Jogos: The Real Face of a V-Tuber – Análise
The Real Face of a VTuber é uma visual novel de tribunal que expõe o lado mais sombrio da indústria VTuber através de homicídio, meta-humor e dedução.
Jogo: The Real Face of a VTuber
Disponível para: PC
Versão testada: PC
Desenvolvedora: Lilien Games
Editora: WhisperGames
À primeira vista, The Real Face of a VTuber parece brincalhão, colorido, quase enganadoramente leve. Basta, porém, passar uma hora com o jogo para o tom mudar abruptamente para algo muito mais desconfortável, e cativante. Trata-se de uma aventura em formato visual novel que mistura mistério de homicídio, drama de tribunal e sátira à indústria com uma confiança surpreendente.
O jogador assume o papel do Sr. Justin Truth, um procurador relutante lançado num mundo que mal compreende. VTubers, agências, cultura de streaming, nada disto lhe é familiar. Esse desconforto é intencional. Quando o Sr. C, o chefe de uma pequena agência de VTubers, alcunhada de “Chicken”, é encontrado assassinado com a garganta cortada, Justin é forçado a desmontar camadas de personas digitais para descobrir o que é real. A questão central não é apenas quem cometeu o crime, mas quem são estas pessoas por detrás dos avatares.
A jogabilidade segue um ritmo familiar para fãs de Ace Attorney. Investiga-se a agência, recolhem-se provas, interrogam-se suspeitos e tudo converge em confrontos intensos em tribunal. As acusações sucedem-se, as contradições acumulam-se e o botão “Objection” será usado com frequência. Não existe um ecrã tradicional de game over, mas vários maus finais pairam constantemente. Estar errado sabe pior do que perder pontos de vida, e essa pressão psicológica funciona notavelmente bem.
As seis suspeitas, todas streamers, formam um ambiente de trabalho volátil e disfuncional. Todos entram em conflito. Todos escondem algo. Podem ser exaustivas, sim, mas isso faz parte da proposta. Ao longo de cerca de 11 horas, o elenco evolui, por vezes de forma dolorosa, por vezes de forma impressionante. No final, várias personagens sentem-se fundamentalmente transformadas, para o bem ou para o mal.
O guião aposta fortemente em quebras da quarta parede e meta-humor. Na maioria das vezes, isso ajuda a manter o tom leve. Ocasionalmente, enfraquece momentos dramáticos. A experiência poderá variar. O que não varia é o valor educativo do jogo, funciona também como um curso intensivo sobre a cultura VTuber, explicando com clareza e intenção a política das agências, a dinâmica dos fãs e os conflitos entre talento e gestão.
Tecnicamente, o jogo é sólido. Os visuais são polidos, a banda sonora reforça a tensão, e o modelo VTuber personalizado da Lilien Games acrescenta autenticidade. Ainda assim, a localização inglesa tropeça, diálogos mal atribuídos, restos da lingua original e a ausência de ferramentas de recapitulação da investigação podem tornar confusas algumas linhas narrativas complexas. Além disso, a obrigatoriedade de usar a tecla Enter em vez da barra de espaço para avançar o texto é uma escolha estranha e frustrante.
Ainda assim, apesar das falhas, The Real Face of a VTuber é ousado, informado e memorável. Parece fofo. Não é.
Nota: 8/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.





