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Jogos: Skate Story – Análise

Skate Story é uma odisseia surreal através do Inferno, onde a jogabilidade em estado de fluxo, a narrativa poética e as vibrações lo-fi colidem.

Skate Story

Jogo: Skate Story
Disponível para: PC, PlayStation 5, Nintendo Switch 2
Versão testada: Nintendo Switch 2
Desenvolvedora: Sam Eng
Editora: Devolver Digital

Skate Story
Há videojogos que querem desafiar os teus reflexos e há videojogos que querem sentar-te e falar sobre a existência. Skate Story consegue, de alguma forma, fazer as duas coisas ao mesmo tempo, enquanto te põe um skate debaixo dos pés e te pede que devores a Lua. Desenvolvido a solo por Sam Eng ao longo de seis anos, este é um projecto raro e profundamente pessoal, que se sente menos como um produto e mais como uma confissão gravada em vidro.

Jogas como um demónio feito de dor e transparência, a deslizar por uma versão burocrática do Inferno, demasiado luminosa para permitir dormir. A premissa é absurda no papel, mas em movimento torna-se estranhamente coerente. O teu contrato com o Diabo é simples: consumir as Luas que iluminam o submundo e conquistar a tua liberdade. O resultado é uma fábula pós-moderna onde o Inferno de Dante colide com a psicogeografia das ruas de Nova Iorque, filtrada pela estética de cassetes de skate e por um permanente mal-estar existencial.

A nível mecânico, Skate Story mantém tudo apertado e táctil. Não se trata de saltos gigantes nem de perseguir pontuações ao estilo de Tony Hawk. Aqui, o foco está no momentum, no ritmo e na sensação da prancha. Os botões de ombro controlam o posicionamento dos pés, os truques são limpos e legíveis, e o verdadeiro prazer vem de manter o fluxo. Quando falhas, e vais falhar, o teu corpo de vidro estilhaça-se instantaneamente. Os reinícios são rápidos, reforçando essa mentalidade arcade: falhar, reiniciar, tentar outra vez.

Skate Story

O jogo alterna entre camadas do Inferno em estilo hub e sequências lineares intensas. É nos hubs que o ritmo tropeça ligeiramente. São encantadores, cheios de NPCs bizarros, pombos a escrever guiões, bustos de mármore com opiniões, mas acabam por parecer subaproveitados. As secções lineares, por outro lado, são eléctricas. Exigem precisão sob pressão, com música em crescendo e percursos carregados de obstáculos que transformam o skate num exame de memória muscular que prende os nervos.

Os confrontos com os bosses, as Luas, são pontos altos. Reenquadram o skate como combate, pedindo-te que encadeies combos de elevada qualidade e que acertes pisões decisivos. É um design elegante: a expressão de perícia traduz-se directamente em dano, e a mestria sente-se verdadeiramente conquistada.

Skate Story

Visualmente, Skate Story é inesquecível. A estética cristalina lo-fi, o grão de filme, a câmara trémula e a névoa espectral criam uma textura onírica que permanece muito depois dos créditos finais. A banda sonora de Blood Cultures e John Fio eleva tudo, reagindo dinamicamente à velocidade e ao desempenho. Não é música de fundo, é parte integrante da linguagem de design.

Tecnicamente, a versão para Switch 2 aguenta-se maioritariamente bem, sobretudo no modo Performance, embora quebras ocasionais de frame rate e alguns bugs de colisão quebrem a imersão. A ausência de replay por capítulos é uma decisão estrutural discutível, e o pico de dificuldade no final do jogo surge de forma abrupta.

Skate Story

Ainda assim, com todas as suas falhas, Skate Story é um clássico em espírito. Dá prioridade ao ambiente, ao significado e ao movimento em detrimento da convenção. É skate como poesia, falhanço como feedback e o Inferno como um lugar através do qual se aprende a fluir.

Nota: 9/10

 

António Moura

Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.

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