Jogos: Incantation – Análise
Incantation transforma um filme de terror arrepiante num jogo visualmente competente, mas mecanicamente superficial e difícil de justificar.
Jogo: Incantation
Disponível para: PC, Nintendo Switch, PlayStation 5, Xbox Series
Versão testada: Nintendo Switch
Desenvolvedora: Eastasiasoft, Softstar Entertainment Inc.
Editora: Eastasiasoft

Há algo de imediatamente apelativo em Incantation no papel. Adaptar um dos filmes de terror taiwaneses mais inquietantes dos últimos anos para uma aventura cinematográfica na primeira pessoa parecia, à partida, uma aposta segura, sobretudo para um público que vive de atmosferas sufocantes e horror assente no folclore. O ponto de partida faz bem a sua parte: Jia Jun Lee regressa à sinistra Chen Family Village depois de receber uma carta que sugere que a sua filha Mia, desaparecida há seis anos, pode ainda estar viva. É uma premissa carregada de peso emocional, misticismo de culto e tensão psicológica. Infelizmente, assim que a intriga inicial assenta, o jogo revela-se muito menos impactante do que o material que lhe deu origem.
Em abono da verdade, Incantation acerta no ambiente em vários momentos. A arquitectura opressiva da aldeia, os corredores mergulhados na escuridão, a imagética ritualística e o uso de superstições taiwanesas criam um cenário que soa autêntico em vez de artificial. Nota-se uma intenção clara de produção e, visualmente, o jogo sabe muitas vezes como enquadrar um susto. As sequências com a lanterna, em particular, exploram bem a linguagem do terror claustrofóbico. Mas a atmosfera, por si só, só consegue levar o jogo até certo ponto, e é aqui que começam a surgir as falhas.
A jogabilidade é desapontantemente conservadora. A exploração resume-se ao ciclo habitual de percorrer espaços apertados, ler notas espalhadas, recolher objectos-chave e resolver puzzles que raramente ultrapassam o nível do “encontra objecto, abre porta, repete”. O ritmo torna-se repetitivo muito depressa, e não naquele sentido de slow burn que o bom terror tantas vezes utiliza. Aqui, a sensação é mais de enchimento. As mecânicas de furtividade também ficam aquém: agachar, esconder, correr quando surge um espírito e depois retomar exactamente a mesma rotina. Sem combate, o jogo precisava de sistemas de tensão mais refinados ou de inimigos com um comportamento mais inteligente, mas a maioria dos encontros acaba por soar demasiado guiada e previsível.
A narrativa sofre igualmente com esta rigidez. Embora os temas da angústia maternal, do trauma familiar e dos rituais proibidos sejam fortes, a forma como a história é contada carece de progressão. O núcleo emocional nunca atinge totalmente o impacto desejado porque a escrita depende demasiado da exposição através de documentos e pistas ambientais, em vez de deixar o horror emergir de forma orgânica. O que deveria ser devastador acaba, muitas vezes, por soar apenas funcional.
Talvez este seja o aspecto mais frustrante de Incantation: nunca é propriamente mau, nunca chega a ser um desastre, mas permanece dolorosamente mediano. Para os aficionados do género, sobretudo para quem conhece o filme, a sensação é a de uma versão diluída de algo que já foi muito mais perturbador. Tem o aspecto certo, tem o som certo, mas demasiadas vezes esquece-se de cumprir verdadeiramente o papel de jogo.
Resta concluir que, Incantation acaba por ser uma experiência que vive muito mais da premissa do que da execução. Há aqui boas ideias, sobretudo na forma como aproveita o imaginário do terror taiwanês e a carga emocional da história, mas quase tudo o resto fica aquém do esperado. A atmosfera resulta, os cenários cumprem e existem momentos capazes de gerar desconforto, mas a repetição das mecânicas, a falta de variedade e a ausência de verdadeiro impacto narrativo impedem-no de deixar marca. Para os fãs do filme, poderá valer a pena pela curiosidade de revisitar este universo noutra linguagem, mas enquanto jogo de terror, Incantation raramente consegue elevar-se acima do mediano. É um título competente, sim, mas também demasiado seguro, demasiado previsível e, no fim, menos memorável do que deveria ser.
Nota: 5,5/10
Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.




