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GTA VI, uma caixa de plástico vazia e esta geração acha normal?

Há uns anos, se alguém dissesse que um dia iríamos pagar 80 euros por uma caixa de plástico sem discos lá dentro, provavelmente seria internado. Em 2026, chamamos-lhe a isto “edição física”.

É exatamente isso que está a acontecer com GTA VI. Aquele que promete ser o maior lançamento dos videojogos dos últimos tempos, pode ficar para a história como o jogo que matou definitivamente o significado da expressão “formato físico”. Quem comprar a edição física não leva para casa o jogo. Leva uma caixa com uma capa bonita para colocar na prateleira e um código para descarregar exatamente os mesmos ficheiros que qualquer pessoa compra na PlayStation Store ou na Xbox Store. O disco desapareceu. Ficou apenas o teatrinho de fingirmos que ainda existe um formato físico.

GTA VI
GTA VI

Enquanto muitos ainda discutiam se isto era um exagero ou apenas uma experiência isolada da Rockstar Games, a Sony decidiu acabar com qualquer dúvida sobre o rumo da indústria.

Num comunicado oficial, a empresa anunciou a 1 de Julho de 2026 que a produção de discos físicos para novos jogos PlayStation terminará em janeiro de 2028. A partir dessa data, todos os novos lançamentos serão vendidos apenas em formato digital, tanto na PlayStation Store como nas lojas. A Sony justifica a decisão afirmando que está simplesmente a acompanhar a preferência dos consumidores e que o digital já ultrapassou significativamente o formato físico, considerando esta mudança “uma evolução natural”. Em bom português, a empresa acredita que já não existem jogadores suficientes interessados em discos para justificar continuar a produzi-los.

A questão é que uma tendência de mercado não significa necessariamente uma melhoria para o consumidor. E o mais curioso é que muita gente parece não ver qualquer problema nisso. Afinal, “o importante é jogar”. É uma resposta perfeitamente válida… até ao dia em que deixa de conseguir fazê-lo.

A ironia é que esta discussão rebentou precisamente na mesma altura em que a Sony anunciou que vai remover centenas de filmes e séries da StudioCanal das bibliotecas digitais dos utilizadores da PlayStation em vários países europeus. Estamos a falar de conteúdos que as pessoas compraram. Sim, compraram. Não alugaram. Não subscreveram. Compraram!

O Game Informer escreveu que a mensagem enviada pela empresa aos utilizadores explicava que, devido ao fim dos acordos de licenciamento com a StudioCanal, os clientes deixariam de poder aceder aos filmes e séries anteriormente comprados, sendo estes removidos das respetivas bibliotecas digitais.

Leiam outra vez -> Conteúdos anteriormente comprados.

E depois tentem convencer alguém de que o digital significa propriedade. A verdade é que nunca significou.

Durante anos venderam-nos a ideia de que estávamos a comprar jogos digitais, filmes digitais ou séries digitais. Mas o que realmente estamos a comprar é uma licença de utilização. Enquanto essa licença existir, temos acesso. Quando deixar de existir, adeus. O dinheiro já lá ficou. O produto é que não.

É precisamente por isso que a polémica em torno de GTA VI é muito maior do que parece à primeira vista. Não estamos apenas a discutir se um jogo vem com disco ou sem disco. Estamos a discutir o desaparecimento gradual do conceito de propriedade.

E, curiosamente, quem parece mais preocupado não são os jogadores mais novos. São aqueles que cresceram a comprar cartuchos, CDs e DVDs, que ainda têm estantes cheias de jogos e que sabem que podem pegar numa consola com vinte anos, colocar um disco e jogar.

Os mais novos cresceram numa realidade completamente diferente. Para muitos deles, gastar 100 euros num jogo que existe apenas numa conta online parece perfeitamente normal. Quando chegar a PlayStation 6 ou à PlayStation 7, provavelmente voltam a comprá-lo. Se um dia a licença desaparecer ou os servidores fecharem, encolhem os ombros e seguem para o próximo lançamento.

Mas será que isto é normal? Ou será que fomos lentamente convencidos de que é aceitável pagar cada vez mais por um produto que nos dá cada vez menos direitos?

Entretanto, algumas lojas decidiram que havia um limite. A Video Games Plus, uma das mais conhecidas lojas canadianas dedicadas ao formato físico, anunciou que não vai aceitar pré reservas de GTA VI nesta versão. O GamesRadar+ revelou que a empresa considera que vender uma caixa sem disco não faz sentido e citou a posição da loja: se um produto não respeita as pessoas que trabalham para o comprar, eles também não têm interesse em vendê-lo aos seus clientes. E o mesmo acontece em Portugal como por exemplo pela Press Start que decidiu boicotar o lançamento do GTA VI por não se rever na estratégia adotada para a comercialização do jogo, como anunciou num comunicado.

É difícil não concordar porque aquilo que as editoras continuam a chamar “formato físico” já pouco ou nada tem de físico. Na prática, é apenas um código vendido dentro de uma embalagem.

E claro que isto não acontece por acaso, porque sem discos desaparece o mercado de segunda mão. Sem do dinheiro. Sem discos deixa de existir concorrência entre lojas. Sem discos desaparece uma parte importante da preservação dos videojogos.

E, acima de tudo, sem discos todo o controlo passa para as mãos dos fabricantes. Um modelo perfeito… para eles.

A situação tornou-se tão caricata que até começou a circular nas redes sociais uma imagem falsa atribuída a Donald Trump, onde o presidente dos EUA afirma que falou com Sam Houser, fundador da Rockstar Games, elogia GTA VI, anuncia um desconto exclusivo através do código “GTA6MAGA” e termina com um enorme “MAKE AMERICA GREAT AGAIN!”.

GTA VI Donald Trump

Mas também é um daqueles casos em que a realidade já anda tão perto da sátira que muita gente acreditou durante alguns segundos.No fundo, talvez a verdadeira piada nem seja essa.

A verdadeira piada é estarmos todos a discutir uma caixa de plástico que não contém um jogo… ao mesmo tempo que a própria Sony anuncia oficialmente o fim da produção de discos para novos jogos a partir de 2028 e remove todos os filmes e séries da StudioCanal das bibliotecas digitais

Se isto não é o fim do formato físico, anda muito perto. O formato físico não é apenas nostalgia. É preservação. É saber que, enquanto aquele disco existir e a consola o conseguir ler, ninguém pode carregar num botão e fazê-lo desaparecer da nossa coleção.

Porque, no final de contas, a questão já nem é GTA VI. Nem sequer é a Sony. É perceber se queremos continuar a aceitar um futuro onde gastar quase 100 euros já não significa comprar alguma coisa mas sim pagar pela autorização de a utilizar… até alguém decidir que a autorização expirou.

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Hugo Jesus

Co-criador e administrador do Central Comics desde 2001. É também legendador e paginador de banda desenhada, e ocasionalmente argumentista.

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