Jogos: I Hate This Place – Análise
I Hate This Place mistura survival horror com uma loucura digna de banda desenhada, resultando numa experiência tensa que é tão cativante quanto frustrante.
Jogo: I Hate This Place
Disponível para: PC, Nintendo Switch, PlayStation 5, Xbox Series
Versão testada: PlayStation 5
Desenvolvedora: Rock Square Thunder
Editora: Feardemic

Há um tipo especial de confiança em dar a um jogo o nome I Hate This Place. É uma provocação, um estado de espírito e, após algumas horas a vaguear pelo Rancho Rutherford durante a noite, uma descrição bastante fiel de como te vais sentir. Adaptado da banda desenhada nomeada para os Eisner, da autoria de Kyle Starks e Artyom Topilin, o jogo não se limita a apropriar-se da estética do material original, absorve a sua hostilidade, estranheza e humor negro.
A história acompanha Elena no seu regresso à casa de infância, onde procura investigar o desaparecimento da amiga Lou e desvendar o mistério, há muito envolto em sombras, do rapto da sua mãe. Os fãs da BD reconhecerão o mundo, mas aqui temos um novo fio narrativo, ancorado pela ameaça constante do Homem dos Chifres. Deus, demónio, patrono, os rótulos pouco importam quando a sua influência se infiltra em actividades de culto, experiências governamentais mal-sucedidas e num ecossistema sobrenatural que parece agressivamente errado.
A jogabilidade assenta num ciclo clássico de sobrevivência com um toque moderno. O Rancho Rutherford funciona como hub, permitindo criar ligaduras, comida e equipamento enquanto se fortifica lentamente a posição do jogador. O verdadeiro chefe aqui é o ciclo dia-noite. O dia serve para vasculhar, a noite para lamentar todas as decisões tomadas antes do pôr do sol. A gestão da fome liga-se directamente à resistência, e o mecanismo de redução permanente é um toque inteligente e punitivo, pelo menos nas fases iniciais.
O furtivismo é onde I Hate This Place realmente se distingue. Muitos inimigos caçam pelo som, e o sistema de onomatopeias ao estilo de banda desenhada visualiza cada passo em falso. Um “THUD” vermelho ao correr por um chão coberto de vidro partido é praticamente uma sentença de morte. É elegante, legível e tematicamente perfeito. Infelizmente, o combate nem sempre acompanha essa qualidade. A pontaria parece imprecisa, sobretudo contra inimigos pequenos como aranhas, e a perspectiva isométrica pode trair a precisão nos piores momentos.
Visualmente, o jogo é marcante. O visual cell-shaded, inspirado no horror pulp dos anos 80, destaca-se, especialmente quando combinado com iluminação dinâmica e a lanterna espectral a rasgar a escuridão da floresta. O design sonoro também faz grande parte do trabalho, paisagens sonoras ambientais densas contrastam bem com uma dobragem assumidamente exagerada. Menos conseguidas são as cutscenes, onde modelos de personagens rígidos e balões de diálogo confusos prejudicam a apresentação.
A exploração é aberta, por vezes refrescante, por vezes exasperante. O mapa carece de clareza, os puzzles podem ser obscuros e problemas técnicos, desde soft-locks a scripts quebrados, vão corroendo a imersão. Pior ainda, com o tempo, os sistemas de crafting acabam por colapsar toda a tensão, oferecendo aos jogadores recursos quase infinitos num género que vive da escassez.
Ainda assim, quando funciona, I Hate This Place esforça-se por funcionar bem. As suas vinhetas fantasmagóricas, a densidade do lore e o compromisso com o tom tornam-no memorável, mesmo quando tropeça.
Nota: 6/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.




