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Niu Lai: A vaca chegou, é péssima, mas está a pastar nos cinemas

Há filmes que chegam aos cinemas acompanhados de campanhas milionárias, estrelas internacionais, trailers vistos por milhões de pessoas e enormes operações de marketing. E depois há Niu Lai, literalmente The Cow Is Coming, uma animação chinesa sobre um vitelo, uma cotovia, amor, sacrifício e, aparentemente, uma carreira de sucesso construída sobre a convicção coletiva de que o filme é péssimo. O mais estranho é que está a resultar!

Niu Lai

Estreado na China a 5 de agosto, Niu Lai começou a carreira comercial praticamente sem ninguém dar por ele. Nos primeiros nove dias, terá arrecadado apenas cerca de 7 mil yuans, pouco mais de 900 euros, com alguns dias em que a receita não terá ultrapassado os 200 yuans, cerca de 25 euros. Não havia uma campanha promocional digna desse nome, digressão de imprensa ou sequer um trailer. Havia um vitelo. E pouco mais.

Realizado por Xin Yumeng e produzido pela Dalian Jingyuan Culture Film and Television Media, uma empresa que anteriormente se dedicava ao design e decoração de interiores, Niu Lai nasceu de um empenho familiar que se prolongou durante cinco anos. Xin Yumeng e a mãe, Sun Lifang, assumiram grande parte das funções, incluindo argumento, produção e vozes das personagens.

O filme só chegou às salas graças a um conhecido da família que trabalhava numa empresa de distribuição cinematográfica e ajudou a garantir a estreia comercial. A história ganha ainda mais graça porque o próprio distribuidor terá aconselhado a família a não lançar o filme depois de ver o resultado final. A família, aparentemente, preferiu não seguir o conselho. E, por uns tempos, parecia ter razão em não seguir… ou talvez estivesse apenas a preparar uma das campanhas de marketing involuntárias mais eficazes do ano.

Niu Lai
Os cartazes do filme foram desenhados pelos autores da obra

A animação foi rapidamente ridicularizada nas redes sociais chinesas devido à qualidade rudimentar dos desenhos, aos efeitos visuais, à animação pouco fluida, às interpretações vocais e a um argumento considerado particularmente abstrato.

A história acompanha uma vitela recém-nascida ao longo do crescimento e da descoberta de temas como o amor e o sacrifício. Tudo parece bastante inocente. O problema, segundo muitos espectadores, é que a produção não terá conseguido dar à pequena protagonista o mesmo tratamento visual que outras animações contemporâneas.

Os comentários negativos começaram a multiplicar-se. E Niu Lai tornou-se viral. Só que, num daqueles acidentes que fazem as delícias da internet, o meme começou a vender bilhetes.

Primeiro, espectadores foram ao cinema para descobrir “até que ponto o filme poderia ser mau”. Depois, alguns começaram a defender precisamente aquilo que inicialmente era apontado como o maior defeito da produção. A conversa cresceu, os vídeos espalharam-se pelas redes sociais e Niu Lai deixou de ser simplesmente uma animação desconhecida para se transformar numa experiência que era preciso ver para acreditar.

E o bezerro começou a andar.

Niu Lai

À medida que a procura aumentava, os cinemas começaram a acrescentar sessões. O filme passou de 6 salas de cinema para quase 12 mil ecrãs! A bilheteira disparou dos poucos milhares de yuans iniciais para 8,2 milhões de yuans, mais de um milhão de euros, tendo posteriormente ultrapassado os 17 milhões de yuans, cerca de 2,1 milhões de euros. E continua a somar!

Para uma produção realizada durante cinco anos por uma equipa essencialmente constituída por duas pessoas e com um orçamento estimado entre 20 mil e 30 mil yuans, cerca de 2.500 a 3.800 euros, o resultado é extraordinário. Quem sabe, o melhor resultado da história do cinema! Ou, numa linguagem menos cinematográfica e mais contabilística, o investimento parece ter sido completamente atropelado pela vitela.

O fenómeno tornou-se ainda mais curioso quando Niu Lai começou a aparecer nas tabelas das bilheteiras ao lado das grandes produções.
Uma das quais é A Odisseia, de Christopher Nolan, que chegou a 40 mil cinemas chineses a 14 de agosto, com uma campanha impressionante, um elenco de estrelas e um orçamento incomparavelmente superior.

Nas redes sociais chinesas começaram a surgir comentários sobre o improvável confronto entre as duas produções. De um lado, Nolan, Homero, Ulisses e uma das maiores superproduções cinematográficas do ano. Do outro, um vitelo animado por uma equipa familiar.

É difícil imaginar uma batalha mais improvável: Ulisses contra um bezerro.
Apesar da comparação caricatural, Niu Lai chegou a integrar o grupo dos dez filmes de animação com maior bilheteira na China em 2026, transformando uma produção que parecia destinada ao anonimato num dos fenómenos mais inesperados do ano.

Niu Lai

A ironia não termina na bilheteira. À medida que a brincadeira cresceu, alguns espectadores começaram a defender Niu Lai por razões que ultrapassam o simples prazer de assistir a uma produção involuntariamente cómica.

Num momento em que a inteligência artificial consegue produzir imagens, vídeos e animações cada vez mais sofisticados, parte do público passou a olhar para a estética rudimentar de Niu Lai como uma espécie de antídoto ao conteúdo excessivamente polido e produzido por algoritmos.
A animação artesanal, mesmo quando tecnicamente imperfeita, passou a ser encarada como prova de esforço humano. Cinco anos de trabalho de uma mãe e de um filho, sem uma grande equipa ou os recursos de um estúdio de animação, adquiriram um significado próprio.

Há, portanto, quem veja no pequeno vitelo uma espécie de símbolo involuntário da resistência ao excesso de perfeição digital. Outros, provavelmente, continuam simplesmente a querer descobrir quão má é afinal a animação. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

Niu Lai
As sessões tornaram-se eventos memoráveis

Como acontece com qualquer fenómeno inesperado, Niu Lai também já encontrou os seus críticos. O jornal estatal Beijing News alertou que os cinemas podem correr o risco de “perder a confiança” dos espectadores se continuarem a aumentar as sessões do filme, defendendo que as salas devem funcionar como uma espécie de filtro de qualidade e rejeitar produções consideradas manifestamente abaixo dos padrões.

A posição levanta uma questão interessante para o setor da exibição: deve um cinema decidir o que o público merece ver ou aquilo que o público quer efetivamente ver? No caso de Niu Lai, a resposta parece estar a ser dada diretamente nas bilheteiras. Os espectadores estão a comprar bilhetes. Os cinemas estão a acrescentar ecrãs e sessões. E quanto mais se fala da qualidade duvidosa do filme, mais pessoas parecem querer vê-lo. E as sessões tornaram-se em eventos de uma geração ansiosa por não ficar de fora das experiências virais. No fundo, Niu Lai descobriu uma das regras mais antigas do entretenimento: não é necessariamente importante que falem bem de um filme. É fundamental que falem dele.

Uma mãe, um filho, cinco anos de trabalho, um orçamento microscópico e um bezerro aparentemente pouco convincente foram suficientes para criar um fenómeno de bilheteira que ninguém tinha previsto.
Cuidado Tommy Wiseau, o Vitelo Chegou!

 

Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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