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Videolização: O “cinema” do futuro?

Conclui-se a série de crónicas sobre a banalização do cinema na era do excesso: “A Videolização”. Chega ao fim a abordagem crítica sobre a evolução cinematográfica — onde o cinema deixou de ser o centro da experiência e passou a ser apenas mais um produto audiovisual.

Capítulos disponíveis:
I. Do Ecrã à Sala de Estar: A Génese da “Videolização”
II. Mostras, Sessões e Festivais: Cinema ou Projeção de Boa Vontade?
III. Streaming: O Cinema Que Se Perde no Comando
IV. A Sala Resiste: O Cinema Como Último Reduto


Entre o Espelho e o Abismo

Ted Sarandos, co-CEO da Netflix, tem sido uma das vozes mais claras a defender a integração da inteligência artificial no processo criativo audiovisual — e essa visão encaixa diretamente na lógica da videolização. Para Sarandos, a IA não é apenas uma ferramenta para cortar custos ou acelerar processos, mas uma oportunidade estratégica para alargar as possibilidades criativas.

O raciocínio é coerente com o modelo Netflix: a plataforma vive da produção massiva e contínua de novos títulos, que são oferecidos aos utilizadores de forma personalizada e algorítmica. Nesse contexto, a IA permite afinar ainda mais essa máquina de conteúdos, desde a pré-produção (através de previsualização e planeamento de cenas) até aos efeitos visuais mais sofisticados, realizados em menos tempo e com menos recursos.

Quando Sarandos afirma que “a inteligência artificial representa uma oportunidade incrível para ajudar os criadores a fazer filmes e séries melhores, não apenas mais baratos” ele articula essa visão do streaming como um fluxo interminável e maleável, onde a criatividade é entendida sobretudo como eficiência e escala. Não se trata, necessariamente, de criar cinema para salas ou de produzir obras singulares que marquem época, mas sim de alimentar o catálogo global com o máximo de variedade, otimizando o tempo de produção e adaptando-se aos perfis de consumo de cada utilizador.

Na prática, esta abordagem de Sarandos reforça a transformação do cinema em “conteúdo”, com a IA a funcionar como motor dessa metamorfose: trailers dinâmicos, montagens ajustadas, efeitos visuais em tempo recorde, e uma linha de montagem criativa que privilegia a quantidade, a adaptabilidade e a personalização.

Num mundo moldado por esta lógica, a sala de cinema perde relevância porque a experiência deixa de ser pensada para uma audiência colectiva. A prioridade é entregar ao espectador individual aquilo que ele quer ver, no momento mais conveniente, no ecrã que tiver à mão — um processo onde a IA é não só ferramenta, mas também curadora e coautora invisível.

Sarandos não fala de nostalgia nem de resistência cultural. Fala de inevitabilidade. E é precisamente aí que a tensão entre cinema e videolização se agudiza: entre a experiência partilhada, limitada e focada da sala, e a experiência ilimitada, dispersa e algorítmica das plataformas.



AI

A próxima etapa de evolução é a personalização narrativa. O nostálgico “Agora Escolha” dará lugar a filmes com finais alternativos adaptados ao humor do dia do espectador. Personagens com aparência, género ou etnia alterável. Enredos ajustáveis à preferência de quem assiste. Um cinema que se molda como plástico, sem forma fixa, sem identidade autoral. E logo adiante, talvez mais cedo do que julgamos, surge o cinema inteiramente gerado: actores digitais fotorrealistas, cenários sintéticos, diálogos dinâmicos, histórias desenvolvidas em tempo real. Um “filme” sem rodagem. Sem equipa técnica. Sem câmara. Sem realizador. Sem visão. Inspirado no passado, ajustado à actualidade.

Será isso cinema? Ou apenas um espelho? Um reflexo reconfortante que nos devolve a imagem que queremos ver, sem fricção, sem surpresa, sem conflito. Um produto que confirma o espectador, em vez de o desafiar. Um artefacto que satisfaz, mas não provoca.

O risco é claro: que se perca o cinema como obra colectiva, como experiência estética e ética, como espaço de confronto com o outro. A arte nasce da diferença. E o cinema, quando é grande, mostra-nos o mundo através de um olhar alheio — e, com isso, ensina-nos a ver de novo. A hiperpersonalização permitida pela inteligência artificial elimina essas diferenças. Transforma o espanto em previsibilidade. E um filme que nunca verdadeiramente nos surpreende, que só nos conforta, deixa de ser cinema. Passa a ser produto. Formato. Passatempo. Apenas mais um conteúdo.

É aqui que a resistência se torna essencial. O cinema precisa de continuar a ser feito por quem olha o mundo com olhos próprios. Precisa de realizadores, de técnicos, de intérpretes, de editores, de criadores. Precisa de visão — e de risco. Porque o espectador não é um consumidor passivo: é alguém que entra numa sala escura para ser surpreendido, comovido, interpelado.

Num tempo em que os estúdios se rendem ao conforto das franquias e à previsibilidade dos algoritmos, há uma urgência em preservar e defender o cinema original — aquele que parte de uma ideia nova, de um olhar singular, de uma voz autoral. A inteligência artificial promete narrativas moldadas ao gosto do público, ajustadas ao perfil, calibradas ao detalhe. Nesse cenário, a criação humana corre o risco de ser substituída pela simulação eficaz.
Mas há sinais de esperança: sucessos inesperados de bilheteira com títulos originais mostram que o espectador ainda tem sede de surpresa, de invenção, de histórias que não seguem fórmulas. A originalidade não morreu. Mas precisa de ser escolhida, protegida, cultivada. Porque sem risco, não há descoberta. E o futuro do cinema não pode depender apenas da nostalgia reciclada ou da eficiência sintética. Tem de continuar a nascer do espanto.

A videolização é uma ameaça real. Mas é também um desafio. Um apelo à defesa do cinema como arte viva e humana. Cabe-nos escolher: queremos mais conteúdos? Ou queremos mais cinema?

Próxima abordagem: Cinemorfose.
O cinema já não é apenas o que se vê no grande ecrã. É também o que se perdeu, o que se recorda, o que se reinventa. A Cinemorfose mergulha na metamorfose da experiência cinematográfica — desde as antigas salas de espectáculo até à formação de novos públicos.

UCI Cinemas


Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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