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Jogos: CloverPit – Análise

CloverPit mistura estratégia roguelike com o vício das slot machines dentro de uma sombria cela prisional, entregando tensão, horror e uma rejogabilidade viciante.

CloverPit

Jogo: CloverPit
Disponível para: PC
Versão testada: PC
Desenvolvedora: Panik Arcade
Editora: Future Friends Games

CloverPit

Se Balatro parecia uma brincadeira com os teus impulsos de jogo, CloverPit, da Panik Arcade, é a chapada fria na cara. Este roguelike não se contenta em deixar-te brincar com números e combinações, atira-te para uma cela imunda, tranca a porta e exige que rodes para salvar a vida. A premissa é simples: pagar a tua dívida a uma slot machine demoníaca ou desaparecer pelo alçapão debaixo dos teus pés. A execução, no entanto, é aí que CloverPit mostra os dentes.

O cenário é claustrofóbico e hostil. Cada detalhe, desde as lâmpadas a piscar até à sanita lúgubre (sim, é funcional, e sim, importa), aprofunda a atmosfera opressiva. A própria slot machine parece viva: um centro grotesco, a brilhar e a pulsar em contraste com a imundície à volta. A cada melhoria comprada, a cela enche-se, transformando-se de prisão desolada em santuário desesperado. Junta sons ambientes arrepiantes, chamadas distorcidas de um estranho desconhecido e uma ventoinha gigante que podes ajustar apenas para torturar os ouvidos, e a faceta de horror torna-se inegável.

No seu cerne, CloverPit gira em torno do ciclo das rodagens. Deposita moedas, roda os rolos, reza ao RNG e tenta juntar o suficiente para cobrir a dívida em constante crescimento. Falha o prazo, a cada três rondas, e o alçapão engole-te por completo. Simples no papel, mas a slot machine é uma besta de cinco rolos e quinze ícones, com truques de pontuação, potencial de jackpot e padrões amaldiçoados que podem transformar sorte em ruína num instante. O RNG domina o início da partida e pode ser implacável. Algumas seeds são impossíveis, outras abençoadas. Mas quando começas a dobrar as probabilidades com estratégia, o brilho do design revela-se.

CloverPit

É aí que entram os amuletos. Com mais de 150 bugigangas bizarras, desde as úteis (mais rodagens, taxas de juro aumentadas) até às absurdas (um frasco de urina que multiplica ícones amarelos), surgem sinergias capazes de virar uma corrida perdida de pernas para o ar. Combinar amuletos é o verdadeiro núcleo da experiência, mais do que a sorte pura. Descobrir aquela combinação que multiplica pagamentos em cascata é profundamente satisfatório, e a variedade de efeitos mantém cada partida surpreendente. É caótico, castigador, mas também infinitamente rejogável.

A rejogabilidade aqui não depende de meta-progression. As corridas reiniciam limpas, com apenas amuletos e estranhezas desbloqueados a apimentar a oferta. Memory Cards e gavetas persistentes na cela acrescentam variações, mas o verdadeiro incentivo é a descoberta. Será que a próxima rotação te aproxima da glória do jackpot ou de um acordo grotesco ao telefone que distorce a corrida? É este equilíbrio, curiosidade versus receio, que faz com que CloverPit fique na memória muito depois de fechares o jogo.

CloverPit

Claro que não é perfeito. A curva de aprendizagem é acentuada e o jogo explica quase nada. Termos como “chain ranking” podem deixar-te confuso, e as horas iniciais, pesadas em RNG, arriscam afastar quem não tem paciência. Alguns amuletos são demasiado obscuros, desperdiçando potencial. E, para quem deseja progressão a longo prazo, o design de “sem upgrades além do conhecimento” pode soar repetitivo.

Ainda assim, para quem estiver disposto a mergulhar na imundície e abraçar o caos, CloverPit oferece algo raro. É em partes iguais simulador de jogo, experiência de horror e estratégia roguelike, equilibrando esse cocktail com uma subtileza surpreendente. Onde a maioria dos jogos inspirados em slots aposta no espetáculo, este aposta no desconforto. O silêncio entre rodagens, a máquina grotesca a encarar-te, o quarto opressivo a fechar-se, é uma atmosfera, e funciona.

CloverPit

CloverPit não é um jogo para todos. É exigente, punitivo e muitas vezes injusto. Mas também é inteligente, atmosférico e incrivelmente viciante quando resulta. Se adoraste a tensão de Buckshot Roulette, as sinergias de Balatro ou a loucura de perseguir números em Luck Be a Landlord, esta é a fusão profana que estavas à espera. Para os restantes, mais vale manterem-se longe da slot.

Nota: 8/10

António Moura

Um pequeno ser com grande apetite para cinema, séries e videojogos. Fanboy compulsivo de séries clássicas da Nintendo.

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