Jogos: Lovish – Análise
Lovish combina plataformas, humor negro e design centrado em puzzles numa história de amor caótica, onde o romance se torna uma arma e uma piada.
Jogo: Lovish
Disponível para: PC, PlayStation 5, Nintendo Switch, Xbox Series
Versão testada: PlayStation 5
Desenvolvedora: LABS Works
Editora: DANGEN Entertainment
Lovish apresenta-se como um cartucho de NES esquecido que poderias ter alugado no início dos anos 90, mas em poucos minutos torna-se claro que isto é menos uma missão de resgate e mais uma sátira à insegurança heroica. Sir Solomon não está a salvar a Princesa Tsuna por dever nobre; está a agir por paranoia romântica, convencido de que ela se apaixonará por outra pessoa se ele não agir primeiro. Só essa premissa define o tom de um jogo que provoca constantemente as convenções narrativas dos clássicos jogos de aventura, enquanto continua a funcionar como um platformer surpreendentemente disciplinado.
A mecânica central, o “raio do amor” de Solomon, define a experiência tanto a nível mecânico como cómico. Em vez de derrotar monstros, obrigá-los a uma devoção constrangedora, transformando encontros com bosses em punchlines absurdas envoltas em desafios de jogabilidade legítimos. É parvo, ligeiramente desconfortável e consistentemente engraçado, da forma que só uma paródia retro autoconsciente consegue ser. O texto demonstra conhecer a história dos videojogos e confia que o jogador também a compreende, o que faz com que o humor resulte na maioria das vezes.
Em termos estruturais, Lovish é construído em torno de níveis compactos de ecrã único que parecem pequenos laboratórios de platforming. A precisão importa. O timing importa. Tudo importa quando só tens um ponto de vida. O generoso conjunto de vidas, frequentemente bem acima de cem corações, cria uma curva de tensão interessante. Podes falhar repetidamente, mas o jogo regista silenciosamente os teus erros como num livro-razão. O resultado é um ciclo que parece permissivo momento a momento, mas exigente ao longo de uma sessão completa. Os controlos são precisos e previsíveis, algo essencial porque os perigos escalam rapidamente, desde chamas fantasmagóricas perseguidoras até dragões e armadilhas ambientais que transformam os níveis numa coreografia.
Entre níveis, Lovish torna-se deliberadamente imprevisível. Eventos aleatórios surgem constantemente, por vezes recompensando o jogador, por vezes castigando-o apenas por efeito cómico. Estes momentos funcionam como pequenos intervalos jogáveis, ocasionalmente transformando-se em desafios de reflexos rápidos ou mini-jogos estranhos. O design caminha numa linha ténue entre caos lúdico e frustração genuína, especialmente quando um mau resultado consome corações preciosos perto do fim de uma sessão. Ainda assim, a aleatoriedade reforça a piada central do jogo: a aventura é confusa, injusta e raramente heroica como as histórias prometem.
Os sistemas de progressão acrescentam uma profundidade inesperada ao que inicialmente parece um platformer minimalista. As moedas recolhidas durante as tentativas alimentam lojas geridas por Purin e Sara, onde Solomon evolui gradualmente de cavaleiro frágil para explorador versátil. Novas opções de movimento, ataques direcionais e utilidades baseadas em relíquias expandem o vocabulário mecânico sem quebrar o design compacto do jogo. O sistema de coroas incentiva ainda mais a repetição de níveis, encorajando jogadores completistas a revisitá-los com novas estratégias. Desbloquear ajudantes como Mort, uma Morte Ceifeira especializada em combates contra bosses, acrescenta uma camada de escolha estratégica que contrasta bem com a estrutura rígida dos níveis.
Visualmente, Lovish consegue modernizar a estética NES sem perder autenticidade. Os ambientes em pixel art são limpos e expressivos, e as sequências animadas elevam a apresentação para além da simples nostalgia. Referências a labirintos de Zelda, bosses ao estilo de Castlevania e ícones clássicos do platforming surgem com frequência, mas nunca parecem imitações baratas. A banda sonora merece destaque por captar a energia dramática dos RPGs 8-bit, soando por vezes como um spin-off perdido de Final Fantasy composto durante um excesso de cafeína.
O desempenho técnico é, na sua maioria, estável, embora pequenos detalhes de interface ocasionalmente perturbem o fluxo. A ausência de um acompanhamento claro dos corações em certos menus parece uma falha de usabilidade, e alguns jogadores poderão encontrar pequenos problemas ao alternar o áudio. Mais divisiva é a cadência forçada dos eventos após cada nível, que pode abrandar sessões de repetição quando os jogadores apenas querem optimizar percursos.
Lovish prospera, no fim de contas, no contraste. É mecanicamente rigoroso mas narrativamente ridículo, nostálgico mas autoconsciente, punitivo mas generoso. O jogo compreende os fundamentos do platforming e respeita-os, mesmo enquanto transforma a fantasia heroica numa farsa romântica.
Nota: 8/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.





