Obsession (2026) – O desejo masculino e (não) a vontade feminina
Em Obsession, Curry Barker parte de uma lógica reconhecível, próxima da velha tradição em que um desejo aparentemente inócuo se torna numa condenação. A origem da ideia, inspirada por um episódio especial de terror de The Simpsons a que assistiu, até reforça essa dimensão quase lúdica. No entanto, o filme rapidamente abandona qualquer leveza conceptual e encontra o seu mérito num lugar mais concreto, ligado à forma como o desejo masculino pode converter a presença feminina num objeto moldado à medida do desajuste.
Apesar da tentação, convém ter cuidado com a leitura de Bear enquanto figura incel, já que o realizador nunca o formula nesses termos, nem parece interessado em transformar o protagonista num emblema sociológico estanque. Bear não surge como um extremista isolado, nem como alguém incapaz de funcionar socialmente. Pelo contrário, a sua aproximação é apenas análoga, e isso torna-o muito mais inquietante, porque se encontra integrado, sabe desempenhar uma certa normalidade e até parece inofensivo durante tempo suficiente. A verdade é que a sua falha pouco tem que ver com desejar que Nikki o ame de forma desmedida ou com não saber lidar com a rejeição, quando comparada com a sua inércia perante uma realidade onde a vontade dela deixa de importar, desde que esse cenário o poupe à frustração de não ficarem juntos.

A Nikki transformada, por sua vez, essa versão alterada e quase deslocada do corpo original, não funciona apenas como ameaça física. A sua imagem corresponde à de uma pessoa arrancada à sua própria individualidade, o que, graças também ao excelente trabalho de maquilhagem, assente sobretudo no jogo com a luz e a sombra, a aproxima de uma zona uncanny valley particularmente eficaz. Há algo de errado no rosto, no olhar fixo, na forma como o corpo parece obedecer a impulsos que já não pertencem inteiramente à Nikki que conhecemos no início. O medo nasce dessa inadequação constante, dessa sensação de que o que a torna humana está presente e ausente ao mesmo tempo. Inde Navarrette é fundamental para que esse estranhamento não se reduza a uma amostra decorativa. Os gritos, os movimentos bruscos, a rigidez quase coreográfica e os desvios súbitos de expressão ocorrem, porém como complementos de uma presença que, além de grotesca, consegue afigurar-se triste, dado que, mesmo quando Nikki se torna assustadora, o filme não nos deixa esquecer da violência aplicada sobre a própria.

Barker, vindo de um percurso pouco ortodoxo enquanto comediante de sketches no YouTube, e hoje integrado numa nova geração de criativos formados na internet que se têm estreado no cinema com uma desenvoltura surpreendente, pode ter improvisado bastante durante a produção, filmada em pouco tempo, mas as suas decisões revelam uma intuição formal rara. A fisicalidade de Nikki, a gestão da casa como espaço de intimidade e clausura, a progressiva cobardia moral de Bear e a violência que irrompe quando já não há escapatória tornam Obsession mais incisivo do que a sua aparência inicial sugere. O filme pode ter arestas, algumas até visíveis, mas sabe exatamente onde quer ferir o espectador.
Classificação: 9/10

Fascinado por cinema desde cedo, começou pelas cassetes VHS de casa da avó e acabou a colecionar figuras de clássicos dos anos 80. Hoje, vê cada filme com a mesma curiosidade de então.

