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Para compreender a “falácia” do 4K

Durante décadas venderam-nos a ideia de que um número maior significa automaticamente melhor qualidade. Foi assim com o VHS, o DVD, o Blu-ray e agora com o 4K. Mas no cinema a questão é mais delicada. 4K não é sinónimo de melhor experiência. É, antes de mais, mais informação. E mais informação nem sempre significa mais verdade artística.

netflix

Nos últimos anos, vários restauros em 4K foram alvo de críticas intensas por parte de cinéfilos e profissionais da área. Filmes como O Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento, Aliens: O Recontro Final e A Verdade da Mentira geraram polémica porque muitos espectadores sentiram que as novas versões digitais alteravam profundamente a textura original das obras.

O que está realmente em causa?

4K refere-se à resolução da imagem. Em termos simples, uma imagem 4K tem cerca de 8 milhões de píxeis; um Blu-ray em 1080p tem aproximadamente 2 milhões. À partida, isso significa mais detalhe e mais definição. Mas o formato UHD 4K envolve mais do que resolução: inclui HDR, que aumenta a gama dinâmica entre sombras e altas luzes, e Wide Color Gamut, que expande o espectro de cores face ao antigo padrão Rec.709 usado no HD.

8K resolução
Comparativo de resolução

O problema surge quando estas ferramentas são aplicadas sem sensibilidade histórica ou estética.

Grande parte dos filmes clássicos foi rodada em película de 35mm ou 16mm. A película tem grão. Esse grão não é defeito, é parte da imagem — funciona quase como a textura de uma tela num quadro. Quando um restauro aplica redução digital de ruído (DNR) de forma agressiva, remove não só pó ou riscos, mas também o próprio grão. O resultado pode ser uma imagem excessivamente lisa, com rostos que parecem feitos de cera. A crítica dirigida à versão 4K de Aliens: O Recontro Final centrou-se precisamente nisso: a perda da textura cinematográfica que definia o ambiente sombrio do filme.

Paradoxalmente, no streaming o grão também é um problema técnico. Por ser informação aleatória, dificulta a compressão digital e exige mais dados. Plataformas como a Netflix tendem a suavizar a imagem para facilitar a transmissão. Em alguns casos, removem grão e depois reintroduzem uma simulação artificial. É um compromisso entre fidelidade e largura de banda.

Comparação entre as versões de “A Verdade da Mentira”

Importa desfazer um equívoco: os filmes clássicos não foram feitos “para baixa definição”. Pelo contrário. Maquilhagem, cenários pintados, efeitos ópticos e duplos eram preparados com enorme rigor porque seriam projetados em ecrãs gigantes, muitas vezes a partir de negativos de altíssima qualidade.

Quando as grandes salas exibiam cópias em 70mm de obras como Ben-Hur, Lawrence da Arábia, Cleópatra, A Música no Coração, A Guerra das Estrelas, 2001: Odisseia no Espaço ou Top Gun – Ases Indomáveis, a imagem era monumental, nítida e profundamente imersiva. O 70mm, surgido nos anos 50 como resposta à ameaça da televisão, utilizava um negativo muito maior do que o 35mm tradicional, permitindo muito mais informação visual e som multicanal magnético décadas antes do surround digital moderno. Ver um filme em 70mm era um acontecimento sensorial.

Assim, os problemas que hoje surgem em alguns restauros 4K não decorrem de limitações técnicas da época, mas do processo de transposição para o digital. Uma digitalização mal calibrada, uma redução excessiva de grão ou uma gradação de cor revisionista podem alterar a perceção original mais do que qualquer limitação histórica.

Top Gun: Ases Indomáveis
Top Gun: Ases Indomáveis

Ao digitalizar um negativo em 4K ou 8K, podem ainda surgir detalhes que nunca foram supostos ser visíveis: linhas de próteses, costuras do guarda-roupa, limites de cenários ou de efeitos visuais. A ilusão quebra-se. Algo que antes parecia fantástico passa a parecer teatral. Um fenómeno semelhante ocorreu com O Hobbit: Uma Viagem Inesperada, exibido a 48 fotogramas por segundo: a fluidez extrema foi tecnicamente superior, mas muitos espectadores sentiram que a sensação cinematográfica se diluía.

Outro ponto crítico é a origem do master. Nos anos 90 e 2000, muitos filmes foram finalizados com Digital Intermediate a 2K. Mesmo filmados em película, todos os efeitos visuais e a correção de cor foram feitos nesse limite. Quando editados em 4K, muitas vezes são ampliados a partir desse master 2K. A resolução extra vem de algoritmos, não da origem. A vantagem está sobretudo na menor compressão e maior profundidade de cor do disco UHD.

Blade Runner – Perigo Iminente

Já no caso de filmes anteriores à era digital, o negativo pode conter informação equivalente ou superior a 4K. Exemplos frequentemente elogiados incluem Blade Runner – Perigo Iminente e Seven – Pecados Mortais, cujos restauros preservaram grão, atmosfera e intenção visual.

O HDR levanta outra questão. A película tem cerca de 13 stops de gama dinâmica; câmaras digitais modernas podem atingir 14 ou 15. Ao aplicar HDR a um clássico, o colorista pode expandir contrastes e brilho para tirar partido dos televisores atuais. Mas isso é uma interpretação contemporânea — não necessariamente aquilo que o realizador viu na sala de correção original.

Também importa distinguir sala de cinema e sala de estar. Numa projeção 4K real, o ficheiro exibido tem um débito de dados muito superior ao de qualquer serviço doméstico. Em casa, mesmo quando o ecrã indica 4K, o filme está sujeito a compressão variável, dependente da internet e da gestão de tráfego da plataforma.

Há um dado técnico raramente discutido: um disco físico 4K UHD pode transportar entre 60 e 90 GB para um filme de duas horas; um stream 4K ronda muitas vezes 10 a 20 GB. A palavra-chave não é resolução, é bitrate. Enquanto um disco pode atingir 50 a 100 Mbps de forma estável, um stream oscila frequentemente entre 10 e 25 Mbps. O resultado vê-se nas sombras que se transformam em manchas, nos céus com bandas de cor visíveis, no grão que vira massa digital.

Dois ficheiros podem apresentar a etiqueta “4K” e oferecer experiências radicalmente diferentes. Um Blu-ray 1080p bem masterizado, com bitrates de 30 a 40 Mbps e áudio sem perdas, pode ter imagem mais sólida do que um 4K em streaming com compressão agressiva. Em muitos contextos domésticos, o impacto mais visível para o espectador comum vem do HDR e da gama de cores alargada — não necessariamente do aumento puro de resolução.

Seven - Sete Pecados Mortais
Seven – Sete Pecados Mortais

Um restauro de qualidade exige contenção: limpar sem apagar identidade, estabilizar sem plastificar, respeitar grão e textura. Compare-se a versão restaurada de Os Verdes Anos, de Paulo Rocha, e percebem-se os detalhes que podem desaparecer. Quando bem feito, porém, o 4K pode ser extraordinário. Restauros como os de Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore, ou O Espelho, de Andrei Tarkovski, permitiram a novas gerações descobrir detalhes antes ocultos pela degradação das cópias.

Curiosamente, realizadores contemporâneos como Christopher Nolan e Quentin Tarantino voltaram a filmar e a exibir em 70mm para recuperar densidade visual e escala épica. Não é nostalgia, é afirmação estética. Do mesmo modo, Paul Thomas Anderson defende que as edições domésticas partam do interpositivo fotoquímico que contém as decisões finais de laboratório, preservando intenção em vez de maximizar nitidez artificial.

Oppenheimer
A película de “Oppenheimer”, de Christopher Nolan, em projector de 70mm

O 4K não é inimigo do cinema. Pode ser, aliás, uma das melhores ferramentas de preservação e arquivo. Mas a tecnologia deve servir a obra, não reescrevê-la. Num tempo em que as plataformas exigem masters 4K por padrão, a tentação de uniformizar tudo é grande. No entanto, o cinema é também textura, atmosfera, grão, sombra.

A melhor versão de um filme não é necessariamente a que tem mais píxeis. É a que melhor respeita aquilo que foi pensado no momento da criação. E isso, como quase tudo na arte, não se mede apenas em números.

Ricardo Lopes

Começou a caminhar nos alicerces de uma sala de cinema, cresceu entre cartazes de filmes e película. E o trabalho no meio audiovisual aconteceu naturalmente, estando presente desde a pré-produção até à exibição.

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