“Artur e os Minimeus”: O tamanho do mundo
Outro dia fiquei a pensar numa injustiça que a vida faz com a gente. Quando somos pequenos, o mundo é enorme. Quando crescemos, ele encolhe. Não deveria ser o contrário? Afinal, passamos anos a acumular experiências, a conhecer pessoas, a viajar, a ler livros, a aprender coisas novas. Pela lógica, o mundo deveria ficar cada vez maior. Mas não. O que acontece é exactamente o oposto.
Uma criança olha para um quintal e vê um continente inteiro. Um adulto olha para o mesmo quintal e vê mato para cortar, muro para pintar e impostos para pagar. A criança vê possibilidades. O adulto vê manutenção. A criança imagina aventuras. O adulto faz contas. Talvez o problema da vida adulta seja esse: deixamos de olhar para os lugares e passamos apenas a administrá-los.
Foi por isso que sempre gostei de “Artur e os Minimeus”. Vi o filme pela primeira vez quando tinha dez anos e, na época, aquilo pareceu-me apenas uma grande aventura. A história é simples: um rapaz descobre uma civilização minúscula escondida no jardim dos avós. Há reis, guerreiros, perigos, segredos e todo um universo que existe sem que os adultos façam a menor ideia. Só mais tarde percebi que a fantasia estava menos nos seres minúsculos e mais na ideia de que os adultos sabem tudo o que existe à sua volta.
Lembrei-me imediatamente da minha infância. Cresci num sítio e talvez por isso tenha alguma dificuldade em acreditar quando dizem que as crianças de hoje vivem fechadas em mundos imaginários. O meu mundo imaginário estava todo do lado de fora. Bastava atravessar o terreiro. Havia árvores para subir, córregos para seguir, capinzais que pareciam florestas e trilhos que eu percorria como se estivesse a desbravar continentes. Quase nada daquilo era realmente grande. Mas, visto da altura de um miúdo, tudo parecia imenso. A verdade é que a infância tem esse poder: pega num pedaço comum de terra e transforma-o num mapa cheio de territórios por descobrir.
O curioso é que os adultos passavam por ali sem notar nada disso. O meu pai via um terreno. O vizinho via um terreno. O dono via um terreno. Eu via um mundo. E nunca consegui decidir quem estava mais perto da verdade.
O filme de Luc Besson gira justamente em torno dessa diferença de olhar. Os adultos estão preocupados com dívidas, documentos, hipotecas e ameaças de perda da propriedade. O jardim possui um valor financeiro. Pode ser vendido, dividido, negociado. É um bem. Arthur, por sua vez, não vê um bem. Vê um mistério. Enquanto os adultos tentam salvar o terreno, ele descobre aquilo que realmente o torna valioso.
Talvez seja essa a grande ironia da história. Os adultos lutam para preservar o jardim sem saber o que existe nele. É como alguém que herda uma biblioteca extraordinária e passa a vida inteira preocupado apenas com o preço das estantes.
À medida que envelhecemos, desenvolvemos uma relação estranha com o mundo. Aprendemos os nomes das coisas e passamos a acreditar que conhecê-las é o mesmo que compreendê-las. Dizemos “árvore”, “rio”, “jardim” ou “céu”, e a palavra parece encerrar o assunto. A infância funciona de outra maneira. Uma criança não olha para uma árvore como quem identifica um objecto. Olha para ela como quem encontra uma pergunta.
Talvez seja por isso que os mais novos façam tantas perguntas que deixam os adultos sem paciência. Querem saber porquê. Depois querem saber porquê outra vez. E mais uma vez. Nós respondemos às duas primeiras perguntas. Na terceira já começamos a inventar qualquer coisa só para mudar de assunto. Mas o impulso deles é legítimo. Estão a tentar descobrir o mundo. Nós estamos apenas a tentar chegar a horas ao próximo compromisso.
Vivemos também numa época curiosa. Nunca soubemos tanto sobre o planeta. Temos mapas detalhados, imagens de satélite, fotografias de quase todos os cantos do mundo e acesso imediato a uma quantidade absurda de informação. Em teoria, deveríamos sentir-nos mais próximos da maravilha. No entanto, às vezes acontece o contrário. Quanto mais explicamos tudo, menos espaço parece restar para o espanto.
É por isso que gosto da ideia central de “Artur e os Minimeus”. O desconhecido não está numa galáxia distante nem numa dimensão paralela. Está debaixo dos nossos pés. O extraordinário não exige uma viagem impossível. Exige apenas uma forma diferente de olhar para aquilo que julgávamos conhecer.
No final do filme, o jardim continua aparentemente igual. Quem passar por lá verá apenas árvores, relva e terra. Nada denuncia as aventuras que aconteceram naquele lugar. Mas, para Arthur, tudo mudou. O espaço ganhou profundidade. Aquilo que parecia comum tornou-se inesgotável.
Suspeito que essa seja uma das funções secretas das boas histórias. Não nos mostram mundos novos. Devolvem-nos o mundo antigo. Fazem-nos olhar novamente para aquilo que estava diante dos nossos olhos e que já não víamos.
A idade adulta convenceu-nos de que amadurecer significa abandonar os mundos invisíveis. Não tenho tanta certeza. Talvez amadurecer seja apenas aprender que eles continuam a existir, mas em lugares diferentes. Já não estão escondidos debaixo de uma árvore ou atrás de um muro. Estão nas memórias, nas pessoas, nas cidades que julgamos conhecer e até nos dias aparentemente comuns.
O problema não é a falta de maravilhas. O problema é que nos habituámos demasiado depressa a elas. E quando o hábito se instala, o mundo começa a encolher. Não porque tenha ficado menor, mas porque deixámos de reparar no seu verdadeiro tamanho.
O filme encontra-se disponível, de forma gratuita, no YouTube.

Brasileiro, Tenório é jornalista, assessor de imprensa, correspondente freelancer, professor, poeta e ativista político. Nomeado seis vezes ao prémio Ibest e ao prémio Gandhi de Comunicação, iniciou sua carreira no jornalismo ainda durante a graduação em Geografia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), escrevendo colunas sobre cinema para sites, jornais, revistas e portais do Nordeste e Sudeste do Brasil.


