Sangue & Mármore: noir à moda de Gaia
Há crimes que cheiram a pólvora. Este cheira a verniz.
Está disponível na RTP Play, Sangue & Mármore, a telenovela musical noir de David Bruno que transforma Avintes numa Los Angeles com sotaque nortenho e o Zoo de Santo Inácio numa cena de crime digna de Chandler, mas com café cheio e tremoços ao balcão.
A vítima é Mário Sequeira (Rui Reininho), empresário de sucesso na área dos acabamentos, homem de mármore polido e negócios pouco transparentes. É encontrado morto junto ao zoo, no ano de 2001. O ano em que o Porto foi Capital Europeia da Cultura, o Boavista foi campeão e o país ainda não sabia o que era Instagram, mas já sabia o que era tragédia.
No corpo, duas pistas: uma unha vermelha de gel e a fotografia de uma mulher misteriosa. Não é CSI Miami, é Gaia. E entra em cena Guedes, detective privado, contratado para descobrir quem matou Sequeira, onde anda Crespo – antigo Dragão Sandinense transformado em mercenário à portuguesa – e, mais importante do que tudo, onde está a fortuna escondida em sacos de plástico do supermercado.

Inspirada no álbum homónimo lançado por David Bruno em 2022, a série adapta a audionovela original em cinco episódios de cerca de 10 a 15 minutos, realizados por Francisco Lobo e produzidos pela Anexo 82 e RTP Lab.
David Bruno assume a narração, através da persona de François da Costa, uma espécie de Olivier Bonamici de serviço público, com carga dramática suficiente para transformar uma ida ao Gaiashopping num momento existencial. O tom é assumidamente noir, mas com a “tosquice” certa: fatalismo, desejo, traição e (inevitávelmente) referências geográficas minuciosas ao concelho de Vila Nova de Gaia, da sua zona interior à linha de praias.

(Atenção: seguem-se spoilers sobre o desfecho.)
Como num spaghetti western transplantado para a Marginal de Ofir, a história termina com um ajuste de contas sangrento. Sandra Isabel, a femme fatale, envolve-se com Sequeira e manipula Guedes para chegar à fortuna. Crespo é o braço armado do esquema, contratado para eliminar o empresário. Mas os planos descarrilam.
Guedes descobre a verdade, executa Crespo com um tiro na nuca, mas acaba morto pela jibóia do próprio mercenário (sim, leu bem). No final, sobra apenas Sandra Isabel, que troca cadáveres por um apartamento caro na linha de Ofir. Moral da história: no noir, o amor mata, mas o imobiliário compensa.
Rui Reininho encarna Sequeira, figura dúbia, “não é flor que se cheire”, como descreve David Bruno, mas também não é o verdadeiro cancro. “Se fosse o mau, não morria”, atira o autor, entre risos.
O líder dos GNR, com formação em cinema e gosto declarado por papéis de vilão, surge aqui num registo simultaneamente solene e irónico. Ao seu lado estão Bárbara Magal, João Delgado Lourenço, Jorge Paupério e o próprio David Bruno.
A banda sonora mantém a essência do disco original: temas associados a cada personagem, cruzando portugalidade, melodrama e memória coletiva. É um universo que vem sendo construído desde Último Tango em Mafamude, passando pelo Conjunto Corona, e que aqui atinge uma maturidade invulgar — como um bom Porto envelhecido nas caves de Gaia, com rótulo já colado e sem necessidade de classificação por estrelas.
Sangue & Mármore assume-se como um mosaico de histórias reais — um conjunto de episódios ouvidos no café, em almoços de família ou nos corredores de tribunais. Há dinheiro escondido em sacos do supermercado, ladrões que exigem sinal “como num stand de automóveis” e mulheres que processam cúmplices por incumprimento criminal.
O noir encontra a portugalidade; o abstrato cruza-se com o corriqueiro; a arte instala-se à porta do Zoo de Santo Inácio. Tudo acontece cara a cara, sem redes sociais, sem filtros; apenas com olhares demorados, contratos verbais e segredos mal guardados.
Mais do que uma simples adaptação, Sangue & Mármore é um exercício de estilo raro no panorama audiovisual português: uma telenovela musical que celebra a tradição das radionovelas, reinventa o disco conceptual e transforma Avintes no centro dramático do país.
No fim, fica a sensação de que o crime compensa, pelo menos em termos artísticos. E que, se escutarmos com atenção, talvez haja sempre uma unha vermelha caída algures no passeio à espera de ser interpretada.
Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

