commerce, o Centre Pompidou, o Guggenheim Bilbao, o Noor Riyadh, o Desert X e o Art Basel Parcours, além das Bienais de Lyon, Gwangju e São Paulo.

Em 2023, Cecilia Bengolea lecionou no mestrado em Performance da Universidade de Arquitetura de Veneza.

Atualmente, vive e trabalha entre Buenos Aires e Paris, prosseguindo uma investigação artística centrada no corpo enquanto lugar de convergência de forças espirituais, políticas e ecológicas.

Exposição “Return to Bog Walk 2025-2026”

Artista: Cecilia Bengolea
Local: SOLAR – Galeria de Arte Cinemática
Data: 19 de setembro a 7 de novembro
Projeto: Return to Bog Walk 2025-2026

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Hugo Jesus

Co-criador e administrador do Central Comics desde 2001. É também legendador e paginador de banda desenhada, e ocasionalmente argumentista.

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