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Coyote vs. Acme: o filme que Hollywood quase apagou

Coyote vs. Acme chega finalmente aos cinemas portugueses a 27 de agosto, encerrando uma das histórias mais insólitas da história recente de Hollywood. Muito antes de chegar ao grande ecrã, o filme transformou-se num símbolo da defesa da criação artística, depois de ter sido concluído, cancelado por motivos financeiros, dado como perdido e, por fim, resgatado para uma estreia mundial em sala de cinema.

Coyote Vs. Acme

Inspirado num artigo satírico publicado na revista The New Yorker em 1990, Coyote vs. Acme parte de uma premissa há muito imaginada pelos fãs dos Looney Tunes. Depois de décadas a ser esmagado por pedregulhos, lançado de penhascos, explodido por dinamite e vítima dos sucessivos fracassos dos produtos da ACME, Wile E. Coyote decide processar a empresa responsável pelos seus constantes acidentes. Para isso, contrata o advogado Kevin Avery, interpretado por Will Forte, enfrentando em tribunal o poderoso advogado corporativo Buddy Crane, papel de John Cena, numa comédia que combina imagem real com animação tradicional.

Realizado por Dave Green, o filme conta com argumento de Samy Burch, nomeada ao Óscar por May December: Segredos de um Escândalo, em colaboração com Jeremy Slater e James Gunn, que também assume funções de produtor. Com um orçamento estimado em cerca de 70 milhões de dólares, a produção presta homenagem ao legado dos Looney Tunes, preservando a estética clássica da animação em vez de recorrer a uma reinvenção em imagem gerada por computador.

Coyote Vs. Acme

A estreia estava inicialmente marcada para 21 de julho de 2023, mas acabou adiada devido à reorganização do calendário de lançamentos da Warner Bros. motivada pela estreia de Barbie. Meses depois, em novembro de 2023, o estúdio tomou uma decisão que surpreendeu a indústria: cancelar definitivamente a estreia de Coyote vs. Acme e utilizar o filme para obter uma amortização fiscal estimada em cerca de 30 milhões de dólares. A medida seguia a mesma estratégia aplicada anteriormente a Batgirl e Scoob! Holiday Haunt, duas produções igualmente retiradas do calendário de estreias para efeitos contabilísticos.

A decisão provocou uma reação sem precedentes. Cineastas, argumentistas, atores, compositores e técnicos criticaram duramente a Warner Bros. Discovery por impedir que uma obra concluída chegasse ao público apenas por razões financeiras. O caso rapidamente ultrapassou os bastidores de Hollywood e transformou-se num dos episódios mais polémicos da indústria cinematográfica da última década, alimentando um debate internacional sobre o equilíbrio entre a rentabilidade dos grandes estúdios e a proteção da criação artística.

Coyote Vs. Acme

A controvérsia assumiu contornos ainda mais irónicos devido ao próprio enredo do filme. Em Coyote vs. Acme, Wile E. Coyote enfrenta judicialmente uma poderosa empresa pelos danos causados pelos seus produtos defeituosos. Para muitos profissionais da indústria, a história acabou por espelhar a realidade, ao colocar simbolicamente um pequeno protagonista contra uma grande corporação acusada de privilegiar decisões financeiras em detrimento da arte.

As críticas intensificaram-se porque Coyote vs. Acme não era um projeto problemático nem inacabado. Pelo contrário, encontrava-se totalmente concluído, com excelentes resultados nas sessões de teste. Diversos profissionais convidados para projeções privadas elogiaram o equilíbrio entre animação e imagem real, a qualidade da realização e o respeito pelo espírito clássico dos Looney Tunes, chegando alguns a compará-lo ao impacto de Quem Tramou Roger Rabbit?. Entre os admiradores estiveram Phil Lord e Christopher Miller, que destacaram publicamente a qualidade da produção.

Coyote Vs. Acme

Will Forte recordou mais tarde que, quando soube do cancelamento, ainda não tinha visto o filme e chegou a pensar que poderia não corresponder às excelentes avaliações que lhe tinham sido transmitidas. A opinião mudou completamente depois de assistir à versão final.

“O filme é maravilhoso. Fiquei profundamente orgulhoso dele. Foi desesperante perceber que uma obra tão especial podia nunca chegar ao público. Era um filme que queria partilhar com os meus filhos”, afirmou o ator à revista Entertainment Weekly.

Nos meses seguintes, Forte voltou a manifestar publicamente a sua indignação, defendendo que, independentemente do seu desempenho comercial, o filme merecia ser visto. O ator apelou para que o público não esquecesse o que tinha acontecido ao projeto, considerando incompreensível que um estúdio financiasse uma produção, mobilizasse centenas de profissionais durante anos e, no final, optasse por nunca a exibir.

A contestação foi tão expressiva que vários realizadores cancelaram reuniões previamente agendadas com a Warner Bros., enquanto representantes da indústria alertavam para o impacto destas decisões na confiança entre criadores e grandes estúdios. O debate chegou mesmo à esfera política, com o congressista norte-americano Joaquin Castro a questionar publicamente a utilização de filmes concluídos como instrumentos de benefícios fiscais e a defender uma análise às práticas adotadas pelos grandes estúdios.

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Perante a dimensão da polémica, a Warner Bros. acabou por recuar poucos dias depois do anúncio inicial e autorizou os produtores a procurar um novo distribuidor. Ainda assim, Coyote vs. Acme permaneceu mais de um ano num limbo, enquanto decorriam negociações para encontrar uma empresa disposta a apostar na sua estreia.

A solução chegou em março de 2025, quando a Ketchup Entertainment adquiriu os direitos mundiais de distribuição por um valor estimado em 50 milhões de dólares, garantindo finalmente a estreia do filme nas salas de cinema. Aquilo que parecia destinado a tornar-se um dos maiores exemplos de destruição de património cinematográfico converteu-se numa das mais improváveis histórias de sobrevivência de uma produção de Hollywood.

As imagens do primeiro trailer confirmaram o que muitos profissionais defendiam desde o início: Coyote vs. Acme não era uma tentativa de recuperar investimento nem um projeto inacabado. Pelo contrário, revelou uma produção visualmente cuidada, fiel à identidade dos Looney Tunes, preservando a animação tradicional e o humor característico das personagens. O próprio trailer inclui referências subtis ao conturbado percurso do filme, assumindo com humor a improvável viagem que o conduziu até à estreia.

Coyote Vs. Acme

Hoje, Coyote vs. Acme representa muito mais do que uma nova aventura protagonizada por Wile E. Coyote. Tornou-se um caso paradigmático sobre a forma como uma obra concluída pode ser salva graças à mobilização de artistas, produtores, distribuidores e espectadores.

A estreia nas salas de cinema assume, por isso, um significado que ultrapassa o próprio filme. Representa uma vitória da persistência sobre a lógica puramente financeira e recorda que o cinema continua a ser uma expressão artística construída pelo trabalho de centenas de profissionais. Cada bilhete vendido constitui também um apoio à preservação dessa criação coletiva, reafirmando que os filmes existem para ser vistos e partilhados com o público, e não para permanecerem esquecidos em arquivos ou reduzidos a decisões contabilísticas.
Para ver Cinema, vá ao Cinema!



Coyote vs. Acme chega aos cinemas portugueses com versão legendada em português e versão dobrada em língua portuguesa.

Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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